A Bancada Evangélica e o Brasil

 

Adélio Bispo, homem que esfaqueou o então candidato Jair Bolsonaro, frequentava igrejas evangélicas. O presidente Jair Bolsonaro, que se declara católico romano, foi batizado no rio Jordão, em Israel, pelo pastor da Assembleia de Deus Everaldo Pereira. A presença do presidente em eventos promovidos por igrejas evangélicas, principalmente pentecostais e neopentecostais, foi prioridade no primeiro ano de seu governo, e tudo indica que continuará a sê-lo até o final do mandato. Os filhos do primeiro matrimônio do presidente e a sua atual esposa são ligados à Igreja Batista. Voltando ao período da última eleição presidencial, os concorrentes Marina Silva e Cabo Daciolo pertencem às fileiras evangélicas, tendo o último se destacado por levar uma Bíblia aos debates entre os candidatos e inserir em suas respostas bordões pentecostais. Deixando as eleições de 2018 e a figura do presidente, porém mantendo o foco nas relações entre evangélicos e a política recente do Brasil, recordo que o ex-presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, preso pela operação Lava Jato, declara-se evangélico. Deltan Dallagnol, um dos mais destacados promotores da Operação Lava Jato, é membro da Igreja Batista. A associação entre evangélicos e política não é exclusividade da esfera nacional, mas realidade igualmente presente em milhares de municípios brasileiros e em todos os estados da federação. Nos períodos de propaganda eleitoral, tornaram-se parte do cenário candidatos que se apresentam utilizando títulos religiosos: missionário, pastor, bispo e apóstolo. A presença de evangélicos em diversos ambientes – dos vilões aos mocinhos – cristalizou a sensação de que eles estão por toda parte e que do dia para a noite as igrejas se multiplicaram pelo solo nacional. Mas, de onde vieram as igrejas evangélicas? Quem são os evangélicos? Quais são as razões do seu crescimento? O que pretendem ao ocupar espaço em partidos políticos e cargos no executivo e no legislativo?

Do protestantismo histórico aos neopentecostais

As grandes linhas divisórias do cristianismo têm sido delineadas da seguinte forma: catolicismo romano, igrejas orientais e ortodoxas e protestantismo. As igrejas evangélicas têm suas raízes na Reforma Protestante do século XVI e são conhecidas no Brasil sob as denominações: luteranas, presbiterianas, anglicanas, metodistas, congregacionais e batistas. Essas igrejas ingressaram no Brasil ao longo dos séculos XIX e XX pelas vias da imigração e da missão. A presença política das igrejas do protestantismo histórico, especialmente na esfera federal, sempre foi reduzida, na primeira metade do século XX, em parte porque a Igreja Católica ainda se movia fazendo oposição à eleição de representantes que não fossem católicos. A presença pública das igrejas do protestantismo histórico ocorria predominantemente na área da filantropia da educação e da saúde. A criação de colégios, universidades e hospitais evangélicos acompanhou o estabelecimento das denominações protestantes no Brasil. Ao longo da história da República, houve nos parlamentos estaduais e no federal representantes com origem nas igrejas protestantes históricas, mas a conquista de uma cadeira nessas instituições sempre esteve ligada à trajetória pessoal e profissional, e nunca foi vinculada a um projeto da igreja, à qual o candidato pertencia ou teve a identidade religiosa como fator eleitoral decisivo.

O ano de 1911 é a data da inserção da Igreja Assembleia de Deus no Brasil, mais precisamente no Pará. Logo depois veio a Igreja Congregação Cristã, igreja pentecostal que ainda se mantém distante da política partidária. Mais tarde surgiram outras denominações pentecostais, tais como: Igreja do Evangelho Quadrangular, Igreja O Brasil para Cristo e, a partir da década de 70, as igrejas que vieram a ser conhecidas como neopentecostais: Igreja Universal do Reino de Deus, Internacional da Graça de Deus, Renascer em Cristo e outras tantas. A Assembleia de Deus, maior e mais antiga igreja pentecostal do país, desdobrou-se em diversos sub-ramos. Muitas aproximações e distanciamentos entre as diversas igrejas que compõem o campo religioso denominado evangélico (históricas, pentecostais e neopentecostais) podem ser feitas, entretanto, sob o ponto de vista da presença pública e política – foco deste artigo – destaco que as igrejas pentecostais, especialmente aquelas surgidas em meados do século XX, e as neopentecostais se notabilizaram pela divulgação da mensagem religiosa valendo-se do rádio e da televisão. Enquanto as denominações evangélicas anteriores se sentiam mais à vontade no campo da filantropia convencional, as igrejas pentecostais e as neopentecostais mostravam desenvoltura na instrumentalização dos meios de comunicação de massa para propagação da mensagem religiosa.

Os pentecostais e neopentecostais são maioria no universo evangélico e a face mais conhecida desse ramo religioso na sociedade brasileira. A queda do número de fiéis no catolicismo romano brasileiro é um processo que continuou ao longo do século XX, intensificando-se a partir dos anos 1980. Até os anos 80, a Igreja Católica perdia 1% de fiéis a cada década, desde então passou a perder 1% ao ano. A visibilidade midiática do segmento pentecostal e neopentecostal é um dos fatores da explicação de seu crescimento, mas não pode ser isolada de outros fatores complexos. É preciso lembrar o desenraizamento produzido pela urbanização do Brasil nas últimas décadas. Outro fator importante é a capacidade de criação de sentido para a vida a partir de uma visão religiosa povoada de espíritos, é oportuno lembrar que Gilberto Freyre, no clássico Casa Grande e Senzala, afirmava que “o brasileiro sente o toque místico em tudo que o rodeia”. As igrejas evangélicas, de matriz pentecostal, lançam mão de símbolos e práticas rituais que não representam uma ruptura com o misticismo presente no Brasil desde os primórdios da colonização. Por que o catolicismo romano e as religiões de matriz africana, apesar de todo seu misticismo, continuam perdendo seguidores? Dentre as muitas diferenças, será preciso lembrar que o catolicismo romano possui uma hierarquia rígida e rituais altamente regulamentados, e as religiões de matriz africana, que embora operem dentro de referenciais do misticismo, são limitadas na difusão de suas crenças e práticas por contarem com organização artesanal e linguagem hermética. A vantagem competitiva das religiões pentecostais e neopentecostais está na embalagem de crenças brasileiras arcaicas em linguagem da urbanidade contemporânea, na multiplicação ágil de pontos de culto e na ausência de restrições para o recrutamento de agentes de propagação da mensagem religiosa. As igrejas evangélicas não possuem qualquer tipo de centro religioso responsável pelo estabelecimento de parâmetros litúrgicos ou teológicos. Isso faz com que tenham enorme flexibilidade para adaptação aos gostos do público-alvo, o que fica claro ao se observar que o espectro das igrejas evangélicas de matriz pentecostal se estende do kitsch ao estilo programa de auditório, do missionário R.R. Soares, da Internacional da Graça de Deus, até o descolado púlpito feito sobre prancha de surf da Bola de Neve Church.

Fatores de unificação da Bancada Evangélica

A enorme diversidade e as disputas internas entre as milhares de igrejas desaparecem, pelo menos na superfície, quando surge o tema evangélicos e política. A percepção de que os evangélicos, em matéria de política, agem de modo unificado emergiu na Constituinte de 1988 com a formação da Frente Parlamentar Evangélica, conhecida desde então como Bancada Evangélica. Da Constituinte até a última eleição, a Bancada Evangélica seguiu crescendo. Em fevereiro deste ano, contava com 195 nomes listados na Câmara Federal, excluídos aqueles que são apoiadores, mas sem ligação orgânica com igrejas evangélicas, o número fica na casa de 100 deputados. Os parlamentares listados como integrantes da Bancada Evangélica estão espalhados por praticamente todos os partidos políticos, inclusive 4 deles são do Partido dos Trabalhadores (PT). Nota-se, na bancada, a ausência de deputados filiados ao PSOL e ao PCdoB.

A dinâmica de aglutinação da Bancada Evangélica funciona numa lógica que gira em torno de temas mobilizadores difusos e temas de interesse eclesiástico/político institucional. Os temas mobilizadores difusos são compostos por palavras-chave que despertam a sensibilidade da população evangélica, tais como: família, aborto, criacionismo, Bíblia, gênero, homossexualidade, drogas. Essas matérias despertam paixões e providenciam um tipo de justificativa para a presença religiosa mais ostensiva na política. Sob o ponto de vista da estrutura laica do Estado brasileiro, instituído a partir do modelo iluminista de separação entre religião e política, as chances de fazer a roda da história girar para trás e aprovar leis que impeçam o exercício das liberdades comportamentais adquiridas nas últimas décadas são nulas. Mas, será que é isso que pretende a Bancada Evangélica? Certamente não. Os enfrentamentos são simbólicos e transmitem a ideia de que os parlamentares evangélicos estão atuando como barreira de contenção frente à propagação dos novos arranjos familiares, bem como das novas expressões na esfera do afeto e da sexualidade que ganharam visibilidade nos últimos anos. Para quem falam os políticos evangélicos? Eles falam para os setores da população brasileira que se sentem confusos e incomodados com as transformações nas relações de gênero, com a união civil de pessoas do mesmo sexo, com possibilidade jurídica da adoção de crianças por casais homossexuais, com discussões em torno da ampliação da legislação sobre o aborto etc.

Apontar o modo como os temas comportamentais difusos mobilizam eleitores e políticos evangélicos não significa um juízo de valor sobre as motivações para o uso dessa estratégia. A cultura cristã possui um longo histórico de dualismo (Deus e Diabo, o bem e o mal, a Igreja e o mundo), e não é diferente com o mundo cristão evangélico. Aliás, a mente humana funciona em torno da estruturação de opostos, como bem demonstrou o antropólogo Claude Lévi-Strauss em sua vasta análise cultural sobre a estrutura dos mitos. No caso específico do dualismo cristão evangélico, há vasta tradição em torno da batalha final entre o bem e o mal, o Armagedon, que seria precedida pelo surgimento do Anticristo. O comunismo, no período da Guerra Fria, por conta do ateísmo que o acompanhava, foi identificado como o grande inimigo. Da década de 1950 até a década de 1980, eram comuns nas igrejas evangélicas conferências proféticas que se dedicavam à análise da conjuntura política internacional tentando encaixá-la na linguagem das profecias bíblicas sobre o aparecimento do anticristo. A derrocada da ameaça comunista, consumada com a Queda do Muro de Berlim em 1989, deixou vago o posto do “grande inimigo” do cristianismo. A ameaça islâmica muitas vezes é invocada, mas a distância geográfica e cultural, além do fato de se lidar com uma religião com raízes no monoteísmo abraâmico, torna mais difícil encaixar muçulmanos em posição semelhante à ameaça do ateísmo comunista de outrora. O quadro explicativo se fecha quando observamos que os partidos de esquerda, diante da derrocada do comunismo no plano internacional, assumiram a defesa das pautas identitárias em seus programas de governo, todas elas com desdobramentos na agenda comportamental já mencionada. O caldo cultural de identificação do grande inimigo a ser combatido pelos cristãos, de longa data cultivado entre os evangélicos, recebeu a adição das causas identitárias (feminista, LGBTQ+ etc.) encampada pelos partidos de esquerda. Esse é um dos fatores que explicam o alinhamento ocorrido na eleição de Jair Bolsonaro entre diferentes tipos de conservadorismo – apoiadores da Lava Jato, extrema-direita olavista/bolsonarista e evangélicos. A retórica política da última eleição mirou no Partido dos Trabalhadores e seus aliados da esquerda, identificando-os como inimigos da civilização cristã. Embora risível e anacrônica, a alegada ameaça comunista, citada com frequência entre apoiadores do presidente Bolsonaro, tem dado resultados no estabelecimento de uma espécie de ponte entre os inimigos do passado e do presente.

A Bancada Evangélica e a fadiga de ser governo

Após o primeiro turno da eleição presidencial de 2018 e antes do segundo, mais precisamente no dia 24 de outubro de 2018, quando já se desenhava a vitória da candidatura construída em torno do conservadorismo de apoiadores da operação Lava Jato, extrema direita olavista/bolsonarista e evangélicos, foi lançado pela Bancada Evangélica o “Manifesto à Nação”, que no prefácio anunciava ser um esforço para transcender a pauta tradicionalmente defendida por eles em torno “da preservação dos valores cristãos e defesa da família”. O documento é basicamente uma adesão ao programa liberal de reformas econômicas que já estava sendo propagado pela campanha que sairia vencedora nas urnas uma semana depois. O documento é composto de quatro eixos temáticos, sendo que os três primeiros estão ligados às reformas do Estado e da Economia em atendimento às conhecidas críticas de inchaço e ineficiência da máquina pública. O quarto eixo é relacionado à educação e, embora tenha sido mencionado o desejo de ir além das pautas tradicionais defendidas pela Bancada Evangélica, a maior parte desse tópico é dedicada à crítica aos governos petistas por terem supostamente adotado em todos os níveis do ensino a doutrinação ideológica, a ideologia de gênero, o fim da meritocracia e o ataque à moralidade judaico-cristã. A conexão, que já apresentamos anteriormente, entre o comunismo e as pautas identitárias é mencionada literalmente no “Manifesto à Nação”.

A atitude da Bancada Evangélica de lançar o “Manifesto à Nação”, na iminência de se ver alçada à posição de pleno alinhamento com o candidato vitorioso, é um reconhecimento da necessidade de justificar sua existência, avançando em outras áreas além dos temas mobilizadores difusos. Alguns dos parlamentares que compõem a Bancada Evangélica já estão na Câmara há vários mandatos e têm consciência dos limites que o ordenamento jurídico brasileiro impõe para implementação de temas comportamentais conservadores. Nesse sentido, sob o ponto de vista eleitoral, a situação da Bancada Evangélica era mais confortável quando o Executivo Federal era ocupado pelo PT, uma vez que a retórica da batalha para impedir a destruição dos valores cristãos e da defesa da família tinha maior plausibilidade no papel de oposição do que de governo. Resta ainda à Bancada Evangélica a aglutinação pela operação de temas de interesse eclesiástico/político institucional. A Igreja Universal do Reino de Deus (Iurd) é a segunda em número de integrantes da Bancada e ocupa hoje nada menos que a vice-presidência da Câmara Federal, com o deputado Marcos Pereira (PRB), e a prefeitura da cidade do Rio de Janeiro, com o bispo Marcelo Crivella. O Partido Republicano Brasileiro (PRB) é o braço político da Iurd e defende os interesses do bispo Edir Macedo na manutenção da concessão do canal de televisão pela Iurd, além de muitos outros, como o acesso às verbas publicitárias do Executivo Federal. Membros da Bancada Evangélica oriundos de outras igrejas que não possuem a centralização administrativa da Iurd acabam operando temas de interesse eclesiástico/institucional mais regionalizados, seguindo o modelo vigente na dinâmica dos partidos políticos dos quais fazem parte, assumindo áreas na estrutura administrativa para construção e perpetuação de redes de apoio eleitoral.

O sociólogo Paul Freston observou que à medida que o Brasil fica mais evangélico, os evangélicos também ficam mais brasileiros. No caso da Bancada Evangélica, o raciocínio se encaixa muito bem. No já citado “Manifesto à Nação”, a Bancada Evangélica menciona, no prefácio, a disfuncionalidade dos partidos na representação dos interesses dos cidadãos e se refere à formação de oligarquias partidárias como impeditivas para renovação da vida política. Era de se esperar, depois de reconhecer o problema, que o “Manifesto à Nação” contemplasse alguma proposta de reforma política e eleitoral na direção da transparência e da aproximação entre a classe política e os cidadãos. Todavia, o documento silencia completamente sobre o tema. A julgar por isso, continuaremos assistindo aos políticos evangélicos combatendo comportamentos da esfera privada que julgam imorais e fazendo vista grossa para a imoralidade institucionalizada na vida política brasileira. Além disso, está completamente ausente do documento da Bancada qualquer referência à justiça social e à compaixão, temas tão caros à ética cristã. Difícil não recordar as palavras de Jesus registradas pelo evangelista Mateus: “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque dais o dízimo da hortelã, do endro e do cominho e tendes negligenciado os preceitos mais importantes da Lei: a justiça, a misericórdia e a fé; devíeis, porém, fazer estas coisas, sem omitir aquelas! Guias cegos, que coais o mosquito e engolis o camelo!”.

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