Edição Especial 1

Ano 13

Edição Especial
Bioeconomia - Agosto 2020

Esta é a primeira edição especial da Interesse Nacional. Os temas Bioeconomia e Amazônia, amplamente abordados aqui, são bastante oportunos por várias razões. Para citar uma, no contexto da pandemia da Covid-19: “o Brasil tem a obrigação de preocupar-se com aspectos de segurança biológica, ou biossegurança”, destaca o vice-presidente da República, Hamilton Mourão, em artigo que abre este número e no qual menciona ações do Conselho Nacional da Amazônia, restabelecido em fevereiro deste ano e presidido por ele.

Outra razão para este número especial é que o meio ambiente e a sustentabilidade estão no topo das agendas brasileira e mundial por causa do debate sobre as queimadas, o desmatamento na Amazônia, os garimpos ilegais, estopins para a mais grave crise externa brasileira desde as décadas de  1970 e 1980, quando houve críticas às políticas de meio ambiente e de direitos humanos, segundo o embaixador Rubens Barbosa, presidente do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior (Irice) e editor responsável desta Revista. Por ser o dono da maior biodiversidade do planeta, com 20% do número total de espécies existentes (116 mil espécies de animais e 55 mil espécies de plantas), o Brasil está na mira de governos estrangeiros, fundos de investimento, grandes bancos brasileiros e doadores internacionais, que pedem políticas de conservação ambiental para a Amazônia e proteção das comunidades indígenas.

A emergência da Bioeconomia levou o Instituto Escolhas (www.escolhas.org) a se associar à Interesse Nacional nesta edição especial. O objetivo é abordar o papel da Bioeconomia como parte da construção de uma estratégia de desenvolvimento para o Brasil e a Amazônia, que proteja a floresta e sua sociodiversidade, com geração de emprego e renda e que seja viável do ponto de vista econômico e político.

É algo positivo que o tema em discussão encontre ações já em curso e sendo planejadas dentro de universidades e centros de pesquisa, no âmbito público e privado, que precisam ser conhecidas e debatidas pela sociedade. Isso tudo motivou esta publicação.

Carina Pimenta e Andrea Azevedo, respectivamente diretora-executiva e diretora de desenvolvimento institucional do Instituto Conexões Sustentáveis (Conexsus), resumem o que se espera da Bioeconomia: que seja capaz de usar a riqueza natural de maneira sustentável e que os resultados se traduzam em dois benefícios principais: conservação dos biomas naturais e seus recursos; e melhoria do bem-estar das populações que vivem da e na floresta e que detêm muito conhecimento sobre ela.

Na Bioeconomia, o Brasil tem um protagonismo natural para participar do grande debate sobre como se dará a recuperação da economia no pós-crise, afirma o economista Paulo Hartung, presidente-executivo da Ibá (Indústria Brasileira de Árvores) e ex-governador do Espírito Santo. Segundo ele, o ativo em mãos é a Amazônia. Na região, vivem cerca de 25 milhões de pessoas que, se incentivadas e capacitadas, poderiam produzir a partir da floresta. Isso garantiria renda para milhares de famílias, muitas delas que vivem abaixo da linha da pobreza, estimularia investimentos na região, inclusive em pesquisas, e agregaria valor aos produtos, pois estes já sairiam com a chancela de origem ambientalmente correta e de proteção à natureza, uma vez que o manejo seria feito da maneira adequada, diz Hartung.

Para o vice-presidente da República, chegou a hora de o Brasil projetar seu êxito no uso da biotecnologia para a geração de combustíveis, insumos agrícolas e alimentos, de maneira mais ambiciosa e sistemática sobre o território amazônico. “Temos que investir no uso intensivo de novos conhecimentos científicos e tecnológicos, gerados a partir de áreas de ponta como a biotecnologia industrial, genômica, biologia sintética, bioinformática, química de renováveis, robótica, tecnologias de informação e nanotecnologia”, recomenda.

Temas como esses já são tratados pela Frente Parlamentar da Bioeconomia,  que se reúne com ministros, parlamentares, pesquisadores, acadêmicos e empresas especializadas e com forte atuação em temas relacionados à Bioeconomia. Destacam-se o programa Renovabio, a questão da Amazônia, a Bioeconomia como vetor para o crescimento econômico, bioquímicos e biomateriais. Para os próximos meses, estão programados eventos que abordarão bioinsumos e inovação no agronegócio, economia circular, bioinovação na saúde, bioenergia, ecossistema de inovação, celulose e lignina e infraestrutura para Bioeconomia, menciona o deputado federal Alexis Fonteyne (Novo-SP), presidente da Frente Parlamentar da Bioeconomia.

Investir em negócios sustentáveis no bioma Amazônia é algo que não pode mais ser adiado. Nesse sentido, é bem-vindo o projeto de criação da Bolsa de Mercadorias da Amazônia (BMA), tema do artigo de Natália Ferreira de Freitas, chefe do Departamento de Política e Inovação Industrial da Secretaria Executiva de Ciência, Tecnologia e Inovação do Estado do Amazonas, e Tatiana Schor, secretária-executiva estadual de Ciência e Tecnologia e professora no Departamento de Geografia na Universidade do Amazonas. “É um projeto audacioso e inovador para a Amazônia. O sucesso comprovado em outras regiões do planeta, que também tinham estruturas de mercado desiguais e concentradores de riqueza, permite vislumbrar um futuro possível”, dizem as articulistas. Elas citam como exemplo de sucesso a Bolsa de Mercadorias da Etiópia (ECX), que, em apenas cinco anos, comercializou um total de US$ 5 bilhões, com zero inadimplência. Nesse período, dobrou a participação dos agricultores no preço final do café exportado, de 35% para 70%, o que tirou milhares da pobreza e tornou o país um fornecedor confiável e de qualidade.

Falar da Bioeconomia como propulsora do desenvolvimento econômico da Amazônia significa também pensar em uma transição econômica para a região, com uma reflexão sobre o que permanece, o que precisa se transformar e o que precisa surgir de novo. Isso significará não só desenvolver as cadeias produtivas de fármacos, cosméticos, alimentos e madeira que utilizam a biodiversidade, mas também a forma como atividades tradicionais da região estarão ou não integradas a essa nova economia regional, afirmam os gerentes de projetos do Instituto Escolhas, Gabriel Kohlmann e Jaqueline Ferreira, que destacam no artigo uma agenda de ações pela Bioeconomia na Amazônia.

A preservação e a proteção da floresta e de sua biodiversidade são condições sine qua non para qualquer tipo de desenvolvimento da Bioeconomia, ressaltam. Segundo os articulistas, os gargalos e os desafios para o destravamento da bioeconomia são, em geral, conhecidos e debatidos: pouco financiamento, baixa utilização de PD&I, pouca integração industrial, inseguranças e incertezas jurídicas e regulatórias, acesso da base (comunidades e produtores) a ações de incentivo e suporte.

Diante da complexidade desafiadora da Amazônia, “as universidades são mecanismos imprescindíveis como centros geradores de ideias e de ação para o desenvolvimento de pessoas, conhecimento e inovações, sobretudo aqueles que valorizam o modo de vida, os ecossistemas e a cultura local”, diz Maria Olívia de Albuquerque Ribeiro Simão, pró-reitora de Planejamento da Universidade do Estado do Amazonas (UEA).

O processo de formação de profissionais para gerir negócios sustentáveis se concretizou com a aprovação do Curso de Pós-Graduação Lato Sensu Amazon Rainforest Social Business School – Escola de Negócios Sustentáveis de Floresta Tropical, como um programa cujas ações serão mediadas por tecnologia e voltado para a formação de 750 profissionais em Manaus e em 10 municípios do Amazonas, informa a pró-reitora. O público-alvo principal são os mais de 2 mil profissionais formados pela UEA, em seis municípios no interior, nos cursos de agrimensura, agroecologia, tecnologia de alimentos, turismo, ciências econômicas, gestão pública, gestão comercial, gestão ambiental, logística, petróleo e gás.

O Brasil é, certamente, o país que mais tem a ganhar com o reforço dos padrões mundiais de exigência quanto à sustentabilidade. Nossa liderança nessa área nos colocaria à frente dos principais concorrentes não só para o comércio, mas também para a captação de investimentos, escreve Rubens Barbosa.

Entretanto, para o País restaurar a sua credibilidade em matéria de política ambiental e sair da atitude defensiva, precisará adotar políticas e medidas para a defesa da floresta amazônica, acima de ideologias e partidos, sugere. “Mais do que uma campanha de relações públicas no exterior, com enorme gasto e poucos resultados, o que não se pode mais adiar é a definição de uma política externa para o meio ambiente e a mudança do clima, que passaria a ser o eixo condutor da política externa brasileira, como foi a questão comercial até agora. A apresentação de resultados concretos terá como efeito recuperar o papel central do Brasil nas questões de meio ambiente e mudança de clima, acredita Barbosa.

Os Editores



NOTA DOS EDITORES
: Como consequência da pandemia da Covid-19, Interesse Nacional, depois de 50 edições, deixa de ser impressa e passa a ser publicada de forma digital. A revista pode ser acessada no site www.interessenacional.com. A edição impressa está suspensa até segunda ordem.

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