Edição 53

 

Ano 14

Número 53
Abril - Junho de 2021

Demandas em diferentes escalas sobre impactos da atual pandemia global – que, no momento, se estende para uma terceira onda em vários países – monopolizam mundialmente agendas de autoridades há um ano, completado em março de 2021. Conforme informações compiladas nesse período pela empresa de dados BITES, há registros de 5 milhões de textos on-line em inglês, português e espanhol, com menções ao assunto. Nas redes sociais, os números são estratosféricos. No Facebook, as interações, com a presença dos termos Coronavírus e Covid-19 publicados, somam 15,2 bilhões de curtidas, compartilhamentos e comentários. No Twitter, há 1,7 bilhão de posts com referências ao tema. Não temos como escapar, as atenções se concentram sobre o desenrolar dessa tragédia pelo ataque do pior vírus dos últimos 100 anos.

Porém, com ou sem lockdown ou busca por soluções administravas para o insuficiente estoque global de vacinas, as rotinas da vida em sociedade e de seus governos precisam seguir o ritmo em seus microcosmos de sobrevivência em suas infinitas decisões e debates.

No Brasil, um dos braços dos três poderes que sustentam a jovem democracia do País, o Legislativo, elegeu, em fevereiro, lideranças para condução da Câmara dos Deputados e do Senado nos próximos dois anos. Quem vai ocupar essas cadeiras interessa a todos os brasileiros. Por isso, a Revista Interesse Nacional convidou a jornalista e consultora de Comunicação Helena Chagas, com vasta experiência nos bastidores em Brasília, para escrever sobre a ascensão do grupo denominado Centrão ao poder. A articulista considera que o grupo que se abriga sob essa denominação é formado por políticos eleitos dentro do tradicional patriarcalismo da política nativa, impulsionado à base do controle de cargos e verbas destinadas pela máquina federal a estados e municípios. Sem convicções ideológicas delineadas e ávidos por negociar apoios e se manterem no poder, o Centrão tem sido presença constante na aprovação de reformas, seja na atual gestão ou nos outros governos. Tudo, lógico, depende do que o Executivo é capaz de oferecer para obter apoio em suas proposições. Prática inerente ao jogo do poder.

Na esfera presidencial, a forte presença de militares em cargos, que, nos últimos anos, foram sempre ocupados por civis, ganha destaque. Quem faz uma reflexão em artigo para a publicação é o advogado criminalista Augusto de Arruda Botelho. Na sua avaliação, o histórico de vida do capitão Bolsonaro sempre manteve intensa convivência e proximidade com as polícias militares e os quartéis. Essa realidade leva, naturalmente, à presença desses servidores públicos em postos no governo. Botelho relaciona que, hoje no Brasil, existem mais militares servindo como ministros de Estado do que na vizinha Venezuela, assim como mais militares entre ministros do que três dos cinco presidentes que governaram o País durante a Ditadura Militar. Feito esse paralelo revelador, ele destaca que, embora a legitimidade das Forças Armadas venha do fato de elas não serem um ator essencialmente político, é evidente que há politização da instituição quando militares passam a fazer parte direta do governo.

Nos EUA, os primeiros passos da diplomacia de Joe Biden já sinalizam novos rumos e possibilidades perante as suas múltiplas influências nas relações globais. A Interesse Nacional pediu ao embaixador e ex-ministro Rubens Ricupero e ao jornalista e ex-correspondente internacional Igor Gielow, que acompanham de longa data o cenário das relações internacionais, avaliações sobre a arrancada do governo que traz de volta ao centro da política americana o partido democrata, após a gestão do republicano Donald Trump.

Ricupero avalia os 100 dias da diplomacia Biden observando forte transformação na agenda global. Ele acredita que o mais difícil está por vir e classifica as mudanças em três categorias. Todas anunciam a opção pela primazia dos meios diplomáticos e a valorização do multilateralismo e da ordem mundial baseada em normas, assim como reúnem ações que sinalizam abandono de orientação “trumpista”. O maior desafio se concentra nas questões contemporâneas que requerem estratégias de longo prazo e participação de aliados, engloba redefinição da agenda de segurança com China, Rússia, Irã, Oriente Médio e Coreia do Norte, e a temática do aquecimento global além dos destinos do comércio internacional.

Gielow escreve sobre equilíbrio de Biden entre a retórica e realpolitik na política externa. O autor vê uma guinada eloquente em relação às más práticas do mandarinato de Trump, mas com mudanças reais bem mais cautelosas. Em síntese, ele interpreta que os primeiros movimentos do governo americano operam em rotação mais lenta do que os do mundo hiperconectado das redes sociais, embora Biden demonstre plena compreensão da necessidade de trabalhar com os dois diapasões. O articulista ressalta ser até preferível que a maior economia do planeta esteja integrada aos esforços globais no combate ao vírus da Covid-19. Lembra ainda que, além dos freios e contrapesos típicos da democracia americana, o poder presidencial no país é circunscrito por eventos exógenos – casos como a Guerra da Coreia (1950), a Baía dos Porcos (1961) e o 11 de Setembro (2001) – definiram presidências que nem sonhavam em lidar com tais problemas. Logo, a própria imprevisibilidade da pandemia lança uma nota cautelar a Biden.

A era digital hiperconectada, acentuada no universo pandêmico, entrou na pauta pela questão de a governança tecnológica tornar-se central para as relações internacionais. Quem escreve a respeito é o advogado dedicado aos temas tecnológicos Ronaldo Lemos. Sem subterfúgios, ele lamenta que entre os protagonismos que o Brasil perde nos últimos anos está a relevância nessa área de governança. Temas como inteligência artificial, internet das coisas, criptomoedas, cibersegurança e 5G, que até recentemente eram discutidos por setores específicos, agora fazem parte integral da diplomacia, dos organismos internacionais e das relações entre países. O apagão do protagonismo brasileiro ocorre no pior momento possível, já que a pandemia promoveu avanços em inúmeros âmbitos de aplicações tecnológicos para a vida em sociedade. Neste artigo, ele articula princípios que podem orientar políticas relacionadas aos seus desdobramentos para campos-chave do debate no plano internacional. Um deles é o País deixar a mera condição de consumidor de tecnologia e inovação e passar a produzir, já que não há como almejar desenvolvimento sem participar da economia do conhecimento.

Outros temas que devem entrar no radar das discussões nacionais abrangem negociações que se divisam para a continuidade de acordos internacionais, caso do da hidrelétrica de Itaipu, cujo aniversário de 50 anos será em 2023. José Luiz Alquéres e Altino Ventura Filho, que acompanham os destinos do Tratado de Itaipu, refletem sobre a necessidade de o Brasil criar grupos de estudo para não vir a ser surpreendido em futuras mesas de trabalho. Acentuam que, depois de cinco décadas, o Paraguai é outro país, mais desenvolvido, com classe média instruída, agricultura pujante e é grande exportador de energia limpa e renovável. Em 2023, será avaliado se deverão seguir com o Anexo C ajustado e, eventualmente, renegociado. Na avaliação dos articulistas, não se deve perder de vista os propósitos deste capítulo das relações do Brasil com o país vizinho.

Outro acordo que merece atenção, como escreve o embaixador Rubens Barbosa, traz à baila as três décadas do processo de integração dos países do Cone Sul, iniciativa que alternou períodos de forte expansão e estagnação, mas que, depois de 30 anos, requer freio de arrumação. Ele ressalta que há preocupações com meio ambiente, mudança do clima e preservação das florestas entrando definitivamente na agenda global, e o Mercosul terá que adotar outras práticas se quiser ratificar o acordo em discussão com a União Europeia. Na sua opinião, o fortalecimento do Mercosul em termos econômicos requer vontade política para entender o que está acontecendo no mundo. O Protocolo de Ouro Preto – que em 1994 criou a União Aduaneira – prevê que os países-membros podem convocar uma conferência para examinar sua estrutura, funcionamento e operação. Sendo assim, em vista do quadro geral e das propostas na agenda, essa conferência poderia vir a discutir políticas e medidas para fortalecer e revigorar o Mercosul.

Boa leitura,

OS EDITORES

 

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