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Favela cocria e implementa ações de transformação em território próprio

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Na última década, o número de favelas no Brasil dobrou. De acordo com o IBGE, os chamados aglomerados subnormais – áreas de padrão urbanístico irregular, carentes de serviços públicos essenciais como saneamento e, não raro, localizadas em áreas de risco – eram cerca de 6.300 em 2010. Hoje, são pelo menos 13.750. O dado é do Instituto Data Favela e foi divulgado em dezembro de 2021. 

Ainda segundo o IBGE, as favelas estão espalhadas por mais de 700 cidades de todas as regiões do país e comportam algo como 5,12 milhões de domicílios. Quase 90% dessas comunidades estão em regiões metropolitanas.

Estima-se que nas favelas vivem cerca de 18 milhões de pessoas, ou 8% da população brasileira. Se as favelas fossem um estado, estaria disputando com o Rio de Janeiro o 3º lugar entre os mais populosos do País. Os dados também são de uma pesquisa do ano passado, do Instituto Locomotiva junto ao Data Favela e à Gerando Falcões. O mesmo levantamento mostra que 27% dos moradores já tiveram um familiar encarcerado e que 44% já foram vítimas de preconceito por esse motivo.

Trago esses dados para pintar com números algo que é evidente a qualquer um que observe a realidade brasileira com alguma sensibilidade. Nosso país enfrenta mazelas sociais que, de tão antigas, às vezes parecem incuráveis. É o caso da pobreza, da desigualdade, do racismo. Favelas são expressões dessas mazelas, bem como o resultado de escolhas históricas que garantiram a continuidade de tal situação.

A pandemia agravou todos esses problemas. A população periférica, geralmente impedida de realizar qualquer isolamento social e sem acesso a um bom serviço de saúde, foi a mais afetada pela Covid-19. Ainda de acordo com a Pesquisa Locomotiva/Gerando Falcões, nove em cada dez moradores de favela não possuem plano de saúde. Um estudo do epidemiologista Paulo Lotufo, da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, indica que a letalidade do Coronavírus pode variar em 60% na comparação entre bairros ricos e pobres de uma mesma cidade.

Os impactos indiretos da pandemia também foram desiguais. Os moradores das favelas foram os mais afetados pelo desemprego, pelo aumento da inflação, pela redução na renda no caso de trabalhadores informais. O nosso levantamento comprovou que apenas 14% eram empregados com carteira assinada. Oito em cada 10 tiveram a renda comprometida no período pandêmico.

Derrubando muros de crenças limitantes e construindo pontes

Com isso, problemas que muitos consideravam superados voltaram a assombrar os lares brasileiros: no final de 2021, mais da metade da população brasileira – cerca de 116 milhões de pessoas – vivia em situação de insegurança alimentar, caracterizada pela incerteza de que será possível realizar uma próxima refeição. Desse contingente, cerca de 20 milhões estavam de fato passando fome, segundo balanço da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional.

Em suma, a chegada da pandemia em um País já brutalmente desigual como o Brasil nos levou à beira de um colapso social. Evitamos o pior, em grande medida, graças ao trabalho do terceiro setor, que ganhou protagonismo inédito. No auge da crise sanitária, o país quebrou recordes de doações por parte de empresas e pessoas físicas. Bilhões foram levantados em campanhas solidárias que garantiram cestas básicas, máscaras, álcool gel, roupas, itens de higiene pessoal e muito mais para as parcelas mais carentes da população.

As entidades que já realizavam trabalhos sociais nas periferias foram algumas das mais impactadas por essa “onda” dos últimos dois anos. Seus conhecimentos acumulados a respeito do território e das demandas da favela foram imprescindíveis para responder à crise sanitária com a urgência necessária. Como reflexo da crise aguda que o Brasil enfrenta, praticamente qualquer indicador – do volume total de doações ao espaço concedido pela imprensa – revela um aumento na importância das ONGs dedicadas às causas da população periférica.

Os números da Gerando Falcões, entidade que eu lidero, ilustram essa ideia. Em 2020, estávamos presentes em 289 favelas brasileiras. Encerramos 2021 marcando presença em mais de 1.700, um salto de 510%. Nossos projetos atendem hoje a mais de 200 mil pessoas. A Falcons University, nosso braço educacional, que funciona como um motor desenvolvedor de lideranças sociais na favela, formou 240 pessoas em 2021, número quatro vezes maior que aquele registrado no ano anterior.

Com relação às ações específicas de combate à pandemia, realizamos por dois anos consecutivos a campanha “Corona no Paredão, Fome Não” para doação de cestas básicas por meio digital às famílias mais necessitadas. Somente na edição de 2021 da campanha arrecadamos cerca de R$ 75 milhões, fundamentais para afastar a insegurança alimentar da vida de 1,5 milhão de pessoas. 

Para quem acredita, como eu, que a solidariedade é um dos pilares da cidadania e que o Terceiro Setor desempenha um papel importante, esses dados são animadores. Mas ainda não são suficientes se quisermos efetivamente encontrar soluções para os grandes problemas sociais do país. Precisamos de uma união entre todos os setores, público, privado e as entidades filantrópicas, mas, sobretudo, não podemos esquecer que trabalhar na favela não é implantar. É cocriar, é trazer a favela para participar de todas as decisões importantes e dialogar a fim de obter os melhores resultados possíveis. 

O projeto piloto Favela 3D – Digna, Digital, Desenvolvida

A Gerando Falcões desenvolve na Favela Marte, em São José do Rio Preto, no interior de São Paulo, o projeto piloto Favela 3D (Digna, Digital, Desenvolvida). Trata-se de um grande laboratório social, no qual estamos testando novas estratégias de combate à pobreza, para que sejam mais eficientes e, principalmente, replicáveis em todo o território nacional.

Junto às lideranças da comunidade, lideradas por Amanda Oliveira, CEO e fundadora do Instituto Valquírias World, negociamos com a prefeitura de São José do Rio Preto, com o governo de São Paulo e com parceiros da iniciativa privada o investimento de mais de R$ 50 milhões na reestruturação da Favela Marte – antes Vila Itália, onde acontece o projeto piloto do Favela 3D. A iniciativa envolve a construção de casas, praças com Wi-Fi, locais de atendimento de saúde para a primeira infância, centros de capacitação profissional e espaços de lazer, esporte e cultura. Será a primeira favela com energia solar do Brasil.

Ocorre que nenhuma dessas mudanças é eficaz sem a garantia de que a população desse território terá saídas permanentes para sua situação de pobreza, o que passa, em primeiro lugar, por uma fonte de renda estável. Isso é corroborado pelo fato de que, enquanto a taxa nacional de desemprego é de pouco mais de 12%, na Favela Marte, esse índice é mais que o dobro: 26,7%. Outros 35% têm empregos informais ou temporários. Cerca de um quarto da favela vive com renda mensal de até R$ 500,00. Os dados são de um levantamento da Gerando Falcões e, embora se refiram aos moradores dessa comunidade no interior de São Paulo, revelam uma tendência mais ampla. 

Por isso, convidamos os empresários da região a firmarem um compromisso público e por escrito, chamado Pacto Pela Inclusão Econômica da Favela Marte, que vai empregar prioritariamente moradores dessa localidade. O objetivo é garantir uma situação de pleno emprego em não mais que 12 meses, além de possibilitar que esses empregadores estejam envolvidos em nosso projeto social no médio prazo. A estimativa é que a renda captada com as oportunidades preenchidas pelos trabalhadores supere os R$ 2 milhões no primeiro ano de projeto. 

Desenvolvemos também o programa Decolagem, que analisa dados das famílias em situação de pobreza para mapear suas perspectivas de futuro e principais vulnerabilidades. A grande meta é permitir a construção de trilhas individualizadas de superação da pobreza, com base em um universo de dados impensável até poucas décadas atrás, quando se desenhou o modelo dos grandes programas sociais de distribuição de renda – ainda absolutamente necessários, é bom frisar. Com o aprimoramento desses algoritmos sociais, fica mais fácil antecipar situações que ameaçam empurrar uma pessoa de volta à condição de pobreza extrema, por exemplo.

O piloto do Favela 3D, em São José do Rio Preto, já se espalhou e chegou a Vergel do Lago, em Maceió, onde está instalada a ONG Mandaver, ao Morro da Providência, no Rio de Janeiro, local do Instituto Entre o Céu e a Favela, e à Boca do Sapo, em Ferraz de Vasconcelos. Aliás, Boca do Sapo não. O nome agora é Favela dos Sonhos, conforme escolha dos próprios moradores em eleição realizada no local, onde moram cerca de 225 famílias. 

A renda na Favela dos Sonhos é de R$ 796,65, o que representa um déficit de 45% em relação à linha da pobreza (R$ 1.155,14). Ao todo, 39% da população economicamente ativa da favela encontra-se desempregada. Para romper o ciclo de pobreza, já temos garantido um investimento de R$ 5 milhões e o primeiro passo, além da troca de nome, foi a inauguração da Sede Comunitária, construída em parceria com a Teto. O espaço funciona como um centro de convivência para a população e servirá também para inscrever jovens em oficinas e cursos de qualificação profissional, além de homens e mulheres em programas de capacitação e geração de empregos.

O desafio de interromper ciclos históricos de pobreza é duríssimo, com exigência de suor e lágrimas, causados por esforços e decepções em olhares tristes sem esperança. Chamar a favela para cocriar e participar dessa transformação, no entanto, é derrubar muros repletos de crenças limitantes e construir pontes que possibilitem novas realidades a talentos que precisam de oportunidades. A cada ano, estamos expandindo nosso impacto para tornar a missão de levar a pobreza da favela para o museu, vista como um sonho impossível, em uma realidade próxima e tangível.

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