O Resgate da Defesa Nacional

A defesa nacional não desperta interesse. Nosso poder militar é visto mais em seus papeis influentes no cotidiano e na sín­drome da insegurança pública do que como ins­trumento de defesa. O preparo militar da Aero­náutica é irrelevante, mas a crise dos controlado­res de voo a evidenciou, porque ameaçava o transporte aéreo. A Marinha é cobrada quando ocorre acidente até com embarcação de recreio. Já o seu preparo militar não merece atenção. Em pesquisas de opinião, nossas Forças Armadas são bem hierarquizadas na confiabilidade, mas trata­-se de uma confiabilidade difusa, num universo público medíocre – área em que elas se distan­ciam do generalizado clima venal. A defesa na­cional em si é irrelevante na mesma avaliação, provavelmente sequer cogitada.

O desinteresse se deve à propensão da base da pirâmide social e de parte de seus estratos su­periores a só verem as questões concretas do va­rejo socioeconômico e lúdico da vida – e à con­comitante relutância de se empolgarem com (até de entenderem) questões vistas como abstratas, entre elas a defesa nacional. Em segmentos da classe média, o desinteresse é reforçado pelo preconceito decorrente da interveniência militar na política, o que está em fase de superação, mas ainda resiste no sectarismo radical. Em outros segmentos, o desinteresse se dá pela ideia da im­plausibilidade de ameaça, que justificaria a au­sência da dimensão militar em nossa inserção internacional. Influência incisiva: o desinteresse é forte na política porque a defesa nacional não gera votos, e a organização militar, refratária ao patrimonialismo e clientelismo, só é lembrada na questão salarial, que gera votos.

Reflexo da visão do autor, este artigo não pre­tende transformar a apatia em fascínio e, muito menos, o não familiarizado em expert.Pretende apenas contribuir, em nível conceitual básico, para o resgate da defesa nacional do desinteresse vigente na sociedade, contribuindo para que o público pouco familiarizado, interesse-se pelo tema, aceitando o fato de que uma capacidade militar convincente, ainda que sóbria, ajudará o Brasil a ocupar a posição na ordem internacional a que o credenciam suas condições geopolítica, econômica e demográfica. Isso ajuda a respaldar a solução negociada de contenciosos.

Cenários

Que papeis cabem aos sistemas de defesa no mundo do século XXI e como eles devem ser configurados? Vamos delinear uma resposta para o Brasil, em nível conceitual básico e em ter­mos adequados ao público não familiarizado, pau­tada por essa premissa realista: a agenda brasileira é global na economia e nos cuidados humanitários e ambientais, mas na segurança deve ser princi­palmente regional: América do Sul (e, ao menos por razões humanitárias, a América Central e o Caribe) e Atlântico Sul, em particular o ocidentalFora dessa região é razoável admitir que a presença brasileira na esfera da segurança deva ser de cooperação ou até mesmo simbólica. Comecemos com os cenários que dão amparo lógico à concep­ção da defesa e ao preparo militar, sujeitos a alte­rações com a evolução dos acontecimentos.

a. A defesa brasileira associada à defesa coleti­va regional, no figurino do Tratado Interame­ricano de Assistência Recíproca / Tiar (de 1947) só terá sentido novamente se voltarem a ocorrer tensões globais como as do século XX. O Conselho de Defesa Sul-Americano (criado em 2008 sem os EUA), com seu en­volvimento mundial, treinamentos conjuntos, intercâmbio de pessoal, participações con­juntas em forças de paz e complementação industrial-militar, pode manter discretamente a ideia de defesa coletiva, a ser desenvolvida se e quando for necessária.

b. A segurança compartilhada continua válida para propósitos limitados, definidos em acor­dos bilaterais ou multilaterais entre o Brasil e seus vizinhos, relativos às ameaças irregula­res inerentes à época, por vezes interligadas, muito prováveis nas próximas décadas e já em curso: guerrilha com reflexos transfron­teiriços, terrorismo, narcotráfico, contraban­do, pirataria, exploração irracional de recur­sos naturais, deterioração ambiental e quais­quer outras modalidades de delito ou malfei­to transnacional.

c. Não se vislumbram razões para que o Brasil venha a ser ameaçado (ameaça clássica) por Estado extrarregião. A volta e meia aventada intervenção por motivos ambientais amazô­nicos é implausível, até porque, para influen­ciar nosso comportamento ambiental, mais prática e sem risco é a coação econômica – embargos, selo verde, entre outros. Entretan­to, a dinâmica da história não garante essa segurança no longo prazo e, como poder mi­litar moderno não se improvisa, há que pen­sar moderadamente na hipótese: nossa tran­quilidade deve ser protegida por poder mili­tar sóbrio, mas convincente, capaz de dissua­dir tal ameaça. Mostra-se, portanto, útil para estimular soluções negociadas.

d. A probabilidade de contenciosos territoriais na América do Sul é pequena, ainda que não nula. Exemplos em aparente recesso são o contencioso territorial Venezuela-Guiana, o acesso da Bolívia ao Pacífico e a pendência marítima Chile-Perú. Nos anos 1970, vive­mos um caso que beirou o conflito: o do canal de Beagle, no extremo sul da América do Sul (Argentina x Chile). Nos anos 1990, a desa­vença territorial chegou a um início de confli­to entre Peru e Equador.

Mais que as territoriais, os recursos naturais e o meio ambiente são causas prováveis de con­tenciosos e tensões, já que por sua extensão e fronteiras imensas o Brasil não está imune (se não pelo contrário) a este tipo de conflito. Na década de 1930, Paraguai e Bolívia viveram a “guerra do Chaco”, inspirada no petróleo. Nos anos 1970, a controvérsia entre as hidrelétricas de Itaipu e Corpus (usina argentina não cons­truída, cujo potencial seria prejudicado pela brasileira) induziu a uma preocupação militar, tanto na Argentina quanto no Brasil. Argentina e Uruguai vivem hoje o litígio das indústrias “papeleiras”, vistas pela Argentina como po­luidoras do rio Uruguai.

Quando envolvendo o Brasil, a simples exis­tência de um poder militar entendido como capaz respaldará naturalmente a solução ne­gociada. Ainda que não o envolva, qualquer conflito que afete a tranquilidade regional interessa ao Brasil, que deve fazer-se presen­te da intermediação política à atuação em for­ça de paz, sob mandato internacional (ONU, OEA, Unasul, entre outras entidades).

e. Na hierarquia das preocupações estratégicas brasileiras, a região do Prata perdeu a força do passado, porque não existem hoje motivos para investir nela, mais ainda se os tropeços da integração econômica vierem a ser resol­vidos. A Amazônia merece, neste momento, mais cuidado. Não se trata de ameaça clássi­ca de Estado(s) vizinho(s), muito imprová­vel, ao menos no horizonte do tempo imagi­nável. A hierarquia se deve fundamentalmen­te às supracitadas ameaças irregulares trans­fronteiriças, a que a permeabilidade da Ama­zônia brasileira a faz vulnerável, exigindo atenção militar coerente com suas caracterís­ticas geofísicas, ecológicas, demográficas e socioeconômicas.

f. No mundo do século XXI, crescentemente integrado, continuarão prováveis as interven­ções promovidas ou legitimadas por organi­zações internacionais (ONU, OEA e simila­res da África e Ásia) por razões humanitárias e/ou em prol da ordem de interesse suprana­cional, em conflitos entre países ou internos, decorrentes de contenciosos territoriais, tri­bais, étnicos, religiosos, migração descontro­lada, uso controverso de recursos naturais, catástrofes da natureza e deterioração am­biental. Em nível global, cabe ao Brasil ape­nas a participação coadjuvante nas forças de paz (manutenção da ordem e defesa civil, com capacidade ofensiva de acordo com a si­tuação), como foi o caso do “batalhão Suez”, em Gaza, há 50 anos, da presença de uma Fragata para apoiar o bloqueio de armas no Mediterrâneo oriental, atualmente, ou do en­vio de pequeno contingente terrestre para Ti­mor Leste, de maneira simbólica. Já na nossa região, a participação brasileira deve ser sig­nificativa, como foi em Santo Domingo, na República Dominicana (guerra civil nos 1960) e está sendo no Haiti (terremoto, em 2010, e a consequente desordem interna).

g. Embora o poder militar se destine primor­dialmente à defesa externa (ameaças clássi­cas e irregulares) e, complementarmente, às missões de força de paz, cabe-lhe também a ordem interna, de acordo com a constituição e as leis, onde / quando a ação policial é insa­tisfatória (segurança em grandes eventos, controle de grave perturbação da ordem e participação transitória em ações policiais excepcionalmente exigentes de meios milita­res) ou impraticável (espaço aéreo, mar sob jurisdição brasileira, extensões fronteiriças). O uso das Forças Armadas na rotina da segu­rança pública é inconveniente: ele as com­promete em questão interna além do razoável na democracia e tende a depreciar a missão militar precípua, na visão do povo.

h. No plano não propriamente de defesa, há que considerar as atividades subsidiárias das Forças, como a segurança da navegação aé­rea / aquaviária, a participação em projetos especiais, a exemplo da presença do Brasil na Antártica, a cooperação social (é o caso da assistência médica na Amazônia) e o apoio à defesa civil em catástrofes.

Esboço do poder militar

Cabe esboçar agora o poder militar coerente com os cenários, também sujeito a ajustes impostos pela evolução nacional, internacional e tecnológica. Sintético (talvez não tanto para a Marinha e pouco desenvolvido para o Exército e Aeronáutica, em razão do DNA profissional do autor), o esboço traduz uma idealização mode­rada compatível (ou ao menos conciliável) com os documentos oficiais vigentes – a Política de Defesa Nacional, a Estratégia Nacional de De­fesa e o Livro Branco da Defesa. Rigorosamente conceitual, sem considerações sobre dimensão, número, tipo tecnológico, armas e complemen­tos, assuntos próprios aos desdobramentos pro­fissionais, o esboço respeita a premissa do início do tópico cenários e admite que o Brasil não é grande potência militar, mas deve ser convin­cente e capaz de: 1) praticar estratégias defensi­vas (cenários ) que dissuadam ameaças de Estado(s) – hoje improváveis, mas não impossí­veis no longo prazo histórico – e as abortem, se acontecerem; 2) controlar (cenários e / g) o espaço aéreo, o mar sob jurisdição brasileira e a fronteira terrestre – em modelo coerente com as circunstâncias locais; 3) exercer presença signi­ficativa (cenário f) na ordem regional e coadju­vante ou pelo menos simbólica, no mundo; e 4) contribuir para a ordem interna (cenário g).

Marinha: navios e submarinos são usados para a defesa contra ameaças clássicas e contri­buem para a segurança geral no Atlântico Sul, sobretudo ocidental; unidades típicas de Guarda­-Costa controlam rotineiramente o mar sob juris­dição brasileira e protegem instalações maríti­mas (onde se insere o tema do pré-sal); fuzileiros navais funcionam como força expedicionária de porte médio e participam em força(s) de paz, com a correlata capacidade de transporte, de­sembarque e apoio; unidades próprias às opera­ções ribeirinhas (embarcações, fuzileiros navais, helicópteros) realizam o controle da Amazônia e do rio Paraguai; e unidades regionais de fuzilei­ros navais atuam em missões de segurança inter­na. O apoio de base ao longo do litoral é requisi­to do emprego do poder naval como conjuntural­mente adequado.

No pós-Segunda Guerra Mundial, o porta­-aviões tem servido à projeção de poder, não ten­do ocorrido confrontos aeronavais, nem proteção aeronaval ao tráfego marítimo. Sua utilidade na defesa é discutível. O modelo argentino, por exemplo, não foi usado no conflito das Malvinas. O quadro brasileiro pode não enfatizá-lo hoje, mas as vicissitudes de nossa futura presença inter­nacional sugerem uma força aeronaval que man­tenha e desenvolva o know how na área e que seja ampliada se e quando for conveniente. Substituir nosso porta-aviões e seus aviões em fim de vida é um projeto para o prazo de dez anos.

Exércitounidades de elite (unidades clássi­cas e as de operações especiais, que o mundo con­temporâneo vem evidenciando) devem estar pre­paradas para a defesa tradicional e, complemen­tarmente, para a participação em forças de paz.

Excepcionalmente também devem cooperar na garantia da ordem interna, dotadas de bom nível tecnológico e servidas por mobilidade estratégica que permita o deslocamento para a região que pre­cise delas. Na Amazônia, há que se completar a rede de unidades de fronteira, em coerência com a região no tocante à organização, distribuição, equipamento, mobilidade e apoio logístico para a defesa territorial, atuação antiguerrilha e controle de fronteira. A rede de unidades de fronteira deve ser estendida ao restante da fronteira terrestre, em conformidade com as condições geofísicas, de­mográficas e socioeconômicas, variadas ao longo dela. As demais unidades distribuídas no território nacional precisam ter condições de contribuir para a defesa territorial, de participar como exigido pela situação e estar em conformidade com a Constituição e a lei na garantia da ordem interna e na proteção de instalações e serviços vitais contra ameaças irregulares.

Força Aéreaum núcleo moderno e expressi­vo de defesa aérea no paradigma da defesa clás­sica se faz necessário, assim como unidade(s) aérea(s) de apoio aerotático a operações terres­tres na defesa clássica e na antiguerrilha, unidade(s) aérea(s) de vigilância e controle roti­neiro do espaço aéreo e de patrulha aérea maríti­ma e, um aspecto importante no quadro territo­rial brasileiro, a capacidade de prover mobilida­de aeroestratégica para unidades terrestres. Tal como no caso da Marinha, para que o poder aé­reo possa ser usado em função da necessidade, é preciso dispor de apoio de base nas várias regiões do Brasil.

Além do preparo propriamente militar esbo­çado, há que se atentar também para as ativida­des subsidiárias, em particular aquelas em que as Forças Armadas são imprescindíveis e por ora insubstituíveis (segurança da navegação aquavi­ária / aérea) ou muito convenientes (presença na Antártica e apoio a populações marginalizadas).

Todo esse conjunto precisa ser apoiado por sistemas modernos de comunicações, de coman­do e de controle e vigilânciaA vigilância tem importânciaem particular, no espaço aéreo, no mar sob jurisdição brasileira e nas regiões fron­teiriças – conceito espacial de profundidade vari­ável com as circunstâncias geofísicas, demográ­ficas e socioeconômicas, obviamente grande na permeável Amazônia. Inserem-se nesse tópico alguns desafios da modernidade, como, por exemplo, os Vant (veículos aéreos não tripula­dos) e o(s) sistema(s) de satélite(s) de comunica­ções e vigilância, sob controle brasileiro, inclusi­ve na fabricação e no lançamento dos satélites.

Problemas

Nossa defesa nacional vive problemas de material, pessoal, organização e recursos, alguns comuns ao mundo e outros peculiares da nossa região. Vejamos alguns exemplos, que pro­piciam ao leitor não familiarizado uma ideia da amplitude e da complexidade da defesa nacional.

Tecnologia e indústria: O desenvolvimento tecnológico-industrial e a defesa nacional estão associados. No desenvolvimento da configuração material do poder militar é preciso ter presente a conveniência de ampliar a participação da indús­tria nacional. Tal como ocorre no mundo desen­volvido, há que engajar nesse processo institui­ções civis públicas e privadas de pesquisa, univer­sidades e indústria, como vem fazendo a Marinha no caminho para a propulsão naval nuclear. O Brasil pode aproveitar o fato de não se vislumbrar ameaça grave, ao menos no horizonte de curto e médio prazos, para o desenvolvimento de tecnolo­gia de defesa e sua industrialização no país.

Nossa já razoável capacitação industrial su­gere que a transferência de tecnologia e a produ­ção no Brasil – sendo esta imprescindível no to­cante à manutenção e ao consumo (mísseis, mu­nição em geral) – devam ser quesitos condicio­nantes da importação. Isso implica a associação de indústria(s) estrangeira(s) e nacional(ais) e a capacitação de indústria(s) brasileira(s).

O empenho tecnológico-industrial deve ser abrangente, em coerência com o desenvolvimento nacional, mas merece realce o que atende à autono­mia logística, indispensável à soberania operacio­nal. Os equipamentos de alta tecnologia julgados importantes, cuja obtenção com controle tecnológi­co (e, com ele, o controle operacional) são cercea­dos pelos países fornecedores. Alguns exemplos relevantes são os mísseis táticos (ar-ar, ar-superfí­cie, superfície-superfície, antiaéreo) e o lançador de satélites (“primo tecnológico” do míssil balístico), a guerra eletrônica e a cibernética, a vigilância e as comunicações envolvendo sistema(s) de satélites, os Vant e a propulsão nuclear para submarinos.

Nossas Forças continuarão, talvez, por algum tempo clientes limitados, e a exportação é difi­cultada pelas potências tradicionais no ramo. A viabilidade econômica aponta, portanto, para a produção de material de defesa em indústrias de produção civil e militar, a exemplo da Embraer.

IntegraçãoOutro tema a ser enfatizado é o incremento da eficiência militar pela integração possível das Forças nos planos estratégico, tático, logístico e da inteligência, tanto mais racional quanto maior é o avanço tecnológico, que vem re­duzindo as estanqueidades naval, terrestre e aérea do passado. O processo de integração, sujeito à influência da tradição de autonomia das Forças, foi vivido e está razoavelmente resolvido, ainda que com tropeços, onde o poder militar é prepara­do, visando à eficiência integrada – com exemplar sucesso nos EUA. A Amazônia, localidade ineren­temente terrestre, fluvial e aéreo, é apropriada para a prática da integração, com a identificação de seus problemas e a procura das soluções.

Ator importante no processo, o Ministério da Defesa é responsável por conduzir a conciliação das visões estratégicas, doutrinas e procedimen­tos operacionais, logísticos e de inteligência cor­porativos das três Forças e a compatibilização possível de equipamentos. Adotado o Ministério da Defesa nos países de poder militar moderno, seu desempenho no Brasil (onde ainda está em consolidação) exige adequada formação de civis para seus quadros, cuja escassez tem sido ali­mentada pelo desinteresse pela defesa nacional.

Serviço militar e profissionalizaçãoO mo­delo de conscrição universal vigente no Brasil é útil à solidariedade social (atinge ricos e pobres), ao sentimento de unidade nacional (os recrutas passam a ver o país além de suas paróquias) e à valorização social (instrução). Mas, a realidade vem diferindo desse ideal: são recrutados menos de 10% dos inscritos, em geral da base da pirâ­mide social, que têm no serviço militar uma al­ternativa de emprego aos 18 anos. A maioria dos recrutas serve mesmo nas suas regiões de origem – tendência condicionada pela economia e tam­bém porque convém tê-los afeitos às peculiarida­des locais, como é o caso da Amazônia (um re­cruta de Ipanema (RJ) não veria a ameaça de uma cobra ou jacaré com a mesma tranquilidade de um caboclo amazônico).

Essa realidade inclui um tema que preocupaa qualificação de pessoalUm ano de serviço mi­litar é pouco para preparar nosso jovem recruta, em geral de precária formação escolar, para atuar com equipamentos complexos, em situações táti­cas que as injunções tecnológicas as fazem co­mumente também complexas. Esse problema diz mais respeito ao Exército (um marinheiro nosso passa por escola de formação, antes de “embar­car”). Em países de poder militar moderno, For­ças Armadas mais profissionalizadas estão subs­tituindo as de recrutas anuais, ainda que não to­talmente. Mas, a profissionalização um problema já sensível onde ela cresceu: a defesa nacional tende a ser vista pela sociedade como problema restrito aos profissionais.

A tecnologia moderna reduz a necessidade de combatentes (um avião de bombardeio da Se­gunda Guerra Mundial precisava de dez tripulan­tes,; hoje, temos os Vant e mísseis). Em contra­partida, esse novo cenário exige mais pessoal técnico, que apenas parcialmente precisa ser mi­litar. A participação de pessoal civil, até das em­presas fabricantes, já acontece no mundo desen­volvido, em particular nos EUA.

Merece atenção o preparo dos militares para o trato de questões intervenientes e de limites di­fusos, militares e civis. No mundo de hoje, o su­cesso militar não é em si a solução, mas assegura condições para que ela aconteça nos complica­dos meandros políticos, sociais, econômicos, culturais e religiosos – haja vista o que ocorre atualmente no Oriente Médio (na verdade, nunca foi a solução definitiva, mas atualmente a misce­lânea civil-militar é mais complexa). Cultura deixou de ser verniz atraente, passando a ser moldura conveniente, assim como o conheci­mento de idiomas.

O serviço militar exige análise cuidadosa, que avalie se e quanto os efetivos poderão e/ou deverão ser profissionalizados. Seja qual for a orientação, é imperativa a preservação da res­ponsabilidade de todos pela defesa nacional e a possibilidade de convocação de todas as classes, quando e como necessária.

Na relação entre militares e sociedade, nossos efetivos são pequenos no mundo. Entretanto, não é razoável dimensioná-los pela população, e sim pelas vulnerabilidades e preocupações que condi­cionam a capacidade militar conveniente ao país. O tamanho da população como parâmetro pressu­põe o controle do próprio povo como uma razão do sistema militar, e não é esse o caso brasileiro. Nossos efetivos militares têm que ser – e estão sendo – dimensionados ponderadamente.

Orçamento: Se a ameaça não é percebida como grave, fica difícil conseguir aumento signi­ficativo do orçamento da defesa que, embora seja menor apenas do que o da previdência, o do su­perávit primário, o das transferências constitu­cionais e o da saúde, é hoje insatisfatório. O que se pode esperar nos curto e médio prazos é o au­mento discreto, dependente da dinâmica da eco­nomia e da receita fiscal.

A restrição financeira exige sobriedade realista na identificação de preocupações e vulnerabilida­des e na consequente definição de prioridades do preparo militar – provável razão de polêmicas e de resistência de visões corporativas militares, se não até de interesses industriais e, a reboque, político­-paroquiais. É preciso compatibilizar o sistema militar e seu preparo com as limitações fiscais, compreensíveis diante dos graves problemas so­cioeconômicos brasileiros. Errado, no entanto, é a defesa nacional atuar menos por parâmetros de responsável opção racional e mais na onda do de­sinteresse pelo tema, como vem ocorrendo.

Esse processo inclui temas complexos e con­troversos como, por exemplo, a existência de or­ganizações ou unidades de relação custo e benefí­cio discutível, cuja extinção frequentemente afeta interesses socioeconômicos locais ou corporati­vos das Forças. O tumulto criado por projetos no­vos, nem sempre inspirados em razões decisiva­mente imperativas, sobre a continuidade de proje­tos complexos e longos – problema comum no serviço público brasileiro –, faz com qu,e com frequência, nada fique totalmente pronto.

O orçamento insatisfatório é agravado por seu perfil, problema que se assemelha ao de ou­tros setores da estrutura pública nacional: cerca de 70% a 75% vinculados ao pessoal, cabendo aos 25% a 30% restantes, sujeitos a contingen­ciamentos, a obtenção / construção de meios e instalações militares (investimento), manuten­ção, treinamento e pagamento de compromissos. Esse perfil interage com as questões salarial e previdenciária. Simplesmente, aumentar a parti­cipação do pessoal no perfil agravaria a situação a um patamar absurdo. A condução sensata desse tema sugere um equilíbrio racional para todo o quadro salarial público: o comedimento será mais bem aceito pelos militares se estendido a todo ele, sem os despautérios vigentes.

Conclusão

À vista do exposto, estão corretos nossa con­cepção de defesa nacional e nosso modelo organizacional e preparo militar. São eles coeren­tes com nossas vulnerabilidades e preocupações verossímeis? Tal pergunta é corrente no mundo, não sendo apenas um problema brasileiro.

Como dito no início, este artigo delineia sin­teticamente uma ideia estritamente conceitual de resposta-paradigma, útil ao leitor pouco familia­rizado (e geralmente pouco interessado) com a defesa nacional e o poder militar: uma concep­ção de defesa nacional realista e um poder mili­tar comedido, mas convincente, capaz de respal­dar o Brasil em coerência com sua presença rela­tiva na sua região e no mundo, enquanto constru­ímos um país economicamente mais forte e so­cialmente mais feliz. Trata-se de uma concepção de defesa e seu correspondente preparo militar não ufanistas e/ou utópicos, mas ponderadamen­te responsáveis, que não exageram as ameaças, mas não as inflacionam “patrioticamente”.

Com o avanço socioeconômico aumentará a dimensão político-estratégica do Brasil, exigin­do a cautelosa revisão do paradigma conceitual delineado e de seus desdobramentos concretos. Mais dia menos dia, a evolução haverá de incluir a questão da condição de membro permanente do Conselho de Segurança da ONU. Destaque dessa natureza não acontece por mera volição política ao estilo neoterceiromundista, mas exige capaci­dade para honrá-lo. A dimensão estratégica dessa capacidade o Brasil não alcançará enquanto pre­valecer entre nós a apatia praticamente autista, societária e política, pela defesa nacional e seu correlato poder militar.

Este artigo terá atingido seu propósito se contribuir para a superação dessa apatia, ainda que equilibrada e sem atropelos “patrioticamen­te” eufóricos.

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