Uma Certa Ideia de Brasil

“Os discursos de quem não viu são discursos;
Os discursos de quem viu são profecias.”
Padre Antônio Vieira, Sermão da Terceira Dominga do Advento, 1669

1 Muitos motivos se somaram, ao longo da nossa história, para dificultar a tarefa de decifrar, mesmo imperfeitamente, o enig­ma brasileiro. Já independentes, continuamos a ser um animal muito estranho no zoológico das nações: sociedade recente, produto da expansão europeia, concebida desde o início para servir ao mercado mundial, organizada em torno de um escravismo prolongado e tardio, única monar­quia em um continente republicano, assentada em uma extensa base territorial situada nos trópi­cos, com um povo em processo de formação, sem um passado profundo onde pudesse ancorar sua identidade. Que futuro estaria reservado para uma nação assim?

Durante muito tempo, as tentativas feitas para compreender esse enigma e constituir uma teoria do Brasil foram, em larga medida, infrutí­feras. Não sabíamos fazer outra coisa senão co­piar saberes da Europa, onde predominavam os determinismos geográfico (“a civilização é uma conquista dos países frios, pois é a vitória das sociedades contra as dificuldades impostas pelo ambiente”) e racial (“a civilização expressa o po­tencial de alguns subgrupos humanos mais ap­tos”) que irremediavelmente nos condenavam. Enquanto o Brasil se olhou no espelho europeu, só pôde construir uma imagem negativa e pessi­mista de si mesmo, ao constatar sua óbvia condi­ção não europeia.

2 Houve muitos esforços meritórios para su­perar esse impasse. Porém, só na década de 1930, depois de mais de cem anos de vida inde­pendente, começamos a puxar consistentemente o fio da nossa própria meada. Devemos ao con­servador Gilberto Freyre, em 1934, com Casa­-Grande & Senzala, uma revolucionária releitura do Brasil, visto a partir do complexo do açúcar e à luz da moderna antropologia cultural, discipli­na que então apenas engatinhava. Abandonando os enfoques da geografia e da raça, Freyre revirou tudo de ponta-cabeça, realizando um tremendo resgate do papel civilizatório de negros e índios dentro da formação social brasileira. Dos portu­gueses, elogiou a miscibilidade, a plasticidade e a mobilidade, características que os distinguiam dos colonizadores de origem anglo-saxã.

A colonização do Brasil, ele diz, não foi obra do Estado ou das demais instituições formais, to­das aqui muito fracas. Foi obra da família pa­ triarcal, em torno da qual se constituiu um modo de vida completo e específico. O latifúndio mo­nocultor e o regime escravista de produzir afasta­vam, separavam, machucavam, mas a família extensa, cheia de agregados, a poligamia num contexto de escassez de mulheres brancas e a presença de considerável escravaria doméstica constituíam espaços de intercâmbio, nos quais negros e negras, índios e índias – especialmente negras e índias –, muito mais adaptados aos tró­picos, colonizaram o colonizador, ensinando-o a viver aqui. Mulatos, cafusos e mamelucos se multiplicaram, criando fissuras na dualidade ra­dical que opunha senhores e escravos.

Nada escapa ao abrangente olhar investigati­vo do antropólogo: comidas, lendas, roupas, co­res, odores, festas, canções, arquitetura, sexuali­dade, superstições, costumes, ferramentas e téc­nicas, palavras e expressões de linguagem. Car­tas de bisavós saem de velhos baús. Escabrosos relatórios da Inquisição são expostos com fina ironia por esse bisbilhoteiro que estava interessa­do, antes de tudo, em desvelar a singularidade da experiência brasileira. Ela não se encontrava na política nem na economia, muito menos nos fei­tos dos grandes homens. Encontrava-se na cultu­ra, obra coletiva de gerações anônimas. Uma cultura de síntese, que afrouxou e diluiu a tensão entre os códigos morais e o mundo-da-vida, ten­são constitutiva das sociedades de tradição judai­co-cristã. Nossa alegria, diz Freyre, a devemos a índios e negros nunca completamente moraliza­dos pelo cristianismo do colonizador. Um cristia­nismo, aliás, que também precisou misturar-se.

3 Devemos a Sérgio Buarque, em 1936, com Raízes do Brasil, um instigante ensaio – “clássico de nascença”, nas palavras de Antônio Candido – que tentava compreender como uma sociedade rural, de raízes ibéricas, experimen­taria o inevitável trânsito para a modernidade urbana e “americana” do século XX. Ao contrá­rio do pernambucano Gilberto Freyre, o paulista Sérgio Buarque não sentia nostalgia pelo Bra­sil agrário que estava se desfazendo, tampouco acreditava na eficácia das vias autoritárias, em voga na década de 1930, que prometiam acelerar a modernização pelo alto. Ele observa o tempo secular da história e considera a modernização um processo. O autor também busca a singula­ridade do processo brasileiro, mas com um olhar sociológico: somos uma sociedade transplanta­da, mas nacional, com características próprias. A dimensão privada e afetiva da vida sempre se sobrepôs – para o bem e para o mal – à impesso­alidade burocrática, não raro descambando para o passionalismo e a impulsividade típicos do ho­mem cordial, num quadro geral de ausência de direitos formais.

Nossa história, diz Sérgio Buarque, girou em torno do “complexo ibérico”. Mas, o êxito da co­lonização portuguesa não decorreu de um empre­endimento metódico e racional e não emanou de uma vontade construtora e enérgica; buscou a riqueza que custa ousadia, não a riqueza que cus­ta trabalho. A ética da aventura prevaleceu sobre a ética do trabalho. É uma herança atrasada, em via de superação, mas foi a base da nacionalida­de, constituiu as “raízes do Brasil”. Não se pode nem se deve, simplesmente, recusá-la e negá-la, mas sim transformá-la.

“Precisamos ousar inaugurar, de forma inédi­ta, o que nunca se fez nessas latitudes” – eis uma frase cheia de significados: devíamos encontrar o caminho para superar o nosso atraso e, ao mesmo tempo, afirmar a nossa identidade, potencializan­do as nossas virtudes. Teria de ser, necessaria­mente, um caminho cheio de especificidades, como são cheios de especificidades, quando au­tênticos, os caminhos de todos os povos. Tre­mendo desafio, numa sociedade, ele diz, em que a inteligência sempre foi um ornamento, um be­letrismo ávido por importar as últimas modas, incapaz de produzir conhecimento e impulsionar qualquer mudança real.

Mesmo assim, Sérgio Buarque é otimista. Anuncia que “a nossa revolução” está em mar­cha, com a dissolução do complexo ibérico de base rural e a emergência de um novo ator deci­sivo – a massa urbana. Crescentemente numero­ sas, libertadas da tutela dos senhores locais, estas massas não mais seriam demandantes de favores, mas de direitos. No lugar da comunidade domés­tica, patriarcal e privada, seríamos, enfim, leva­dos a fundar a comunidade política, de modo a transformar, ao nosso modo, o homem cordial em cidadão.

4 Apenas seis anos depois, em sequência ver­tiginosa, Caio Prado Jr. publica Formação do Brasil contemporâneo, a primeira grande síntese historiográfica brasileira em quase cem anos, se contarmos desde Varnhagen. Realiza nesse texto o definitivo desvendamento das nossas origens como uma empresa colonial, acompanhado da hipótese forte de que a história do Brasil tem um sentido profundo, o da transformação dessa em­presa, que fomos, em uma nação, que seremos.

Caio Prado percebe que a colonização do Brasil representou um problema novo, pois os padrões mais conhecidos de dominação ao longo da história humana – a pilhagem de riquezas acu­muladas, a cobrança de tributos e o estabeleci­mento de comércio desigual – não se aplicavam nestas terras sem metais preciosos (no século XVI) e habitadas por tribos dispersas, que vi­viam no Neolítico. A solução do problema de­mandou mais de 30 anos. Organizou-se, final­mente, uma empresa territorial de grande dimen­são, com administração portuguesa, capitais ho­landeses e venezianos, mão de obra indígena e africana, tecnologia desenvolvida em Chipre e matéria-prima dos Açores e da ilha da Madeira – a cana. Esses elementos foram articulados em uma holding multinacional movida por força de trabalho escrava, mas regida pelo cálculo econô­mico e pela busca do lucro. Tudo o que existia aqui – a paisagem, a fauna, a flora e as gentes – teve de ser decomposto e desfeito, depois recom­posto e refeito, de outras maneiras, para que o empreendimento mercantil prosperasse.

Na origem, diz Caio Prado, não fomos uma nação, nem propriamente uma sociedade; fomos uma empresa territorial voltada para fora e con­trolada de fora. A empresa-Brasil sempre deu certo: propiciou bons negócios e gerou altíssimo lucro. Nos séculos XVI e XVII, foi excelente o negócio do açúcar, a primeira mercadoria de consumo de massas em escala planetária, em tor­no da qual se formou o moderno mercado mun­dial. Foi depois magnífico o negócio do ouro. Graças a ele, a Inglaterra – que nunca teve minas de ouro – constituiu as enormes reservas que lhe permitiram criar, no século XIX, o primeiro pa­drão monetário mundial (o padrão libra-ouro), símbolo e suporte de sua hegemonia. A partir de 1840, até bem entrado o século XX, foi maravi­lhoso o negócio do café, estimulante de baixo custo e fácil distribuição, ofertado à classe traba­lhadora da Europa e dos Estados Unidos, que precisava ser disciplinada para o trabalho fabril. Além disso, permeando toda a nossa história, foi sempre estupendo o negócio do endividamento perpétuo dessa empresa-Brasil, induzido pelos seus controladores de fora.

Porém, a existência multissecular da gigan­tesca e diversificada empresa territorial criou paulatinamente os elementos constitutivos de uma nova nação: “Povoou-se um território semi­deserto; organizou-se nele uma vida humana que diverge tanto daquela que havia aqui, dos indíge­nas e suas nações, como também da dos portu­gueses que empreenderam a ocupação. Criou-se no plano das realizações humanas algo novo (…): uma população bem diferenciada e caracteriza­da, até etnicamente, habitando determinado terri­tório; uma estrutura material particular, constitu­ída na base de elementos próprios; uma organi­zação social definida por relações específicas; e finalmente, uma consciência, mais precisamente certa ‘atitude’ mental coletiva particular. (…) Esse novo processo histórico se dilatou e se ar­rasta. Ainda não chegou ao seu termo”.

Eis aí uma importante chave de leitura para compreendermos as tensões que experimenta­mos até hoje: elas refletem o choque entre o Bra­sil “empresa-para-os-outros” – o que ainda so­mos – e o Brasil “nação-para-si” – o que deseja­mos ser. Completar esse processo e “fazê-lo chegar ao seu termo” – ou, ainda na linguagem de Caio Prado, realizar a Revolução Brasileira – é fazer desabrochar a última grande nacionalida­de do Ocidente moderno, uma nacionalidade tar­dia, cujos potenciais permanecem em grande medida incubados.

5 Devemos, em seguida, a Celso Furtado uma brilhante síntese da Formação econô­mica do Brasil, um texto que também falava de História para mostrar os desafios fundamentais da modernização brasileira no século XX. Como nos demais, Furtado escreve um ensaio de in­terpretação, uma “história pensada”, a partir do ponto de vista de um economista com sólida formação humanista. Descarta a ideia de que o Brasil teria reproduzido tardiamente uma socie­dade de tipo feudal. Descreve as características dos ciclos econômicos baseados na produção de bens primários e impulsionados pela demanda externa e aponta as insuficiências e os desequi­líbrios que deles decorrem. Olha as regiões, es­tuda os casos de decadência sem transformação. Mostra que em nossa história, recorrentemente, a fonte de demanda autônoma foram as exporta­ções de alimentos, matérias-primas e minérios; que o mercado interno se atrofiou, induzindo a um baixo efeito multiplicador da renda gerada; que houve permanente vazamento de riqueza, em grande escala, para o exterior. Permanecemos na periferia do sistema-mundo que nos deu à luz. Como poderíamos sair desta posição?

Ao longo de toda sua obra, Furtado diz que o subdesenvolvimento é um processo específico, que tende a reproduzir-se no tempo, e não uma etapa transitória, que conteria em si, mais ou me­nos naturalmente, as condições de sua superação. O fortalecimento do mercado interno, o desen­volvimento da indústria e a formação de um nú­cleo endógeno de criação e difusão de progresso técnico – necessários para a superação da nossa condição – não poderiam resultar de forças es­pontâneas. Exigiam uma intervenção consciente, voltada para produzir mutações. Tornou-se clás­sica a sua análise sobre a adoção pelo Brasil, de maneira inovadora e pragmática, de eficazes po­ líticas anticíclicas em plena crise de 1929-1933, antes mesmo que essas políticas tivessem sido claramente modeladas pela moderna teoria eco­nômica. Elas criaram uma situação nova, que lançou as bases do nosso processo de industriali­zação. Levá-lo às últimas consequências era o desafio a vencer.

Furtado nunca dissociou conhecimento e va­lores, economia e sociedade: “O processo de re­produção das desigualdades sociais exerce uma influência decisiva sobre as formas de utilização do excedente. Portanto, a composição do exce­dente é em grande parte um reflexo do sistema de dominação social, o que significa que sem um conhecimento das estruturas de poder é impossí­vel avançar no estudo do desenvolvimento das forças produtivas”. Poucos são os economistas atuais capazes de conduzir análises desse tipo.

6 Tributárias de diferentes influências – notadamente Franz Boas, Max Weber, Karl Marx e John M. Keynes, nessa ordem –, essas quatro obras seminais lançaram as bases da mo­derna ciência social brasileira e permitiram o início de uma fecunda reinterpretação do Brasil. Como pano de fundo estava em marcha o ciclo desenvolvimentista, com a força de processos estruturais (e estruturantes) que nos conduziam. Acreditava-se, do passado (população rural, eco­nomia agrícola, território fragmentado) ao futuro (população urbana, economia industrial, territó­rio integrado). Sabendo falar sobre nós mesmos, com a nossa própria linguagem, tínhamos final­mente uma identidade em construção. Sabendo diferenciar passado e futuro, vivíamos, então, em um tempo orientado, condição primeira para se constituir um projeto. Os impasses do Império escravista e a pasmaceira da República Velha ha­viam ficado para trás.

Tivemos muitos outros intelectuais visioná­rios e homens de ação. Entre eles, Darcy Ribeiro talvez tenha sido o maior profeta da civilização brasileira. Inverteu radicalmente os velhos argu­mentos europeus contra nós, afirmando as vanta­gens da mestiçagem tropical diante de uma pre­ tensa pureza temperada e fria. Mostrou como, aos trancos e barrancos, conseguimos fazer um povo-novo a partir dos grupos humanos que o capitalismo mercantil encontrou neste território ou transplantou para cá – na origem, índios des­tribalizados, brancos deseuropeizados e negros desafricanizados; depois, gente do mundo intei­ro. Estudou as características fundamentais desse contingente humano filho da modernidade, o maior povo-novo do mundo moderno. Viu que ele é também um povo-nação, reconhecendo-se como tal, falando uma mesma língua, habitando um território bem definido e tendo criado o seu próprio Estado. Debruçado em ampla visão da aventura humana, falou de um povo que ainda está no começo de sua própria história e cuja identidade – por sua gênese e sua trajetória – não pode se basear em raça, religião, vocação impe­rial, xenofobias ou vontade de isolar-se. Ou seja, trata-se de um povo que tem na cultura a sua úni­ca razão de existir.

A composição ficava quase completa: éramos um país miscigenado, sentimental e alegre, mo­derno, culturalmente antropofágico, aberto ao outro e ao novo, desejoso de desenvolver-se, cheio de oportunidades diante de si. O passado nos condenava, mas o futuro nos redimiria. A fi­gura mítica de Macunaíma e a figura real de Gar­rincha – figuras fora dos padrões, que faziam tudo errado, para no fim dar tudo certo – nos di­vertiam e nos encorajavam.

7 Produzimos assim, entre as décadas de 1930 e 1960, contornos nítidos de “uma certa ideia de Brasil”Não importa discutir se essa ideia es­tava 100% correta ou errada, do ponto de vista de uma pretensa ciência positiva, se era preci­sa em minúcias, se tudo podia explicar, pois a representação ideológica de uma sociedade so­bre si mesma cumpre a função de sinalizar va­lores, despertar esperanças e mobilizar energias, e não de retratar fielmente “o que existe”. Em certo momento de sua história, depois de quatro séculos em um labirinto, o Brasil reconheceu-se assim e percebeu-se portador de potencialidades insuspeitadas. É impossível exagerar a impor­tância desse passo. Justo por isso, é também im­possível exagerar o devastador impacto de sua desconstrução, realizada em troca de nada.

Ao contrário do que se pensa, nossa crise atu­al não é, simplesmente, uma crise econômica. Resulta, em primeiro lugar e antes de tudo, da progressiva perda da ideia de Brasil, substituída pelos chavões daquela mesma inteligência orna­mental, inútil, farsesca, adepta da moda, a que Sérgio Buarque se referia. A moda hoje é globa­lização, e a única diferença é que os saberes – hélas! – não são mais importados da Europa, mas dos Estados Unidos. O efeito é o mesmo: como pano de fundo, negatividade e desqualificação do que somos e podemos vir a ser, compensadas agora com doses cavalares de marketing.

O sofisticado debate sobre a nossa especifici­dade e os nossos caminhos foi deslegitimado. A mediocridade perdeu a modéstia, voltou a mo­ver-se em cena com altivez espantosa, cada vez mais arrogante e orgulhosa de si. Ela não gosta de imaginação, qualidades, invenção de cami­nhos; gosta de rótulos, pede mesmice. Na década de 1990, pela boca das nossas maiores autorida­des e de alguns dos nossos mais influentes inte­lectuais – sobretudo os economistas –, jogamos fora todo o esforço intelectual anterior e passa­mos a nos reconhecer como um mercado emer­gente. Profunda mudança de ponto de vista. Até então, mesmo que fôssemos uma nação incom­pleta e muito imperfeita, ainda vivíamos num universo ideológico em que completá-la e aper­feiçoá-la, de uma forma ou de outra, eram as nos­sas referências comuns. Quando passamos a nos reconhecer apenas como mercado, tudo mudou. Mercado não é lugar de cidadania, solidariedade, soberania, identidade. É espaço de fluxos, domi­nado pela concorrência, onde sobrevivem os mais fortes e ponto final.

8 O fato mais notável dos últimos 25 anos, na História do Brasil, é a radical alteração das categorias que organizam e delimitam o nos­so imaginário. Recuemos um pouco. No início do século XX, sob influência do positivismo, o Brasil dizia buscar, antes de tudo, civilização e progresso, conceitos que hoje podem soar equi­vocados ou ingênuos, mas que estavam explici­tamente ligados a um futuro humano: a ideia de que progressos materiais pudessem sustentar-se em um vasto retrocesso social ou moral era, en­tão, inimaginável, pois os avanços nessas várias esferas eram concebidos como paralelos e com­plementares. Depois, como vimos, o Brasil pas­sou a falar em modernização, formulada como uma resposta ao atraso e à pobreza; o esforço modernizador só era necessário e legítimo por­que eliminaria essas mazelas. As pessoas, os gru­pos sociais e a comunidade nacional, com sua di­versidade e complexidade, permaneciam sendo a referência fundamental de um debate que nunca se dissociava de fins e destinos.

Estamos agora esmagados pelo discurso da competitividade. Nem mesmo no plano das in­tenções ele expressa alguma grandeza. O pensa­mento das elites dominantes comporta-se como se elas não mais devessem explicações a nin­guém. A competitividade segue a mesma lógica da guerra – conquistar supremacia sobre o outro – e exige apenas um tipo de progresso, de nature­za tecnológica. Um progresso dos meios, de al­guns meios manejados por poucos, que nada diz sobre fins. Esse conceito vazio de conteúdos hu­manos e avesso a juízos sociais abrangentes foi alçado à posição de articulador do nosso discurso e legitimador do modelo de sociedade que se de­seja implantar. Com o agravante de que, agora, predomina a acumulação financeira – volátil, es­perta, sempre de olho no curto prazo, em grande medida fictícia, de natureza intrinsecamente es­peculativa, com enorme potencial destrutivo.

O grande capital – pois ele é que é “competiti­vo” – apresenta-se como portador de uma raciona­lidade que seria generalizável, sem mediações, para a sociedade como um todo. Inversamente, todas as outras lógicas – a dos pobres, a dos agen­tes econômicos não capitalistas ou simplesmente não competitivos, a da cidadania, a da soberania, a da cultura e a dos interesses nacionais de longo prazo – são consideradas irracionais ou desimpor­tantes. Devem ser denunciadas, humilhadas e, progressivamente, silenciadas. Não articulam lin­guagens, mas ruídos; não expressam direitos, mas custos; não apontam para outras maneiras de orga­nizar a sociedade, mas para a desordem e para o caos na economia, acenados pelos poderosos como permanente ameaça.

9 Além de vasta cultura e honradez intelec­tual, Gilberto, Sérgio, Caio, Celso, Darcy e tantos outros, mesmo alinhando-se a correntes teóricas e políticas muito diferentes, mesmo pro­pondo interpretações diversas, tinham uma coisa fundamental em comum: gostavam do Brasil. Desejavam do fundo da alma que o país desse certo e a isso dedicaram suas vidas e seus me­lhores esforços. Tal sentimento transparece em cada linha que escreveram, em cada gesto que fizeram, em cada palavra que disseram. Havia generosidade neles. Eis aí outra mudança impor­tante: evidentemente, manifestamente, cinica­mente, quase explicitamente, os formuladores e divulgadores do novo discurso hegemônico não gostam do Brasil. Gostam de business. O que estamos ouvindo deles, todo o tempo, é que o Brasil, como sociedade, nação e projeto, não tem sentido algum. Atrapalha. A esperança-Brasil deu lugar ao risco-Brasil.

Conferindo aos mais ricos riqueza cada vez maior, associada a padrões culturais e de consu­mo cada vez mais distantes da realidade local, e condenando a maioria da população a um padrão de vida em declínio, essa opção alimenta forças centrífugas que apontam para o rompimento dos vínculos históricos e socioculturais que até aqui mantiveram, em algum nível, juntos os cidadãos. Os grupos mais bem posicionados para participar do mercado mundial ficam cada vez mais tenta­dos a desfazer quaisquer laços de solidariedade nacional, desligando completamente seu padrão de vida, seus valores e a forma de denominar e investir sua riqueza – e, portanto, o seu próprio destino – dos padrões, valores e destino do país como um todo.

Os fatos do cotidiano mostram como se debilitam rapidamente, entre nós, as bases de uma sociabilidade civilizada: um regime comum de valores, caminhos de mobilidade social as­cendente, a ideia de um futuro em construção. As consequências disso, no longo prazo, são impre­visíveis. Os segmentos que têm pressa de ser mo­dernos a todo preço pedem a criação de institui­ções blindadas e de áreas de circulação restrita, onde a competitividade, a lucratividade, a veloci­dade e o pragmatismo, bem como o estilo de vida a elas associado, possam ostentar-se sem empe­cilhos. Mas, essas instituições e áreas permane­cem imersas em um território físico e social mui­to maior, que contém população diferenciada, necessidades diversas, comportamentos múlti­plos e problemas outros. É uma ilusão achar que elas possam desatar os laços que as ligam ao con­texto em que estão.

10 Darcy Ribeiro mostrou como o primei­ro passo no processo de submissão e des­truição dos indivíduos indígenas era a transfor­mação do índio específico – o gavião, o urubu­-kaapor, o xavante ou o bororo, portador de uma história, integrante de uma comunidade, habitan­te de um espaço cheio de significados – naquilo que chamou de “índio genérico”, um sem-lugar, cuja indianidade, inscrita no seu corpo, mas não mais na sua cultura, passava a ser um signo nega­tivo no mundo dos brancos, no qual ele se inseria sempre por baixo. Acredito que muito da angús­tia de Darcy, no fim da vida, tenha vindo da per­cepção de que o povo brasileiro, como um todo, corria o risco de transformar-se em um povo genérico e inespecífico, ao qual também restaria eternizar uma inserção por baixo e tendencial­mente declinante no sistema internacional.

É este o nosso maior desafio, que pode ser visto de vários ângulos. Para retomar a termino­logia de Caio Prado, estamos assistindo à vitória – temporária, porque não histórica – da perspec­tiva do Brasil “empresa-para-os-outros” sobre o Brasil “nação-para-si”. Impõe-se, pois, uma dura luta política e cultural. As alternativas são radicais para ambos os lados. Há uma bifurca­ção no caminho. O país terá de decidir: ou aceita tornar-se apenas um espaço de fluxos do capital internacional, o que significa ser expulso da His­tória, ou retoma seu processo de construção em novas bases.

Se quisermos a segunda opção, temos de re­encontrar uma ideia de Brasil. Por trás do pode­rio dos Estados Unidos há uma ideia de Estados Unidos. Por trás da reconstrução do Japão há uma ideia de Japão. Por trás da União Europeia há uma ideia de Europa. Por trás da ascensão da China há uma ideia de China. Se não reconstruir­mos uma ideia de Brasil, nenhum passo consis­tente poderemos dar (o título deste artigo, aliás, é retirado das Memórias do general De Gaulle. Oficial do estado-maior do Exército francês, re­cusou-se a render-se aos alemães, que naquela fase da guerra pareciam invencíveis, e protagoni­zou uma fuga espetacular para a Inglaterra, de onde liderou a Resistência. Segundo escreveu, fez isso, afrontando naquele momento todas as probabilidades de êxito, porque tinha na cabeça “uma certa ideia de França”, e a vida sob ocupa­ção não cabia nela).

11 O esforço dos pensadores que nos antecederam deixou pontos de partida muito valiosos. Mas, devemos reconhecer que eles nos falaram de um país que, pelo menos em parte, deixou de existir. O Brasil de Gilberto Freyre girava em torno da família extensa da casa-grande, um espaço integrador dentro da monumental desigualdade; o de Sérgio Buarque apenas iniciava a aventura de uma urbanização que prometia associar-se à modernidade e à ci­dadania; o de Caio Prado mantinha a perspec­tiva da libertação nacional e do socialismo; o de Celso Furtado era uma economia dinâmica, que experimentava uma acelerada moderniza­ção industrial; o de Darcy Ribeiro – cujos ído­los, como sempre dizia, eram Anísio Teixeira e Cândido Rondon – ampliava a escola pública de boa qualidade e recusava o genocídio de suas populações mais fragilizadas.

Os elementos centrais com que todos eles tra­balharam foram profundamente alterados nas úl­timas décadas. A economia mais dinâmica do mundo, que dobrou seu produto cinco vezes se­guidas em 50 anos, caminha para experimentar a terceira década rastejante. Todos os mecanismos que garantiram mobilidade social na maior parte do século XX foram impiedosamente desmonta­dos, a começar pela escola pública. A urbaniza­ção acelerada concentrou multidões desenraiza­das, enquanto a desorganização do mercado de trabalho multiplicava excluídos. Tornado refém do sistema financeiro, o Estado nacional deixou de cumprir funções estruturantes essenciais. A fronteira agrícola foi fechada, estabelecendo-se nas áreas de ocupação recente uma estrutura fun­diária ainda mais concentrada que a das áreas de ocupação secular. Nesta sociedade urbanizada e estagnada, os meios eletrônicos de comunicação de massas tornaram-se, de longe, a principal ins­tituição difusora de desejos, comportamentos e valores, inoculando diariamente, maciçamente e irresponsavelmente uma necessidade de consu­mo desagregadora, pois inacessível. “Nunca foi tão grande a distância entre o que somos e o que poderíamos ser”, disse recentemente Celso Fur­tado, antes de nos deixar.

Todos esses processos estão aí, a nos desafiar, exigindo de nós um esforço de análise talvez mais árduo do que aquele realizado pelas gerações dos nossos mestres. Ainda não sabemos bem até que ponto tais processos alteraram definitivamente as condições sociológicas da nossa existência, nem em que direção. Não temos uma teoria do Brasil contemporâneo. Estamos em vôo cego, imersos em uma crise de destino, a maior da nossa existência. A História está nos olhando nos olhos, perguntando: “Afinal, o que vocês são? O que querem ser? Tem sentido existir Brasil? Qual Brasil?”.

Temos hesitado em enfrentar questões tão di­fíceis, tão radicais. Preferimos brincar de macro­economia. Mas, a disjunção está posta: ou o povo brasileiro, movido por uma ideia de si mesmo, assume pela primeira vez o comando de sua na­ção, para resgatá-la, reinventá-la e desenvolvê­-la, ou assistiremos neste século ao desfazimento do Brasil. Se ocorrer, este último desfecho repre­sentará um duríssimo golpe nas melhores pro­messas da modernidade ocidental e será um re­trocesso no processo civilizatório de toda a hu­manidade. A invenção do futuro se tornará muito mais penosa para todos.

“Os discursos de quem viu”, dizia Vieira, “são profecias”.

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