Sergio Abreu e Lima Florêncio é colunista da Interesse Nacional, economista, diplomata e professor de história da política externa brasileira no Instituto Rio Branco. Foi embaixador do Brasil no México, no Equador e membro da delegação brasileira permanente em Genebra.
A banalização faz com que o escândalo deixe de produzir reflexão. O personalismo dificulta a separação entre a esfera pública e a privada. O Estado patrimonialista permite que práticas e interesses sobrevivam à alternância dos governantes
A arquitetura disfuncional de hoje contribuiu para transformar a Corte Suprema em ator político de peso, com todos os vícios e distorções inerentes a esse descaminho
A chave populista: Executivo forte, crise econômica e instabilidade política A história demonstra que muitas democracias na América Latina fracassam quando o governante estabelece canal de comunicação direto com as massas – a chave do populismo. Esse modelo fragiliza as instituições representativas e desfaz o equilíbrio entre os Três Poderes. Prevalece, então, um Executivo onipotente […]
Numa visão mais ampla, a sucessão de atritos com o governo americano e o ato de hostilidade de Trump estão ancorados na disputa entre EUA e China pela hegemonia do poder mundial
Ao prolongar um conflito sem alcançar objetivos como a mudança de regime em Teerã ou o fim do programa nuclear iraniano, Donald Trump teria enfraquecido a posição estratégica dos Estados Unidos, fortalecido a coesão interna do Irã e aberto espaço para maior influência de China e Rússia no equilíbrio global de poder
No estágio atual do conflito, os EUA são os grandes perdedores, embora não seja o Irã um claro vencedor
O Supremo Tribunal Federal (STF) vive a maior crise de credibilidade de sua história. Dois Ministros – Alexandre de Moraes e Dias Toffoli – são acusados de graves ilícitos. Moraes teria mantido conversas suspeitas com Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, objeto de contrato de consultoria milionário com sua esposa. Toffoli tomou a decisão infundada […]
Após um mês da Operação Fúria Épica, o balanço dos resultados é desfavorável aos EUA. Na esfera militar, o Irã mantém o controle do Estreito de Ormuz e continua a atacar Israel e Estados do Golfo com mísseis e drones. No plano geopolítico, a guerra demonstrou: incapacidade dos EUA de protegerem os países do Golfo; tensões crescentes com aliados europeus e com a Otan; e benefícios estratégicos para seus principais rivais – Rússia e China
A ofensiva contra o país persa nasce da convergência entre a busca de Donald Trump por afirmar a supremacia militar dos EUA e a pressão estratégica de Israel. Embora o conflito represente risco limitado para Tel Aviv, pode se tornar uma nova derrota para Washington: guerra longa, impopular internamente e enfrentando a histórica resistência iraniana, com impactos energéticos, geopolíticos e econômicos globais
Entre o protagonismo nos julgamentos do Petrolão e da trama golpista e a atual crise desencadeada pelo escândalo do Banco Master, o STF enfrenta um dilema decisivo: manter a tradição de autodefesa corporativa ou reafirmar a institucionalidade por meio de padrões éticos claros. Se antes o corporativismo serviu como escudo contra ataques antidemocráticos e partidários, hoje ele ameaça a própria credibilidade da Corte, exigindo autocorreção e compromisso republicano
Ataque promovido por Trump dificilmente resultará em um ponto fora da curva da sequência de desastres e tragédias das intervenções norte-americanas no século XXI
Para o Brasil, o Acordo deverá abrir caminho para uma economia com ganhos de escala e mais competitiva, e pode resgatar o padrão histórico de nossa política externa equilibrada em três eixos: um Mercosul mais relevante e aberto; um Brics sem deter a dominância na PEB; um engajamento construtivo (mas sempre adiado) com a OCDE
A corrida EUA-China pela hegemonia do poder mundial revela dois descaminhos. A aposta de Trump se fundamenta na crença da “dominância na escalada” com a China e usa como instrumento mágico as tarifas. A China enfrenta desafios derivados de seu próprio sucesso. O projeto de nação de Xi Jinping não pode mais se resumir à prosperidade econômica nem adotar a métrica do crescimento do PIB
O sentimento predominante entre analistas é o fracasso de Trump em sua política de contenção da China como superpotência industrial O grande equívoco cognitivo da política de Trump é associar comércio a uma partida de pôquer. Esse último é sempre um jogo de soma zero, enquanto o comércio, por natureza, tende a ser uma relação cooperativa
País passou a viver um momento positivo tanto na política interna quanto nas relações com o resto do mundo, mas a situação da economia ainda exige cuidados e é importante não se entusiasmar demais para não colocar em risco o potencial do Brasil
A condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro e de seus aliados, incluindo membros das Forças Armadas, é um ponto de inflexão decisivo na história do Brasil e abre caminho para superar a democracia tutelada e para pavimentar a longa estrada rumo a uma sociedade mais livre e justa
A volta de Donald Trump ao poder nos EUA trouxe de volta conceitos geopolíticos da Guerra Fria, e uma visão de mundo de conluio entre as Grandes Potências para que trabalhem juntas para definir suas áreas e gerenciar a ordem internacional, o que coloca em risco o paradigma da política externa brasileira de equidistância e independência
Posições da política externa do governo Lula não devem ser desconsideradas na análise da sobretaxa norte-americana, mas a campanha antipatriótica do bolsonarismo junto a Trump foi sem dúvida a grande responsável pelo agravamento de nossas relações com os EUA
O choque externo da tarifa de 50% imposta pelos EUA aos produtos brasileiros pode forçar o Brasil a abrir mais seu mercado, gerando benefícios estruturais que o governo reluta em adotar por conta própria, num cenário eleitoral já polarizado e fiscalmente pressionado. A absoluta irracionalidade lá poderá produzir alguma racionalidade cá
A ampla rejeição popular e a voz das ruas tornam a extrema direita de Netanyahu e a autocracia repressora de Khamenei dois regimes muito parecidos. Mas as semelhanças param por aí. Netanyahu foi salvo por três guerras insufladas por seu governo. Em contraste, para a República Islâmica, uma guerra direta com Israel sempre foi o grande fantasma a evitar. O desenrolar desse cenário de visões antagônicas a respeito da guerra parece desacreditar o ditado popular – quando um não quer, dois não brigam.