O que a democracia deve absorver das watch parties
As democracias constitucionais têm muito a aprender com um fenômeno aparentemente trivial: as watch parties. Elas existiam muito antes desse título se consolidar, mas ganharam, nos últimos anos, dimensão cultural e política que poucas análises compreenderam com profundidade. Na prática, watch party é uma forma de amigos ou fãs assistirem ao mesmo conteúdo sincronizadamente e virtualmente, até com a possibilidade de acessar um chat integrado, para, assim, comentar e interagir, em tempo real, participando de uma experiência social mesmo à distância.
O exemplo mais recente vem das iniciativas do Lias, que acompanha os desfiles de alta-costura de Paris e, paralelamente as apresentações exclusivas para ricos, celebridades e compradores profissionais, montam espaços abertos com telões, bebidas e entrada gratuita, para que pessoas comuns assistam, em tempo real, àquilo que, de outro modo, lhes estaria interditado. A lógica é simples, mas o efeito tem densidade. É um deslocamento da exclusividade para a partilha, uma recodificação da experiência estética e social, um gesto de redistribuição simbólica de acesso.
Esse modelo contemporâneo ecoa práticas mais antigas: desde os anos 1990, torcedores se reúnem em praças, bares, teatros e centros culturais para acompanhar jogos, premiações, estreias de filmes ou finais de campeonatos. A lógica é a mesma: criar um espaço alternativo de vivência coletiva de algo que, originalmente, seria consumido individualmente ou restrito a um grupo fechado. O que me interessa aqui não é a dimensão do entretenimento, mas o que essa dinâmica revela sobre o desejo humano de estar junto, de experimentar simultaneamente, de sincronizar afetos no tempo e no espaço. Há, nesse movimento, algo profundamente político, ainda que ele não se apresente como tal.
O filósofo Baruch Spinoza já ensinava que os corpos se afetam mutuamente; que a potência de agir aumenta quando agimos com outros corpos; que alegria é expansão, e tristeza é retração. As watch parties, vistas sob essa lente, operam como zonas de intensificação democrática: são espaços de presença compartilhada, onde a experiência se torna pública, mesmo quando o conteúdo não é. Assistir a um desfile no telão não dá a ninguém o poder de comprar uma peça de alta-costura, mas reorganiza a hierarquia do acesso. A distância entre a passarela e a rua se reduz, ainda que simbolicamente, e isso cria um território intermediário, um “entre”, onde o que era exclusivo se torna experimentável.
Democratização simbólica do acesso
O que a democracia constitucional pode aprender com isso? Primeiro, que a participação não precisa ser total para ser significativa. As instituições operam, hoje, como se o único momento de presença fosse o voto; como se o eleitor tivesse acesso pleno à democracia apenas no instante da urna. Essa lógica é tão pobre quanto imaginar que assistir ao desfile só faz sentido sentado na primeira fila. A experiência compartilhada de acompanhar o evento — ainda que de longe, ainda que mediada, ainda que reproduzida — cria pertencimento, cria referência, cria vínculo. Watch parties são dispositivos de democratização simbólica do acesso, e democracias precisam urgentemente aprender a criar dispositivos semelhantes para o exercício do poder.
Segundo, as watch parties produzem comunidade efêmera, e isso não é um defeito: é uma potência. Elas reúnem pessoas que não se conhecem, mas que se reconhecem naquele instante. A democracia brasileira fracassa justamente porque só convoca o povo a existir coletivamente em intervalos longos, formais, ritualizados. Entre uma eleição e outra, cada um volta para sua bolha. A política se reduz às cúpulas estatais, aos gabinetes blindados, às decisões tomadas por elites que não circulam no espaço público. As watch parties mostram, ao contrário, que a coletividade pode ser convocada para momentos de presença pulsante, ainda que episódicos. E essa presença, quando institucionalizada, é capaz de criar vínculos de legitimidade.
Por fim, as watch parties oferecem um modelo de tradução entre mundos que não conversam. A alta-costura e a rua; o jogo e a praça; o cinema e o bar; o conteúdo exclusivo e a plateia que se reúne para assistir à transmissão. Democracias constitucionais precisam aprender a criar mecanismos que façam o mesmo: espaços que traduzam a técnica jurídica para a experiência cidadã, o processo institucional para o horizonte do público, a decisão abstrata para o impacto cotidiano.
Minipúblicos consultáveis, assembleias rotativas, fóruns deliberativos — todas essas propostas carregam, no fundo, essa lógica de tradução. Elas funcionam como watch parties da política: trazem para perto aquilo que sempre esteve longe, transformam o inacessível em compartilhável, redesenham a relação entre espectadores e atores.
Se quisermos reimaginar as democracias constitucionais para o século XXI, precisamos observar menos o Parlamento e mais o que acontece fora dele. Precisamos olhar para os modos cotidianos de mobilização, para as formas espontâneas de reunião pública, para os ritmos afetivos que orientam encontros no mundo real. Uma democracia que não reconhece o poder desses gestos perde a oportunidade de construir uma arquitetura institucional que parta da vida vivida, e não da abstração jurídica. As watch parties ensinam que o acesso pode ser ampliado sem destruir a forma; que a partilha pode ser criada sem eliminar a exclusividade; que a presença coletiva ainda é a experiência humana mais transformadora. Talvez seja hora de a democracia aprender a se vestir de novo — não para parecer diferente, mas para reencontrar quem a sustenta: as pessoas que se reúnem, que assistem juntas, que querem participar de algo maior do que elas.
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