Entre amizade e interesses: a complexa história Brasil–EUA
A relação entre Brasil e Estados Unidos não nasceu de tratados formais nem de alianças declaradas, mas de encontros discretos, comércio cotidiano e a capacidade de ambos transformarem simpatia em rotina. Sua história começa antes mesmo da Independência brasileira, quando ideias vindas da América do Norte circulavam clandestinamente em vilas coloniais. Constituições estaduais norte-americanas eram copiadas em Minas Gerais e discutidas como precedentes para a ruptura com Portugal. Em 1787, José Joaquim Maia e Barbalho encontrou-se em Paris com Thomas Jefferson, então embaixador dos Estados Unidos, sondando apoio a uma eventual insurreição no Brasil. Jefferson recusou compromissos, mas registrou a conversa, revelando que a nova república do Norte observava com cautela os movimentos de autonomia no sul do continente. Esse episódio inaugurou um padrão: afinidades ideológicas raramente se traduziam em compromissos automáticos, e o pragmatismo seria a regra.
A transferência da corte portuguesa para o Rio de Janeiro em 1808, e a abertura dos portos deram início à fase prática. Navios norte-americanos passaram a frequentar Salvador e Rio de Janeiro, trazendo farinha, madeira e têxteis, e levando açúcar, algodão e, progressivamente, café. A nomeação de Henry Hill como primeiro cônsul americano institucionalizou a relação, convertendo improviso em previsibilidade. O reconhecimento da independência brasileira em 1824 e o Tratado de Amizade e Comércio de 1828 consolidaram esse quadro: amizade expressa em protocolos e comércio regulado por cláusulas de ”nação mais favorecida”.
Ao longo do século XIX, o café tornou-se a mercadoria emblemática da interdependência. O consumo nos Estados Unidos disparou e consolidou Nova York como referência para preços internacionais. Casas comerciais, bancos e companhias de navegação moldaram uma engrenagem que ligava plantações paulistas a cafés nova-iorquinos. Quando incidentes ameaçaram esse equilíbrio, a diplomacia mostrou sua função reparadora. Em 1864, o cruzador confederado CSS Florida foi capturado em Salvador por um navio da União, violando a neutralidade brasileira. O Império protestou, Washington pediu desculpas e saudou a bandeira imperial em cerimônia solene. O comércio seguiu e a lição ficou: soberania se afirmava com ritos diplomáticos e a relação maior era preservada.
Dom Pedro II acrescentou ciência e cultura a essa agenda. Sua viagem aos Estados Unidos, em 1876, incluiu a Exposição da Filadélfia, onde assistiu à demonstração do telefone de Alexander Graham Bell, e uma visita a Thomas Edison em Menlo Park. A imprensa americana exaltou sua curiosidade científica, projetando a imagem de um Brasil moderno, ainda que escravocrata. No mesmo período, imigrantes sulistas — os “confederados” — estabeleceram-se em São Paulo após a Guerra Civil, trazendo técnicas agrícolas e criando comunidades que, embora pequenas, simbolizaram a normalização da presença americana no Brasil.
Brasil como parceiro alinhado
A Primeira República coincidiu com o fortalecimento do panamericanismo. A conferência de 1906, no Rio de Janeiro, presidida por Joaquim Nabuco e prestigiada por Elihu Root, foi marco da “aliança não escrita” descrita por Rio Branco. A cooperação não se materializou em tratados de defesa, mas em padronizações consulares, sanitárias e estatísticas que reduziram atritos e consolidaram a previsibilidade do relacionamento. Esse capital acumulado foi decisivo quando crises globais cobraram ação coordenada.
Durante a Primeira Guerra, o Brasil declarou guerra à Alemanha em 1917, enviando uma divisão naval ao Atlântico e participando simbolicamente da Conferência de Versalhes. Mais importante do que a contribuição militar foi a legitimação internacional do Brasil como parceiro alinhado. Essa experiência seria ampliada na Segunda Guerra. A Política da Boa Vizinhança de Franklin D. Roosevelt já havia adensado laços culturais e políticos. Filmes, rádios e revistas reforçavam a ideia de fraternidade hemisférica, e a presença de Carmen Miranda, em Hollywood, ou do personagem Zé Carioca, nos estúdios Disney, criava familiaridade com o público americano. Quando os torpedeamentos alemães atingiram navios brasileiros em 1942, a entrada formal na guerra foi seguida de cooperação inédita.
A Base Aérea de Parnamirim, em Natal, tornou-se o ”trampolim da vitória” para operações no Atlântico e na África. A Força Expedicionária Brasileira combateu na Itália, enquanto pilotos do 1º Grupo de Caça se integraram a esquadrões aliados. Em troca, o Brasil obteve investimentos estratégicos: a Companhia Siderúrgica Nacional, a reorganização do setor mineral e obras de infraestrutura que deram lastro ao processo de industrialização. Segurança e desenvolvimento foram, nesse momento, duas faces da mesma moeda.
No pós-guerra, a lógica da Guerra Fria trouxe novo desafio. O governo Dutra alinhou-se de forma explícita aos Estados Unidos, rompendo com a União Soviética e aderindo ao Tratado Interamericano de Assistência Recíproca (TIAR) e à Organização dos Estados Americanos (OEA). Mas a busca por autonomia não desapareceu. O segundo governo Vargas e, mais tarde, Juscelino Kubitschek, procuraram barganhar cooperação em troca de apoio a projetos de desenvolvimento, como o BNDES, a Petrobras e a Operação Pan-Americana. Essa tensão entre alinhamento e autonomia marcaria a política externa brasileira até a redemocratização.
O regime militar (1964–1985) reforçou inicialmente o alinhamento. Castelo Branco e Costa e Silva aproximaram-se dos EUA em segurança e economia. Mas, a partir de Geisel, o Brasil buscou afirmar independência, diversificando parceiros, reconhecendo a China e firmando um acordo nuclear com a Alemanha. A denúncia do acordo militar de 1952 e os atritos com a administração Carter, que priorizava direitos humanos, mostraram que a ”aliança não escrita” tinha limites. Ainda assim, a cooperação técnica e o comércio permaneceram.
Com a redemocratização, a relação voltou a ser recalibrada. Sarney enfrentou a crise da dívida e trouxe a Amazônia para a pauta internacional. Collor promoveu abertura econômica e sediou a Rio-92, consolidando o tema ambiental como eixo da agenda bilateral. Itamar Franco deu centralidade ao Mercosul e tratou com cautela a proposta de Área de Livre Comércio das Américas (ALCA). Fernando Henrique Cardoso institucionalizou uma parceria estratégica, coordenou posições na Organização Mundial do Comércio (OMC) e recebeu apoio em crises cambiais, mas também enfrentou contenciosos agrícolas.
Cooperação climática deu resiliência à parceria
Nos anos 2000, o Brasil de Lula buscou ”autonomia pela diversificação”, aproximando-se do Sul global e do BRICS, mas mantendo cooperação em áreas como biocombustíveis e operações de paz. As divergências vieram com o Iraque, o Irã e, em 2013, com as revelações da espionagem da National Security Agency (NSA) sobre Dilma Rousseff e a Petrobras. A crise de confiança foi profunda, mas a cooperação climática em 2015 mostrou a resiliência da parceria. Temer retomou pragmatismo regulatório e aproximação com a OCDE. Bolsonaro, em alinhamento ideológico inédito com Donald Trump, obteve gestos como o status de aliado extra-OTAN, mas enfrentou tensões ambientais com Biden. Em todos esses episódios, a camada técnica de defesa, comércio e ciência garantiu continuidade, mesmo quando a política oscilava.
Ao longo de mais de dois séculos, repete-se a mesma fórmula. O comércio funcionou como cimento; a geografia, como trunfo estratégico; a segurança, como linguagem compartilhada; o desenvolvimento, como moeda de negociação; e a ciência e a cultura, como amortecedores de atritos. Amizade e cálculo não se excluíram: caminharam juntos. O desafio contemporâneo é aplicar essa gramática a novas agendas. Energia limpa, bioeconomia amazônica, governança digital e saúde global são os ”cafés” do século XXI, mercadorias e ideias que podem dar substância a uma interdependência renovada.
O balanço histórico sugere que a longevidade da relação não deriva de afinidades abstratas, mas da capacidade de transformar interesses em instituições, divergências em protocolos e oportunidades em obras concretas. Quando ambos os países compreenderam essa lógica, a amizade prosperou. Quando a ignoraram, emergiram crises. O futuro dependerá da escolha de manter viva a combinação que, desde 1808, sustenta o diálogo: pragmatismo, previsibilidade e resultados.
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