Fake News e os Caminhos para Fora da Bolha

I. 

A essa altura, já não é mais novidade para ninguém que o conteúdo compartilhado por nossos amigos em redes sociais é filtrado por um algoritmo. Dessa forma, nem tudo aquilo postado por terceiros aparece em nosso feed de notícia, timeline ou página pessoal. E não poderia ser diferente. Afinal, quantos contatos você tem no Facebook? Quantas pessoas você segue no Instagram? Se todo texto, foto, vídeo, link, notícia, meme, informação ou comentário fosse visualizado, nossa relação com o site seria caótica e desinteressante. Afinal, nem tudo que é compartilhado nos interessa. Mas, a ferramenta de seleção de conteúdo nem sempre funcionou assim.

Em seu livro “O Filtro Invisível”, de 2011, Eli Pariser afirmava que “no início, o feed de notícias mostrava quase tudo que seus amigos faziam no site. No entanto, quando o volume de postagens e amigos aumentou, o feed se tornou impossível de ler ou gerir. Mesmo que você tivesse apenas 100 amigos, era um volume grande demais”.

Considerando que a média de amigos por usuário do Facebook é 155, percebe-se que a tarefa de dar conta de tudo que nossos contatos postam seria ainda mais difícil. O autor prossegue esclarecendo que seriam três os itens mais relevantes para determinar o que nos é mostrado prioritariamente no feed de notícias. “O primeiro é a afinidade: quanto mais próxima a sua amizade com alguém – o que é determinado pelo tempo que você passa interagindo com a pessoa e acessando seu perfil –, maior será a probabilidade de que o Facebook lhe mostre mais atualizações”. A seguir, vem o “peso relativo de cada tipo de conteúdo: atualizações sobre relacionamentos, por exemplo, têm peso maior; todos gostam de saber quem está namorando quem. (Muitos suspeitam que esse peso também seja personalizado: pessoas diferentes dão mais ou menos importância a tipos variados de conteúdo)”. Finalmente, o tempo, já que “itens mais recentes têm mais peso do que postagens mais antigas”.

É claro que esta é uma explicação bastante simplificada para uma questão complexa, e muita coisa mudou no Facebook desde 2011. Contudo, para as considerações que pretendo fazer neste breve texto, basta levarmos em consideração que o Facebook interfere diretamente no conteúdo que nos é passivamente disponibilizado. Assim é que surgem os filtros-bolha.

Personificação dos conteúdos de redes
Segundo Eduardo Magrani, em seu livro “Democracia Conectada”, os filtros-bolhas podem ser definidos “como um conjunto de dados gerados por todos os mecanismos algorítmicos utilizados para se fazer uma edição invisível voltada à customização da navegação on-line. Em outas palavras, é uma espécie de personificação dos conteúdos da rede, feita por determinadas empresas como o Google, através de seus mecanismos de busca, e redes sociais como o Facebook, entre diversas outras plataformas e provadores de conteúdo”.

Importante também lembrar um componente fundamental para entendermos as consequências dessa escolha algorítmica: o resultado tem um único objetivo – agradar amplamente o usuário, tornando sua experiência a mais prazerosa possível. Eli Pariser comenta na introdução de seu livro, de modo bastante perspicaz, que “os defensores da personalização nos oferecem um mundo feito sob medida, adaptado à perfeição para cada um de nós. É um lugar confortável, repleto de nossas pessoas, coisas e ideias preferidas. Se nunca mais quisermos ouvir falar em reality shows (ou de coisas mais sérias, como violência), não precisaremos mais ouvir falar – e, se só quisermos saber de cada movimento de Reese Whiterspoon, será possível. Se nunca clicarmos em artigos sobre culinária, sobre gadgets ou sobre o mundo para além das fronteiras de nosso país, essas coisas simplesmente desaparecerão. Nunca mais ficaremos entediados. Nunca ficaremos aborrecidos. Nossos meios de comunicação serão um reflexo perfeito de nossos interesses e desejos”. Em outras, palavras, o que Eli Pariser nos diz é que as redes sociais nos dão aquilo de que mais gostamos: nós mesmos. E é muito difícil vencer essa tentação narcisista.

Outras redes sociais também usam a mesma estratégia e pelos mesmos motivos. Instagram e Twitter se valem de algoritmo para decidir o que você vê primeiro. Contudo, não existe rede social em que essa seleção algorítmica é mais importante do que o Facebook.

Em primeiro lugar, porque em junho de 2017 o Facebook atingiu 2 bilhões de usuários ativos mensais, de um total estimado de menos de 4 bilhões de usuários da internet em todo o mundo. Ou seja, a cada duas pessoas com acesso à internet, uma tem conta no Facebook.Em segundo lugar – e muito mais importante, em razão da curiosa (e, em certa medida, estarrecedora) pesquisa divulgada pelo site Quartz em fevereiro de 2015. Segundo a matéria jornalística, indonésios haviam sido indagados sobre uso da internet e disseram ao entrevistador que não faziam uso dela. Contudo, quando em grupos, comentavam entusiasticamente o quanto de tempo gastavam no Facebook. Como se percebe, não se davam conta de que o Facebook integra a internet.

A pesquisa não parou por aí. Na Nigéria, também o número de pessoas que diziam acessar o Facebook era maior do que aquele que admitia usar a internet. E para nós, brasileiros, nada salta mais aos olhos do que o resultado a este teste: indagados se concordavam com a afirmação “o Facebook é a internet”, 55% dos brasileiros entrevistados disseram que sim (contra apenas 5% dos americanos). O gráfico está aqui:

Diante dessa informação, percebemos que não apenas milhões de pessoas tomam o Facebook pela internet como, em razão disso, vivem sua vida digital sem conseguir ultrapassar os limites do que é mostrado no feed de notícias – como se vivessem um pesadelo on-line surrealista no estilo de “O Anjo Exterminador”. As portas estão abertas, mas ninguém sai. A propósito, dados demonstram que cerca de 70% dos brasileiros se informam pela rede social, número superior a todos os demais países pesquisados.

A conclusão a que se chega é intuitiva: ao se fiar no conteúdo que o algoritmo do Facebook decide mostrar, e ao se tomar um único site como a integralidade da internet, o que se faz é agir em uma bolha, dentro da bolha, dentro de outra bolha.

A bolha limita a diversidade
Esse enclausuramento silencioso, mistura de escolha tecnológica e analfabetismo digital, vem sendo fartamente criticado. Motivos, é bem verdade, não faltam. A bolha limita a diversidade, já que o usuário segue recebendo indefinidamente conteúdo postado por aqueles seus amigos e conhecidos com quem já detém afinidade ideológica. Dessa forma, fica menos sujeito a críticas e opiniões contraditórias, limitando, assim, a gama de informações que recebe.

Ademais, existe um componente capitalista, especialmente quando se trata de páginas institucionais. Sabemos que determinado conteúdo será espontaneamente mostrado a um certo número de usuários com os quais a página mantém contato, cada qual em seu próprio feed de notícias. Contudo, para furar essa bolha e ser apresentado na feed de notícias dos demais, será necessário pagar. Ou seja, o desejo de ser visto ou lembrado, sem correr o risco de cair na vala comum da disputa de atenção alheia, pode ser resolvido também com algum investimento financeiro para posts patrocinados.

Finalmente, em tempos de eleição de Trump e de fake news, pós-verdade, fatos alternativos e testes psicológicos secretos, muita gente acaba criticando o Facebook por falta de transparência nas suas decisões institucionais, dentro e fora dos algoritmos. Não dá, contudo, para jogar toda a culpa nas costas do Facebook. Muito pelo contrário.

Christopher Lasch, autor de “A Cultura do Narcisismo”, afirma que “o narcisista depende de outros para validar sua autoestima”, de modo que “não consegue viver sem uma audiência que o admire”. E prossegue, dizendo que “sua aparente liberdade dos laços familiares e dos constrangimentos institucionais não o impedem de ficar só consigo mesmo ou de se exaltar em sua individualidade. Pelo contrário, ela contribui para sua insegurança, a qual ele somente pode superar quando vê seu ‘eu grandioso’ refletido nas atenções das outras pessoas, ou ao ligar-se àqueles que irradiam celebridade, poder e carisma. Para o narcisista, o mundo é um espelho (...)”. Uma sociedade oca, enfim, de pessoas mais ávidas por serem invejadas do que respeitadas.

A fim de satisfazer suas próprias necessidades, inúmeros serão os usuários que optarão por deixar de seguir (dar unfollow) em quem quer que discorde dele, que não curta nem compartilhe suas publicações ou que simplesmente lhe pareça desinteressante. No limite, um usuário pode ser até mesmo bloqueado. Em contrapartida, poderá (porque o Facebook também o permite) eleger um certo número de amigos cujas postagens serão vistas prioritariamente. Em regra, serão conteúdos com os quais o usuário se identifica e por cujas atualizações anseia.

Tudo bem que a ferramenta de seleção de conteúdo em ambos os casos é disponibilizada pelo Facebook, mas ninguém está obrigado a usá-la. Se uma camada adicional de segregação nas informações é inserida na bolha particular de cada um, o usuário é, neste caso, também responsável por isso.

Acredito que uma ressalva seja muito importante quanto a este aspecto. Enquanto estamos nas relações estritamente privadas, familiares, de amizade e de companheirismo, a seleção de informações é, na verdade, bem-vinda. Até porque nossa intimidade (digamos, real) também passa por inúmeros filtros e ninguém quer estar sujeito a ter que interagir com aquele cara chato apenas porque o algoritmo do Facebook decidiu que vocês dois devem conviver.

No entanto, não é só de amenidades que o mundo vive.  O problema mais alarmante que se põe hoje é de outra ordem. Trata-se, mais amplamente, de compreensão do mundo. Não apenas da matéria de que ele é feito, mas também das engrenagens que o regem. Trata-se de discutir políticas públicas, cultura, direito, moral, arte, regulação, ética, tudo aquilo de que precisamos para criar coletivamente um mundo melhor. E é justamente neste particular que nosso uso da internet, com ou sem a ajuda do Facebook, está falhando de modo miserável.

II.Em certa medida, o surgimento da internet comercial no meio dos anos 1990 de fato faz jus àquilo que tanto se propagou: estamos diante da maior revolução tecnológica de todos os tempos. Por meio da internet, as distâncias encolheram, tornou-se mais rápida e barata a comunicação, o acesso a obras intelectuais foi facilitado, novos modelos de negócio surgiram, democratizou-se o caminho da liberdade de expressão. Os exemplos são inúmeros e meramente ilustrativos.

Um dos aspectos mais relevantes nesse sentido diz respeito à liberdade de expressão. Desde a aurora da humanidade, só teve voz quem detinha o poder. Isso se estendia inclusive às regras de convivência familiar. O homem provedor determinava à mulher servidora e aos filhos a conduta que deles era esperada. Não à toa, a história do ser humano é, quase exclusivamente, a história dos homens e dos vencedores. Além disso, construir e disseminar sua própria narrativa era algo custoso, que demandava dinheiro e técnica.

Apropriação dos meios tecnológicos
Pensemos na criação intelectual dos séculos XIX e XX. A réplica e a distribuição de livros, música e filmes dependiam de editoras, gravadoras e produtoras. Os equipamentos para a produção do conteúdo cultural eram de custo elevado e de difícil manuseio. Contudo, a apropriação dos meios tecnológicos pelas camadas mais baixas da população, a partir do início dos anos 2000, permitiu que pessoas comuns começassem a contar suas próprias histórias, muitas vezes competindo de igual para igual com o mercado tradicional consolidado.

Em janeiro deste ano, o Festival Internacional do Filme de Roterdã recebeu entre seus convidados a jovem cineasta Yasmin Thayná. Yasmin nasceu em Nova Iguaçu, cidade da Baixada Fluminense. Negra e de classe humilde, aprendeu a fazer cinema durante sua adolescência na Escola Livre de Cinema de Nova Iguaçu e viabilizou seu primeiro filme por meio de crowdfunding, um mecanismo on-line de financiamento coletivo.

O curta, chamado KBELA, teve sua estreia numa sessão lotada no tradicional cinema Odeon, no centro do Rio de Janeiro. Por conta do sucesso, outras três sessões (igualmente lotadas) tiveram que ser agendadas às pressas, o que causou inclusive publicação de nota no jornal O Globo. Afinal, não é todo dia que um curta-metragem faz tanto sucesso no cinema. Daí para Roterdã foi um passo.

Desde então, Yasmin viajou por todo o Brasil e pelo exterior. Angariou prêmios, deu entrevistas, passou a escrever para o Huffington Post. Tudo isso graças à internet e àquilo que a internet propicia: maior liberdade de criação de conteúdo, sem a necessidade de intermediários. Yasmin foi direto ao público, tanto para financiar sua obra quanto para divulgá-la e exibi-la. O exemplo de Yasmin não é isolado, ainda que seu trabalho seja de fato excepcional. A internet vem consistentemente ajudando a lançar novos talentos na música, na literatura, no cinema, nas artes plásticas, em todos os lugares do Brasil e do mundo. Foi assim com Susan Boyle, cuja carreira musical foi impulsionada pela internet após sua apresentação em um show de televisão, e também com a jovem Amanda Hocking, a primeira pessoa a ganhar mais de 1 milhão de dólares com livros autopublicados na Amazon.

Não se trata, contudo, de estratégia de iniciante ou de amadores. Mesmo meios de comunicação mais tradicionais, como publicações impressas e canais de televisão, passaram a incorporar com cada vez mais frequência material produzido por pessoas que poderíamos chamar de comuns. Sites de jornais consolidados como O Globo ou Folha de S. Paulo contam com frequente participação de conteúdo produzido por seus leitores. Até a Revista Piauí, de conteúdo intelectualmente sofisticado, anunciou que passaria a publicar matérias enviadas por terceiros que quisessem colaborar com o periódico.

Liberdade de expressão e redes sociais
Poderíamos enumerar muitos outros exemplos – a lista é extensa e instigante. Contudo, em nenhuma plataforma a liberdade de se expressar teve tão grande impacto quanto nas redes sociais. Em plataformas onde há uma editoria de conteúdo (como nos sites de jornais e revistas ou em portais de mídia), sempre alguém fará a seleção daquilo que será publicado. Porém, nas redes sociais, o que vale é exclusivamente a vontade do usuário. E foi sobretudo aqui que, infelizmente, a internet se mostrou uma grande frustração no que diz respeito à promessa de se tornar um grande espaço de discussão pública.

III.A eleição presidencial de 2014 entrou para a história por vários motivos, alguns dos quais ainda se fazem sentir em suas duras consequências. Ideologias à parte, a escolha de Dilma Rousseff pela estreita margem de cerca de 3% sobre o segundo colocado jogou o Brasil numa disputa narrativa entre coxinhas e petralhas que se assemelha, mesmo agora, muito mais a uma torcida do que a um debate.

Em razão disso, mesmo quando são abordados assuntos extremamente técnicos e sobre os quais especialistas sequer concordam (por exemplo, podemos citar aspectos processuais da Operação Lava-Jato ou detalhes financeiros sobre pedaladas fiscais), a população parece pronta a opinar. O brasileiro, por tanto tempo tido como pouco interessado em política, de repente se tornou jurista, cientista político, sociólogo e economista.

Esse interesse variado e repentino não é ruim, naturalmente. De fato, deve ser louvado e incentivado. Mas, por ora, que preço estamos pagando?

Tornou-se célebre a frase de Umberto Eco, um dos influentes pensadores dos séculos XX e XXI, que disse que a internet deu voz aos imbecis, que agora têm tanto direito a falar quanto vencedores de prêmios Nobel. Pregava ainda o filósofo que o papel dos jornais seria o de fazer uma curadoria das informações, já que nem tudo que se encontra na internet é confiável.

Apesar da indiscutível capacidade de sistematização do mundo (e de uma reflexão atenta e profunda sobre ele) por parte de Umberto Eco, sua observação merece alguns reparos. A democratização dos meios de comunicação não pode ser condenada. Ao contrário, é na possibilidade de ouvir a todos que a internet encontra uma de suas maiores virtudes. Além disso, a atribuição às mídias tradicionais do papel de decidir o que pode ser publicado acabaria por acarretar mais malefícios do que benefícios. Estaríamos instituindo a censura prévia sob a qual vivemos ao longo do século, repetindo o modelo arcaico de dar voz somente a quem detém o poder. Mas, Eco não deixa de ter razão.

A crítica de Eco deveria ser dirigida mais às pessoas do que propriamente à tecnologia. Se não dá mais para se cometer a ingenuidade de se dizer que o meio é neutro, pelo menos é natural que o uso que conscientemente se faz dele é que tende a ser bom ou mau. E quando se juntam na mesma equação torcida ideológica + informações imprecisas + facilidade de difusão do conteúdo e, claro, uma boa dose de má-fé, o cenário se torna muito pouco auspicioso para o debate público.

O que vimos no Brasil nos últimos três anos foi muito mais uma busca por ter razão e por desqualificar o oponente do que pela informação. Sem a menor cerimônia, pessoas com nível superior, com educação formal e supostamente cultas, passaram a compartilhar os maiores descalabros acerca de quem quer que fosse, por mais inverossímil que a informação parecesse, apenas porque o que estava escrito estava em conformidade com o seu desejo, mesmo que estive em absoluto desacordo com a verdade. Ou, ao menos, com uma possível verdade.

Mas, que fatores podem incentivar essa conduta de descaso e de descompromisso com a difusão ética dos fatos?

O primeiro, muito evidente, é que estar por trás de um avatar dificulta o embate direto e, por isso, estimula a publicação irrefletida de conteúdo on-line. Quem compartilha, nesse caso, raramente terá que prestar contas de seu ato. Qualquer comentário mais incisivo de alguém que apresente outros dados ou venha tirar satisfação de informações imprecisas ou inverídicas, poderá ser simplesmente ignorado. Além disso, o comentário pode ser apagado, o terceiro pode ser impedido de acessar postagens posteriores ou – poder supremo – pode ser simplesmente bloqueado.

Reforço dos estímulos
Adicionalmente, a arquitetura da rede propicia o compartilhamento irrefletido por causa do reforço dos estímulos. Quanto mais alguém curte e compartilha os posts dos amigos e recebe tratamento idêntico na mesma medida, mais o algoritmo se empenha em aproximar um dos outros. Esta é a forma mais segura de garantir que um usuário ficará o maior tempo possível conectado, interagindo dentro dos limites da rede (da bolha, na verdade) onde ele se encontra.

Como se percebe, é a partir de escolhas dos usuários, mescladas a regras algorítmicas pouco claras, que o debate democrático encontra seus maiores obstáculos para consolidação na grande ágora que poderia ser a internet. Como o empenho maior parece ser quase sempre reforçar seus próprios argumentos, em vez de compreender os argumentos alheios, no mais das vezes sempre que a bolha pode ser potencialmente perfurada por um outsider, nós nos deparamos com ataques pessoais, informações falsas ou distorcidas, cinismo, deboche e toda sorte de manipulação linguística. Um diálogo de boa vontade é bastante raro.Eduardo Magrani comenta que “Eli Pariser joga luz para o prejuízo democrático gerado pela filtragem invisível que nos coloca em uma bolha onde tudo agrada, tudo faz sentido, tudo está de acordo com os nossos pontos de vista e realidades. Esses mecanismos, cada vez mais sofisticados, passam a oferecer e sujeitar os usuários apenas a informações com as quais concordam, privando-os de vozes dissonantes”.

E acrescenta que, dessa forma, “a concepção de que a infraestrutura da internet permite que as discussões possuam força suficiente para chegar a diferentes segmentos e a grupos de interesse diversos e replica-se pelas várias redes de pessoas que compõem a sociedade, talvez não seja uma realidade, uma vez que as expressões ficam muitas vezes restritas a uma mesma rede de pessoas com interesses comuns. A consequência disso é a fragmentação e polarização do debate”. Ou seja, não há debate propriamente dito.

Adicione-se a este movimento refratário a discussão pública e, voltada para si mesma, a alarmante propagação de notícias falsas (fake news), que encontram no ambiente digital acima descrito o habitat perfeito para sua propagação. Aqui, cabe fazer ainda um acréscimo relevante, cujos efeitos extrapolam – em muito – o debate da internet como instrumento democrático.

O excesso de informação a que estamos sujeitos permanentemente nos impede de ler com atenção todas as notícias, refletir sobre seu conteúdo, buscar fontes alternativas, verificar os dados, emitir opiniões equilibradas. Assim, estima-se que mais da metade das pessoas que compartilham notícias na internet o façam sem sequer ler seu conteúdo. Informações demais, tempo de menos, torcida pela sua versão da história (quando alguma ideologia está em jogo) e, é claro, um pouco de preguiça: está aí o fértil campo minado da pós-verdade.

Pós-verdade
O dicionário Oxford elegeu “pós-verdade” (post-truth) a palavra de 2016, dentro de um contexto global que abrange não apenas nossa combalida República, mas também a eleição presidencial norte-americana e a saída da Grã-Bretanha da União Europeia (o chamado Brexit).

A definição proposta pelo dicionário é a seguinte: “[o que é] relacionado ou denotativo de circunstâncias em que os fatos objetivos são menos influentes na formação da opinião pública do que aqueles que apelam à emoção e à crença pessoal”. Diante da situação brasileira, e voltando à metáfora anteriormente referida, seria como dizer que a torcida pessoal vale mais do que os fatos.

Nem sempre, contudo, fake news se prestam a endossar publicamente os desejos do usuário. Muitas pessoas compartilham boatos por curiosidade, espanto ou cautela. Foi assim que surgiu uma das maiores fake news de 2016, segundo a qual o Papa Francisco daria apoio à candidatura de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos. Claro, um despautério. Mas, ainda assim, muita gente compartilhou.

Outras tantas são impelidas pela vontade de alertar o mundo sobre potenciais perigos que rondam determinadas comunidades. Não se sabe ao certo se é verdade que um homem espancou a mulher e a filha de modo covarde ou que um senhor misterioso aborda criancinhas na saída da escola. Mas, se eu não tenho certeza, melhor compartilhar, não?
IV.No filme “Dúvida”, o padre interpretado por Philip Seymour Hoffman profere um sermão que pode ser assim resumido:

Uma mulher fez fofoca sobre um homem que mal conhecia. Nessa mesma noite, sonhou com uma grande mão que lhe apontava um dedo acusador, o que lhe causou uma sensação de culpa. No dia seguinte, ela foi ao confessionário e contou ao padre o que havia acontecido. Ela indagou se fofoca era pecado e se seria a mão de Deus a lhe apontar o dedo; se deveria pedir absolvição, se teria feito algo errado. O padre imediatamente respondeu que sim, que ela era uma ignorante e que deveria estar envergonhada. A mulher então pediu desculpas e perdão. Ao que o padre retrucou: “não tão rápido! Vá até sua casa, leve um travesseiro até o telhado, abra o travesseiro com uma faca e volte”. A mulher assim procedeu e voltou no dia seguinte. O padre lhe inquiriu: “o que aconteceu?”, ao que a mulher respondeu: “penas voaram por todos os lados”. O padre lhe disse: “quero que volte lá e me traga todas as penas que voaram”. A mulher falou: “bem, isso não é possível, não sei aonde elas foram levadas, o vento as espalhou”. “Isso”, concluiu o padre, “é fazer fofoca”.

A metáfora é simples, mas eficiente. Só faltou acrescentar que, na internet, as penas se espalham com a força de um furacão.

Notícias falsas
Em maio de 2014, uma dona de casa de 33 anos foi espancada até a morte por vários moradores da cidade do Guarujá, onde vivia, após boatos espalhados pelo Facebook de que ela sequestrava crianças para utilizá-las em rituais de bruxaria.

Segundo o marido da vítima, a página Guarujá Alerta publicou equivocadamente uma foto da mulher como se fosse ela a suspeita pelo sequestro das crianças. Algumas pessoas acreditaram que se tratava mesmo dela e então a amarraram, arrastaram e espancaram violentamente, o que acabou por acarretar sua morte.

Infelizmente, este não é o único caso em que notícias falsas levaram a consequências reais e muito graves. Em 2016, um serralheiro morador da Baixada Fluminense foi identificado como estuprador de crianças e passou a ser ameaçado de morte. Neste ano, uma multidão tentou linchar um casal em Araruama, Estado do Rio de Janeiro, após boato de sequestro de criança divulgado no WhatsApp. Outros exemplos poderiam ser citados.

Nem sempre os boatos e as notícias falsas geram desfechos tão trágicos, mas o que os une é que, em maior ou menor grau, contribuem de alguma forma para a desordem intelectual on-line, com eventuais consequências no mundo real. Podemos dividir os sites que compartilham fake news em quatro categorias distintas: “(i) os que intencionalmente buscam enganar através de manchetes tendenciosas; (ii) os de reputação razoável que compartilham boatos em larga escala sem verificar corretamente os fatos; (iii) os que relatam de forma tendenciosa fatos reais, manipulando a informação; e (iv) os que humoristicamente trabalham com situações hipotéticas”.

As fake news também contam com sua lógica própria na semântica dos algoritmos, aproveitando-se da bolha onde o usuário se encontra. Gabriel Itagiba esclarece com um exemplo hipotético: “usuário X é contra o partido Y, que está na presidência do País. Diariamente, X expressa sua opinião usando hashtags como #foraY ou #vazaY. Diversos robôs controlando perfis falsos são programados para varrer as redes sociais em busca de usuários que utilizam as hashtags mencionadas. Após a identificação, bots executam o resto de sua programação, enviando mensagens falsas sobre o partido Y para o usuário. O usuário então passa a compartilhar essas informações com seus amigos”.

Fake News, negócio lucrativo
Além disso, os criadores de notícias falsas conseguem arrecadar somas nada desprezíveis por conta do compartilhamento e dos cliques que as notícias recebem. A Folha de S. Paulo publicou interessante matéria acerca do assunto em fevereiro de 2017. Segundo a reportagem, “profissionais do mercado publicitário [...] estimaram que os anúncios do site rendam de R$ 100 mil a R$ 150 mil por mês, dos quais até 50% ficariam com o intermediário e o restante com o dono do site”. Trata-se, portanto, de um negócio lucrativo – o que ajuda a explicar, em parte, o fenômeno.

As fake news atingiram níveis alarmantes, o que ajudou a colocá-las no centro do debate público. Uma das principais razões foi a alegação de que teriam ajudado a eleger Donald Trump, ao contrário de boa parte dos prognósticos, mesmo às vésperas da eleição.

Em reação às acusações de que o Facebook, de uma forma ou de outra, teria contribuído para a eleição de Trump, Mark Zuckerberg veio a público anunciar uma cruzada contra as fake news. Apesar do risco que a iniciativa representa à liberdade de expressão (dependendo das medidas que o Facebook venha de fato a tomar), trata-se de um caso em que o debate, por si só, talvez seja mais importante do que as práticas a serem implementadas.

V.A iniciativa do Facebook não é isolada. Carlos Affonso Souza e Vinícius Padrão lembram que alguns países já começaram a discutir a aprovação de leis criminalizando o compartilhamento de notícias falsas. Contudo, como bem observam, ainda que “seja necessário diminuir os efeitos das fake news, a sua criminalização parece desproporcional. O risco aqui é empoderar governos menos democráticos que poderão, seja lá por qual motivo, afirmar que algo é verdadeiro ou falso, usando essa prerrogativa em benefício próprio”.

Não parece, contudo, que a regulação jurídica será a mais eficiente. Nem pela censura, nem pela indenização. Afinal, muitas das notícias falsas são juridicamente irrelevantes e não geram qualquer consequência no mundo real. Podem ser encaradas quase como spams que circulam fora dos sites. Sabe aquela história do milionário nigeriano que deixou vários milhões de dólares presos em uma conta corrente e que está disposto a lhe dar uma pequena parcela disso? Então, muitas das fake news se assemelham a isso em disparate e insignificância.

Em outros casos, entretanto, como alguns daqueles aqui mencionados, de fato há danos reais, e estes devem ser compensados e punidos.

De toda forma, o mais importante é investir em educação para aprender a distinguir com mais clareza informações falsas que circulam na internet. Escolas e Universidades precisam tomar para si a responsabilidade de discutir o tema com seus alunos. Louváveis também são as iniciativas de criação de entidades de checagem de fatos (fact checking) e de sites especializados em desmascarar boatos. No Brasil, a Agência Lupa (piaui.folha.uol.com.br/lupa/) e o Aos Fatos (aosfatos.org), entre outros, fazem um ótimo trabalho de verificação de informações, assim como o site boatos.org.

Nunca se discutiu tanto responsabilidade de uso da internet quanto agora. Nunca se demandou tanto às pessoas que verificassem informações antes de compartilhá-las. Há poucos anos, inclusive, o Tribunal de Justiça de São Paulo condenou duas mulheres a pagar uma indenização por compartilhar notícia falsa. Por tudo isso, uma mudança de comportamento se tornará urgente nos próximos anos.

O curioso é que só existe um caminho mais seguro para se escapar das fake news e de seus efeitos perversos: alfabetização digital (media literacy). Não que esta conclusão seja original. É quase sempre por meio da educação e do uso responsável da tecnologia que logramos sair de um lugar para chegar a outro, melhor. Trata-se de um caminho longo, demorado e que demanda esclarecimento incessante e esforço coletivo em repudiar notícias falsas e estimular a busca por fontes alternativas e seguras de informação. Talvez sejam as fake news o fio de Ariadne que vai nos ajudar a sair do labirinto em que nos encontramos. Ou, neste caso, da bolha.

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