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Fausto Godoy: O Japão e seus dilemas

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País de tradição pacifista discute seu papel em uma região em crescente tensão, mas também enfrenta dificuldades devido ao envelhecimento da sua população. Para embaixador,  o Japão está empenhado em se recolocar na função que desempenhou ao longo do século XX

Imagem do Yasukuni Jinja, o templo xintoísta em Tóquio onde estão “sepultadas” as almas dos heróis das guerras do Japão, representa as noivas ideais que os soldados kamikaze não puderam conhecer por se terem imolado nas missões suicidas no teatro da guerra do Pacifico (Foto: Fausto Godoy)

Por Fausto Godoy*

A matéria que o Estadão publicou no dia 29/12, intitulada Envelhecimento dificulta salto militar do Japão, levanta questões sobre temas fundamentais e multidisciplinares que a sociedade japonesa vem enfrentando. Estes temas, aliás, replicam dilemas a respeito do envelhecimento que parte cada vez mais significativa da população mundial, sobretudo as economias avançadas, está presenciando (inclusive nós, brasileiros, cujo número de idosos aumentou 57,4% nos últimos 12 anos).

Neste cenário, o exercício que tende a se tornar cada vez mais frequente é como equacionar os desafios…

No caso do Japão a questão assume contornos mais agudos, frente ao contexto regional, a saber, as disputas que se multiplicam na área da Ásia-Pacífico decorrentes, sobretudo, do crescente dinamismo das economias regionais, do protagonismo e poderio militar, inclusive, da China, e às “aventuras” nucleares da Coreia do Norte. Diante deste quadro, seu governo comprometeu-se a aumentar o gasto militar para 2% do seu PIB – ou em cerca de 60% – ao longo dos próximos cinco anos, o que o colocaria como o terceiro maior orçamento de defesa do planeta. 

“Mas à medida que a população japonesa envelhece e se reduz rapidamente – cerca de um terço dos japoneses têm mais de 65 anos, e o número de nascimentos caiu, no ano passado, ao menor nível já registrado, especialistas preocupam-se com a possibilidade de as Forças Armadas japonesas simplesmente não serem capazes de obter contingente para operar frotas e esquadrões das formas tradicionais”, assinala a matéria. Continuando, o artigo menciona que “a Força Aérea do Japão não consegue alcançar metas de recrutamento há anos, e o número de militares na ativa no país – cerca de 247 mil – é quase 10% mais baixo que em 1990”.

Este tema, já por si complexo, assume desdobramentos ainda mais agudos diante do compromisso de não-agressão que o Japão assumiu como povo/nação – mais que governo – após a sua derrota na Segunda Guerra Mundial, compromisso este que está, como sabemos, inscrito lapidarmente no artigo 9º da sua Constituição, nomeada de “pacifista”. Ele reza: ”aspirando sinceramente à paz mundial baseada na justiça e ordem, o povo japonês renuncia para sempre à guerra como direito soberano da nação e à ameaça ou uso da força como meio de solução das disputas internacionais”.

Só que sabemos bem que, fruto da história, o ambiente regional lhe é subliminarmente “hostil” e que o contexto mundial sofreu enormes mudanças desde então. Neste contexto, o Japão passou a ser um “parceiro estratégico” – com ou sem “aspas” – dos Estados Unidos na competição deste com a China, principalmente. 

‘Os americanos precisam que o Japão se torne mais presente na região da Ásia-Pacífico: seria uma espécie de seu “guardião”’

Neste sentido, os americanos precisam que o Japão se torne mais presente na região da Ásia-Pacífico: seria uma espécie de seu “guardião”. Tanto é assim que desde o fim da Segunda Guerra, o país tem abrigado mais tropas americanas do que qualquer outro e tem sido um aliado fundamental e fiel. Por esta razão, líderes políticos e militares americanos têm expressado aprovação pelo progresso do país na área da defesa e elogiado a expansão do orçamento e os investimentos em equipamentos militares que os japoneses vêm realizando.

Só que a questão reside na resistência ainda flagrante da população em concordar com qualquer projeto de as forças militares – definidas institucionalmente como de “Auto-Defesa” – extrapolarem o papel tão apenas de salvaguarda do território que a Constituição de 1947 lhes atribuiu. 

Por exemplo, há até pouco tempo ela se opunha à aquisição de mísseis capazes de atingir territórios inimigos, ou a mudanças constitucionais que permitissem que soldados japoneses combatam conflitos fora do país. Isto se reflete, aliás, na forte resistência do público ao aumento de impostos para financiar o orçamento de defesa, sobretudo num processo de custos sociais crescentes para beneficiar a população idosa.

‘Pesquisas revelam uma mudança de percepção e o crescente apoio público por medidas mais radicais’

Mas, diante da percebida ameaça à segurança do território diante do expansionismo da República Popular da China e da beligerância da Coreia do Norte, além do relacionamento historicamente complexo com a Coreia do Sul, pesquisas revelam uma mudança de percepção e o crescente apoio público por medidas mais radicais. 

Aliás, a proposta de reforma do artigo 9º foi defendida durante anos, sem sucesso, pelo ex-primeiro-ministro, Shinzo Abe. Agora, o atual primeiro-ministro Fumio Kishida, anunciou que pretende “promover uma reforma da Constituição e aprofundar o debate sobre as medidas necessárias para fortalecer drasticamente a defesa do país em meio a um clima difícil de segurança”.

Tal debate ainda divide a população, mas a realidade parece estar-se impondo, apesar dos arraigados temores a respeito das consequências que uma decisão deste porte possa acarretar e das lembranças e sentimento de “culpa” que as atrocidades cometidas por suas tropas contra as populações vizinhas na Segunda Guerra ainda levantam. 

‘Visitei Hiroshima e Nagasaki, e pude constatar o quanto a tragédia nuclear permanece viva na memória dos japoneses’

Quando servi na nossa Embaixada em Tóquio, visitei Hiroshima e Nagasaki, e pude constatar o quanto a tragédia nuclear permanece viva na memória dos japoneses, sobretudo a população mais idosa. Estas memórias ainda impedem discussões francas isentas a respeito do passado. Enquanto isto, a extrema-direita militarista demonstra conspícua resiliência e atua sub-repticiamente no cenário político nacional.

Para um país empenhado em se recolocar no papel que desempenhou ao longo do século XX, o imbricamento entre todas estas questões apresenta um dilema profundo: qual será o futuro da que chegou a ser uma sombra à hegemonia da economia americana no último quartel do século XX?


*Fausto Godoy é colunista da Interesse Nacional. Bacharel em direito, doutor em direito internacional público pela Universidade de Paris (I) e diplomata, serviu nas embaixadas do Brasil em Bruxelas, Buenos Aires e Washington. Concentrou sua carreira na Ásia, onde serviu em onze países. Foi embaixador do Brasil no Paquistão e Afeganistão (2004/2007) e Cônsul-Geral em Mumbai (2009/10). É coordenador do “Centro de Estudos das Civilizações da Ásia” da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) e curador da Ala Asiática do MON.

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Artigos e comentários de autores convidados não refletem, necessariamente, a opinião da revista Interesse Nacional

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