Pioneirismo empresarial e transformações globais
Vivemos em uma era em que as rupturas tecnológicas, as dinâmicas geopolíticas e os desafios ambientais redefinem constantemente as regras do jogo econômico e social. Em momentos históricos distintos, entre 1890 e 1930, entre 1945 e 1980 e novamente entre 1990 e 2025, o mundo experimentou ondas profundas de inovação e imprevisibilidade, exigindo dos líderes empresariais uma capacidade singular de se antecipar, adaptar e reinventar. Nesse cenário, o empreendedor pioneiro emerge como protagonista fundamental para moldar um futuro sustentável e inclusivo. Este artigo convida a refletir sobre os paralelos entre esses períodos, as dimensões essenciais para o desenvolvimento integrado e os novos papéis estratégicos que o empreendedorismo pioneiro deve assumir para navegar nas complexas interseções entre tecnologia, segurança e governança global.
■ Paralelos e rupturas: análise das transformações
A comparação entre os períodos de 1890-1930, 1945-1980 e 1990-2025revela paralelos fascinantes e contrastes significativos. Embora os fatores subjacentes a cada época sejam distintos, os intervalos caracterizam-se por profundas mudanças, rápidas evoluções, elevada incerteza e muita imprevisibilidade.
Entre 1890 e 1930, surgiram pioneiros e pioneiras do pensamento empreendedor, que moldaram os rumos da tecnologia e da indústria, abrindo caminhos para novas formas de pensar e agir. Suas trajetórias podem iluminar os caminhos do século XXI, estimulando a inovação, a resiliência e a visão de futuro. Naquele período, segunda fase da Revolução Industrial, que impulsionou o crescimento urbano, a eletricidade, o automóvel, o avião e o telefone transformaram radicalmente a vida cotidiana e os padrões de produção. A década de 1920 trouxe prosperidade para muitos países, mas também instabilidades financeiras que culminaram na Grande Depressão de 1929.
Empresários resilientes e inovadores conseguiram se adaptar e prosperar mesmo diante de incertezas, o que se observa também entre 1945 e 1980.Nesse período, algumas grandes inovações, como o lançamento do primeiro computador eletrônico, em 1946, e, especialmente, do primeiro computador pessoal viável, em 1972, pela Apple, impactaram profundamente os hábitos e o consumo e proporcionaram avanços significativos em produtividade, além de impulsionarem setores como o de exploração espacial e o de uso de satélites.
Entre 1990 e 2025, o mundo testemunhou a consolidação da era digital, em que a internet e as tecnologias da informação transformaram profundamente a comunicação, os negócios e a cultura. Após o término da Guerra Fria, os Estados Unidos confirmaram-se como principal potência mundial, mas, mais tarde, também a China emergiu como novo protagonista global, e novas tensões surgiram. Temas ambientais, especialmente o das mudanças climáticas, passaram a ocupar lugar central nas discussões internacionais, demandando soluções inovadoras e imediatas.
■ Ambiente saudável para prosperidade econômica
Prosperidade econômica e legitimidade política dependem de valores compartilhados, confiança pública e consistência institucional nas relações entre Estado, empresas e sociedade. O desenvolvimento é uma responsabilidade compartilhada entre políticas públicas, setor privado e academia, cada qual contribuindo para formar competências, gerar inovação e garantir estabilidade institucional. Desenvolver-se é estar preparado, bem formado, competitivo e ser capaz de transformar conhecimento em valor produtivo diante de rápidas transições tecnológicas, exigências crescentes de sustentabilidade e competição global intensa. A seguir, destacam-se sete temas mobilizadores para as práticas concretas de cooperação para o desenvolvimento.
O primeiro tema articula educação, ciência, tecnologia e inovaçãocomo pilares estruturantes do desenvolvimento, vinculando diretamente a formação de competências ao futuro da economia. Exige sistemas educacionais capazes de formar profissionais técnicos, científicos e digitais e ampliar efetivamente o acesso de mulheres às áreas STEM (ciência, tecnologia, engenharia e matemática), agenda de equidade, mas também vetor estratégico de competitividade: países que expandem a participação de mulheres em tecnologias emergentes multiplicam sua capacidade de inovar, diversificar soluções e fortalecer a produtividade de toda a economia. Essa base de competências abre novas possibilidades de trabalho em setores com maior produtividade, apoiando o crescimento econômico sustentável, serviços tecnológicos e manufaturas avançadas, o que fortalece a classe média. Ao permitir que mais trabalhadores alcancem empregos qualificados e salários melhores, o país estimula um ciclo positivo de mobilidade social, competitividade e desenvolvimento sustentável.
O segundo tema destaca a economia digital e a inteligência artificial como os principais motores atuais da produtividade. Para ampliar as oportunidades de trabalho qualificado, aumentar a eficiência dos serviços públicos, promover empresas inovadoras e fortalecer a competitividade internacional, é essencial investir em infraestrutura digital, garantir dados confiáveis, promover algoritmos transparentes e incentivar a inclusão tecnológica, bem como combater a propagação de informações falsas e a economia ilícita associada ao crime organizado e ao terrorismo.
O terceiro tema busca promover cadeias produtivas sustentáveis, reconhecendo que a transformação das cadeias de valor em vetores de inclusão produtiva e de regeneração ambiental é também um diferencial de competitividade. Tornar-se referência em sustentabilidade é um compromisso ético e uma vantagem econômica concreta em mercados que já privilegiam fornecedores com baixo risco ambiental, social e regulatório.
O quarto tema propõe reorientar o comércio internacional em direção à equidade e à sustentabilidade, integrando os princípios do fair trade. A abertura econômica precisa ser acompanhada de compromissos com produtividade, inovação e inclusão produtiva. Exportações de bens e serviços de baixo carbono, diversificação geográfica e setorial e maior conteúdo tecnológico agregam valor à economia e alinham o país às metas globais de sustentabilidade. O comércio exterior se consolida como uma estratégia nacional para ampliar competitividade, reduzir vulnerabilidades e posicionar o país como protagonista em mercados sustentáveis.
O quinto tema propõe alinhar finanças sustentáveis à atração de investimentos, redefinindo o papel do sistema financeiro como aliado estratégico da transição energética e do desenvolvimento sustentável. Isso significa associar métricas de criação de valor na concessão de crédito, nas decisões de investimento, na gestão de portfólios e de impacto ambiental, além de construir ambientes de negócios saudáveis, capazes de oferecer segurança regulatória, previsibilidade e competição com regras estabelecidas. Tais ambientes fortalecem a confiança dos investidores, estimulam inovação e consolidam uma visão de país baseada em estabilidade institucional, responsabilidade climática e desenvolvimento sustentável.
O sexto tema destaca a importância de garantir equilíbrio fiscal e concorrência leal para melhorar as regras multilaterais sobre subsídios. Um sistema tributáriomais simples, estável e coerente para reduzir assimetrias entre os setores físico e digital. A ampliação de receitas sustentáveis, a transparência dos benefícios fiscais e a redução de litígios fortalecem a competitividade e a confiança no ambiente de negócios.
O sétimo tema consiste em consolidar a integridade e a transparênciacomo princípios de cooperação. A confiança pública e o investimento responsável dependem de instituições robustas, éticas e estáveis. Mais do que eficiência administrativa, é necessário que governos e empresas adotem padrões de governança aberta, compliance efetivo e auditoria independente, reduzindo o custo e o tempo de conformidade e fortalecendo a segurança regulatória.
Portanto, o futuro da cooperação internacional dependerá menos da imposição de normas e mais da construção compartilhada de valores. Integridade, sustentabilidade e consistência institucional, além de princípios éticos, são ativos estratégicos de um novo modelo de desenvolvimento, no qual prosperar e cooperar são parte de um mesmo compromisso global.
■ Papel do empreendedor: tomar risco para o desenvolvimento
Na perspectiva de Daron Acemoglu, Prêmio Nobel de Economia em 2024, o desenvolvimento econômico depende diretamente da natureza das instituições, isto é, as regras, normas e estruturas políticas e econômicas que organizam a interação humana na sociedade. Podem ser formais, como leis, ou informais, como tradições e costumes. Na esfera mundial, exemplos incluem OCDE, BIS, FMI, que moldam incentivos, induzem a cooperação e determinam o acesso a recursos. Para Acemoglu, instituições inclusivas promovem crescimento econômico e inclusão social ao garantir direitos de propriedade, um sistema judicial imparcial e eficiente, participação política ampla e representativa, liberdade econômica com concorrência justa e educação pública acessível. Esses pilares contribuem para o desenvolvimento do capital humano, incentivam a assunção de riscos com o objetivo de fomentar a inovação e o investimento e ampliam as oportunidades efetivas de mobilidade social.
Joel Mokyr, Prêmio Nobel de Economia em 2025, defende que um ambiente propício à experimentação e inovação pode promover maior participação na economia, respeitando sempre a dignidade humana. Ele ressalta que o progresso depende de esforços conjuntos entre o setor público e o privado, como demonstra a relação entre incentivos e inovação. Assim, cabe ao empreendedor reunir iniciativas que estimulem a inovação e aumentem as oportunidades de emprego e, aos gestores públicos, estabelecer instituições eficientes e fomentar parcerias capazes de acelerar o avanço tecnológico e a disseminação de novas ideias.
■ Integrando habilidades e adaptabilidade para o futuro
Promover o empreendedorismo pioneiro exige compreender que o desenvolvimento é fruto de um esforço consciente de líderes que unem visão, responsabilidade e adaptabilidade. Em meio a mudanças tecnológicas, climáticas e geopolíticas constantes, estar pronto implica integrar três dimensões complementares.
A primeira é dominar habilidades técnicas emergentes, como letramento em dados, engenharia de prompt, ferramentas digitais avançadas e fundamentos de cibersegurança. Em um cenário em que a inteligência artificial reorganiza setores inteiros, a capacidade de compreender, orientar e auditar sistemas tecnológicos torna-se crucial.
A segunda é investir em habilidades humanas: pensamento crítico, resolução de problemas complexos, criatividade, comunicação e inteligência emocional – competências que ganham valor à medida que as tecnologias avançam e permitem interpretar contextos incertos, tomar decisões orientadas por valores e manter a capacidade de diálogo em ambientes de alta polarização.
A terceira dimensão é cultivar uma mentalidade adaptativa, ou seja, aprender e desaprender rapidamente, lidar com ciclos econômicos voláteis, reconstruir trajetórias profissionais e fortalecer a resiliência individual e institucional, sem perder a direção.
A construção do futuro empresarial deve integrar-se a um projeto nacional coletivo, no qual educação e investimentos se alinhem à busca por prosperidade sustentável. Tal futuro depende de um ambiente de negócios robusto, cadeias produtivas conectadas, finanças orientadas para ações ambientais e políticas públicas fundamentadas em métricas de impacto. Também é essencial promover uma ampla classe média, fator de estabilidade, inovação e competitividade internacional. Nesse projeto de país capaz de dialogar com os grandes fluxos globais de valor, o comércio exterior é rota estratégica para expansão da base produtiva e aumento da competitividade.
As transformações profundas observadas nos períodos históricos citados revelam que o pioneirismo empresarial é um motor indispensável para enfrentar os desafios geopolíticos, econômicos e sociais. O desenvolvimento sustentável e inclusivo demanda a articulação integrada entre educação, inovação, tecnologia, governança e sustentabilidade, em um ambiente que promova confiança, transparência e cooperação entre os diversos atores sociais. Para construir um futuro resiliente e competitivo, é fundamental que indivíduos, empresas e governos adotem uma postura proativa, investindo em habilidades técnicas e humanas, e mantenham uma mentalidade adaptativa. Assim, o pioneirismo do século XXI poderá fomentar prosperidade compartilhada, equidade e responsabilidade ambiental, consolidando um projeto coletivo capaz de posicionar o Brasil e outras nações de forma relevante e sustentável no cenário internacional.
■ Referências bibliográficas
ACEMOGLU, D.; ROBINSON, J. A. Why Nations Fail: The Origins of Power, Prosperity and Poverty. New York: Crown Publishers, 2012.
FUNDAÇÃO ARYMAX. Inclusão Produtiva. São Paulo: Fundação Arymax, s. d. Disponível em: https://arymax.org.br/inclusao-produtiva/. Acesso em: 21 nov. 2025.
ICC BRASIL. “ICC Brasil, Instituto Semeia e FGV Global Business lançam a série ‘Inserção Internacional Brasileira: Caminhos para o Futuro’”. ICC Brasil, 1 set. 2025. Disponível em: https://www.iccbrasil.org/icc-brasil-instituto-semeia-e-fgv-global-business-lanca-a-serie-insercao-internacional-brasileira-caminhos-para-o-futuro/. Acesso em: 13 nov. 2025.
MARCOVITCH, J.; BRUNO, M. C. O. São Paulo e os Pioneiros: Novos Encontros. São Paulo: Publicações BBM, 2020. DOI: https://doi.org/10.11606/9786587936079.
MOKYR, J. A Culture of Growth: The Origins of the Modern Economy. Princeton: Princeton University Press, 2017.
OECD. Measuring Science and Innovation for Sustainable Growth. Paris: OECD Publishing, 2025. DOI: https://doi.org/10.1787/3b96cf8c-en.
OECD. PISA 2022 Technical Report. Paris: OECD Publishing, 2024. DOI: https://doi.org/10.1787/01820d6d-en.
OECD. Unlocking the Potential of Women in Science and Research. Paris: OECD, 3 mar. 2025. Disponível em: https://www.oecd.org/en/blogs/2025/03/unlocking-the-potential-of-women-in-science-and-research.html. Acesso em: 21 nov. 2025.
UNESCO. “Women and the Digital Revolution”. In: Unesco Science Report 2021. S. l.: Unesco, 2021. Disponível em: https://www.unesco.org/reports/science/2021/en/women-digital-revolution. Acesso em: 21 nov. 2025.
UNCTAD. Digital Economy Report 2024: Shaping an Environmentally Sustainable and Inclusive Digital Future. Geneva: UNCTAD, 2024. Disponível em: https://unctad.org/publication/digital-economy-report-2024. Acesso em: 12 nov. 2025.
WORLD BANK. The Equality Equation: Advancing the Participation of Women and Girls in STEM. Washington,
DC: The World Bank, 2020. Disponível em: https://documents1.worldbank.org/curated/en/789951595308672516/pdf/Main-Report.pdf. Acesso em: 21 nov. 2025.
WIPO. Global Innovation Index 2025: Innovation at a Crossroads. Geneva: WIPO, 2024. DOI: https://doi.org/10.34667/tind.58864.
Daniel Feffer: É graduado em Direito pelo Mackenzie, com especializações em Harvard, MIT (EUA) e IMD (Suíça). É vice-presidente do Conselho de Administração da Suzano S/A, presidente da Fundação Arymax, do Instituto Ecofuturo e da International Chamber of Commerce – Brasil
Jacques Marcovitch: É professor sênior da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária e do Instituto de Relações Internacionais, ambos da USP. É autor da trilogia “Pioneiros e Empreendedores: A saga do desenvolvimento no Brasil”, e integra o conselho do Institute of International and Development Studies
Artigos e comentários de autores convidados não refletem, necessariamente, a opinião da revista Interesse Nacional