As eleições e a crise

O futuro presidente terá de seguir a trilha da moderação, evitar que se agrave o ‘nós contra eles’

A sociedade brasileira ainda não se deu conta da gravidade e da profundidade da crise em que o País se encontra e dos desafios que o novo governo deverá enfrentar. As demandas internas são semelhantes às que tiveram influência decisiva nas eleições americanas, na Argentina, na Colômbia e no México: descontentamento generalizado com a corrupção em todos os níveis, com a crescente violência, a pobreza e desigualdade entre as pessoas e regiões. 

A percepção da injustiça (enquanto muitos trabalham, outros continuam a roubar), da falência do Estado (que cresceu muito, aumenta impostos e oferece serviços ineficientes), da desordem pública (com a desobediência às leis), do custo e do tempo perdido com a burocracia crescente, entre outros fatores, gerou o clima que, como em outros países, fez com que os eleitores “ficassem contra tudo que está aí”. As preocupações se concentraram sobretudo na necessidade de estabilidade econômica, austeridade fiscal e governança da administração pública. A nossa carga tributária é uma das maiores do mundo, a economia permanece fechada e a desindustrialização afeta todos os setores. O País dividido entre “nós e eles”, a classe política, o Congresso e mesmo o Judiciário com baixo nível de aceitação pela opinião pública expuseram as flagrantes deficiências do governo.

Na campanha eleitoral deste ano os candidatos pouco enfocaram esses temas, tampouco demonstraram liderança política clara que pensasse e atuasse com visão de futuro para indicar os caminhos do crescimento e do emprego. Alguns temas passaram longe das preocupações dos candidatos. Defesa, política externa, comércio exterior e meio ambiente deveriam ter estado entre os itens prioritários das agendas, até pelo impacto que têm sobre a soberania do País, para a voz do Brasil no cenário internacional, para a indústria e para o emprego e a tranquilidade do cidadão.

O Brasil está em situação extremamente desfavorável para alcançar um lugar relevante e de peso diante de um mundo em rápida transformação e cada vez mais imprevisível: perdemos poder e influência, isolamo-nos dos principais fluxos dinâmicos do comércio e da economia mundiais, seguimos atrasados em termos de absorção e geração de inovação e tecnologia, além do fato de nos últimos 20 anos termos crescido bem abaixo da média global. 

Nesse quadro de desalento, aumentam as frustrações e os mais pessimistas se apressam a decretar que o Brasil fracassou como Nação, como povo, como sociedade, como Estado e como governo. Mais pobre, com mais de 13 milhões de desempregados e com um nível de conflito social nunca visto, o Brasil está sem uma liderança que tenha visão de futuro e ponha o interesse nacional acima de tudo.

As eleições de 7 de outubro deram uma última oportunidade à sociedade brasileira para, pensando no País, acima de interesses pessoais ou político-partidários (o que é difícil, convenhamos, no atual cenário), escolher um candidato que pudesse comprometer-se com uma agenda de modernização, propondo reformas profundas na economia, na política e na sociedade. Que representasse uma mudança de mentalidade e tivesse uma visão de médio e longo prazos. Que se comprometesse com uma reforma do papel do Estado, a começar pela redução de gastos, diminuição do número de ministérios, pelo fim dos privilégios (mordomias, carros e residências oficiais) das corporações e pelo corte do número de cargos públicos nos três Poderes. Que tivesse de fato tolerância zero com a corrupção em todos os níveis e promovesse medidas para acelerar a aplicação da lei, dentro dos princípios democráticos. Que se comprometesse com a simplificação da vida dos cidadãos e das empresas, executando uma política que eliminasse o peso crescente da burocracia. Um governo que realmente se dedicasse a melhorar os serviços públicos, tão deficientes e precários nos campos da educação, da saúde e do transporte.

A crise agravou a polarização e o sectarismo. A sociedade brasileira, na sua maioria, votou com raiva contra a política, o PT e o establishment. Prevaleceu a vontade de soluções radicais para coibir a violência e a corrupção. Ganharam os extremos populistas e desapareceu o centro moderado.

Qualquer decisão dos eleitores, no segundo turno, terá um impacto profundo na vida política, econômica e social do País, com efeitos sobre a próxima geração. A dar crédito aos programas de governo apresentados e às declarações em entrevistas e nos debates pelo rádio e pela televisão, a sociedade brasileira vai decidir entre um modelo com o Estado forte, com a revogação das reformas conseguidas nos últimos dois anos, com uma economia fechada, ou vai optar, pela primeira vez, por uma direita que tentará aprovar uma agenda ultraliberal, com a redução do papel do Estado e a abertura da economia, e medidas conservadoras na área dos valores e costumes, que poderão acentuar a tensão com as minorias. 

Nos dois casos, o País poderá ser conduzido para a radicalização e o autoritarismo, com um possível choque com o Congresso e o Judiciário. Por isso foram positivas as recentes declarações de Jair Bolsonaro e de Fernando Haddad no sentido do fortalecimento da democracia, da crítica à violência baseada em raça, crença ou sexo, pela liberdade de imprensa e com o chamamento para o fim da polarização interna.

O futuro presidente da República não terá alternativa senão seguir a trilha da moderação, na tentativa de evitar o agravamento do “nós contra eles”. O candidato que perder terá de reconhecer, dentro das regras democráticas, o resultado das urnas e ajudar a pôr fim à campanha de descrédito contra o Brasil no exterior.

Se esse caminho não for seguido, começaremos escrever a crônica de mais uma crise política e econômica anunciada.

Rubens Barbosa

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