26 fevereiro 2026

A internacionalização de fato da Amazônia – O julgamento de Salomão às margens do Tapajós

Assistimos neste momento a uma luta que irá determinar o futuro do Brasil – a luta contra o decreto 12600/2025 que visa privatizar alguns dos maiores Rios da Amazônia tornando-as hidrovias para grãos ao dragar os leitos e explodir rochas que servem de abrigo para peixes (1).  Caso o leitor não esteja ciente de tal […]

Foto: Carta Amazônia

Assistimos neste momento a uma luta que irá determinar o futuro do Brasil – a luta contra o decreto 12600/2025 que visa privatizar alguns dos maiores Rios da Amazônia tornando-as hidrovias para grãos ao dragar os leitos e explodir rochas que servem de abrigo para peixes (1). 

Caso o leitor não esteja ciente de tal fato dramático, pode se considerar desculpado, dado o silêncio na mídia corporativa que focou nesses dias em notícias sobre carnaval, e notícias internacionais sobre Groenlândia e Trump, um mico chinês e a vida particular de famosos, além de matérias pagas por multinacionais da agroindústria (2). 

‘Não é exagero dizer que esta luta determinará em grande parte se o Brasil continua apto para habitação humana num cenário de mudanças climáticas aceleradas’

No entanto, não é exagero dizer que esta luta determinará em grande parte se o Brasil continua apto para habitação humana num cenário de mudanças climáticas aceleradas, ou se entra ao contrário num processo sem volta de desmatamento, savanização e desertificação com calor mortal, falta de chuva para agricultura, inundações recorrentes, pandemias e impactos sobre a segurança alimentar (3). 

Enquanto o presidente Lula identifica como prioridade essa última, o governo atual está na frente de facilitar o avanço da soja para exportação não somente com a dragagem dos Rios Tapajós, Tocantins, e Madeira, mas também a Ferrogrão, ferrovia que terá o mesmo objetivo. 

Estas obras irão acelerar o desmatamento e a destruição do rio e floresta, revirando mercúrio envenenando peixes, outros animais e pessoas, e destruindo um dos destinos turísticos mais bonitos do país – o Alter do Chão, enturvecendo e envenenando a água desse “Caribe Brasileiro”. 

Na luta contra essa destruição, os indígenas estão na frente, arriscando suas vidas e corpos contra uma das maiores multinacionais do mundo, a Cargill, empresa privada e controlada por cerca de 100 herdeiros das famílias Cargill-MacMillan, com fortuna estimada em US$ 60,6 bilhões e 21 bilionários entre seus membros (4). 

No ano fiscal 2025, esta companhia reportou US$ 154 bilhões em receita (5), enquanto a região de Santarém continua uma das regiões mais pobres do Brasil e com índices elevados de envenenamento por mercúrio e glifosato, agrotóxico que serve uma dupla função como arma química contra a população local (6).

‘Não obstante a falta de riqueza financeira, esta região segue sendo uma das mais importantes para a economia e sociedade brasileira e o mundo’

Não obstante a falta de riqueza financeira, esta região segue sendo uma das mais importantes para a economia e sociedade brasileira e o mundo, sendo o Aquífero de Alter do Chão a maior reserva de água doce potável no mundo (embora ameaçada de contaminação) (7), enquanto a bacia Amazônica fornece 38% da água armazenada em rios do mundo e recicla até 50% da própria chuva via evapotranspiração (os “rios voadores”), que irrigam agricultura, abastecem reservatórios e estabilizam o clima em vastas áreas do Brasil e da América do Sul (8). 

Sugiro aqui entender o problema moral que enfrenta todos os setores do Brasil neste momento através de uma história bíblica. Assim, no Velho Testamento (1 Reis 3:16-28 ) o Rei Salomão, recebe duas mulheres com duas crianças; uma viva e a outra morta. As duas alegam ser mãe da criança viva, e o sábio rei então decide sobre a solução: cortar a criança viva ao meio para que as duas mulheres dividem o corpo morto. Não sabemos se o rei iria fazer jus de seu julgamento porque a verdadeira mãe da criança intercede desesperadamente para parar o soldado que levanta a espada sobre o bebé nu e indefeso, pedindo para dar à outra mulher, desde que lhe poupem a vida, revelando assim o seu amor materno. 

A Amazônia não é uma criança indefesa – sua história milenar com grandes obras pré-colombianas de infraestrutura, comércio, agricultura e manejo sustentável da floresta, e suas culturas complexas desmentem qualquer infantilização (9). 

No entanto, a metáfora serve para identificar o cerne de um conflito que se dá entre posse formal – ou seja soberania de jure – e soberania de fato, o qual requer vida. 

‘Chama a atenção como no caso o Estado brasileiro ao invés de servir aos interesses substantivos e materiais dos brasileiros na atualidade e no futuro, serve para facilitar a extração de riqueza com destino ao exterior ‘

Assim, o Decreto 12600/2025, representa o extremo da perda da soberania de fato que vem se acelerando há décadas num processo de desenvolvimento dependente (10). Neste processo a internacionalização material convive com a soberania de jure exercida por elites locais. Num momento que lembra a repetição da história como comédia, esta internacionalização chegou a ser invocada por um policial federal que – em aparente tom de raiva – respondeu a uma importante liderança indígena que a área do Rio Tapajós ocupada por indígenas seria “área de segurança internacional” (11). Assim, não obstante a legalidade de tal afirmação, chama a atenção como no caso o Estado brasileiro, particularmente judiciário e forças de segurança (12), ao invés de servir aos interesses substantivos e materiais dos brasileiros na atualidade e no futuro, serve para facilitar a extração de riqueza com destino ao exterior – ou seja, facilitar a internacionalização de fato.

Este processo ameaça os sistemas de vida que sustentam a sociedade e a economia do Brasil inteiro, inclusive a segurança alimentar. Ou seja, os brasileiros podem vir a ser os donos formais – de jure – não mais da floresta tropical mais rica do mundo, mas, ao contrário, de um imenso deserto ou savana estendendo-se do oceano Atlântico até o Acre. Nesse caso, nenhum programa de transferência de renda como Bolsa Família irá responder à altura da escassez de comida e nenhuma vitória do Lula contra a fome no passado ou no presente irá salvar sua imagem. 

Isso porque os rios não são ideias abstratas assim como conceitos legais e burocráticos, mas sistemas fisiológicos, biológicos e sociais que sustentam vidas, economias e sociedades localmente, regionalmente e globalmente e que quando mortos não voltam. 

Ou seja, retomando o fio da história bíblica, o que vale ser mãe de uma criança morta? 

Assim, contrários aos discursos coloniais e racistas que representam indígenas como infantilizados ou como ameaças de separatismo (13), na nossa analogia os indígenas representam a mãe que prefere salvar o bebê, neste caso a custo das próprias vidas, colocando seus corpos fisicamente na frente ao ocupar a sede da Cargill. 

‘Essa defesa do território como vida e sustento de economia, sociedade e culturas locais contrasta com a soberania de jure, particularmente quando essa ultima serve como verniz ideológica cobrindo a internacionalização material das matérias-primas’

Essa defesa do território como vida e sustento de economia, sociedade e culturas locais contrasta com a soberania de jure, particularmente quando essa ultima serve como verniz ideológica cobrindo a internacionalização material das matérias-primas e riquezas desses rios e seus arredores – ou seja, a internacionalização de facto – avança com apoio – e pressão – do congresso, este último em grande parte ocupado por interesses privados e financeiros.

É aqui que a teoria da dependência ganha forma material e a prática do desenvolvimento dependente se alia à internacionalização material – de fato – coincidindo com a plena soberania de jure, esta última servindo para dar um ar de legalidade à destruição do futuro do Brasil e do planeta. 

Na história de Salomão, a mãe verdadeira é a que recusa cortar a criança ao meio enquanto a impostora aceita receber uma criança morta. Sugiro aqui que qualquer projeto de soberania verdadeira tem que visar uma soberania de fato contra a internacionalização de fato. Isso porque, como mostram indígenas quilombolas e ribeirinhos, só assim pode-se combater a internacionalização de fato, ou seja, por uma relação real com o território como sustento de vida, cultura e sociedade. 


Notas:

(1) Brasil. 2025. Decreto nº 12.600, de 28 de agosto de 2025. Inclui empreendimentos públicos federais do setor hidroviário no Programa Nacional de Desestatização (PND). Brasília: Presidência da República. (publicação reproduzida na Câmara dos Deputados).
(2) The Intercept Brasil. 2025. “Vale e JBS são as que mais patrocinam cobertura jornalística da COP30 na grande mídia.” 10 nov. 2025.
(3) IPCC. 2022. Climate Change 2022: Impacts, Adaptation and Vulnerability. Working Group II. Chapter 12: Central and South America. Geneva: Intergovernmental Panel on Climate Change; Flores, B. M., et al. 2024. “Critical transitions in the Amazon forest system.” Nature; Lovejoy, Thomas E., and Carlos Nobre. 2018. “Amazon Tipping Point.” Science Advances; Leite-Filho, Argemiro T., et al. 2021. “Deforestation reduces rainfall and agricultural revenues in the Brazilian Amazon.” Nature Communications 12: 2591; Lancet Countdown. 2025. Health and Climate Change in Brazil: 2025 Data Sheet.
(4) Business Insider. 2024. “The 35 richest families in America, ranked.” Business Insider, 2024; Yahoo Finance. 2024. “These Are America’s 10 Richest Families of All Time.” Yahoo Finance, 12 Mar. 2024.
(5) Cargill. 2025. 2025 Annual Report: Connecting a food secure world. Minnetonka, MN: Cargill.
(6) Agência Pública. 2019. “Agricultores denunciam uso de agrotóxico como ‘arma química’…” 8 abr. 2019. ; Repórter Brasil. 2026. “Professora que denunciou contaminação de alunos por agrotóxicos no Pará é transferida.” 22 jan. 2026. ; Figueiredo, A. R. (2022). Nos corpos e nos territórios: Impactos do agronegócio de soja e milho em Belterra-PA.
(7) Viel, E. U., et al. 2024. “Qualidade da água do Aquífero Alter do Chão.” Scientific Management Journal
(8) Dominguez, F., et al. 2006. “Impact of Atmospheric Moisture Storage on Precipitation Recycling.” Journal of Climate 19(8); NASA Jet Propulsion Laboratory. 2024. “NASA-Led Study Provides New Global Accounting of Earth’s Rivers.” Pasadena, CA: NASA/JPL, 26 Apr. 2024.
(9) de Souza, Jonas Gregorio, et al. 2018. “Pre-Columbian earth-builders settled along the entire southern rim of the Amazon.” Nature Communications 9: 1125; Clement, Charles R., et al. 2015. “The domestication of Amazonia before European conquest.” Proceedings of the Royal Society B 282(1812): 20150813
(10) Cardoso, F. H., & Faletto, E. (1979). Dependencia y desarrollo en América Latina (Vol. 288). México: Siglo xxi.
(11) https://www.instagram.com/alessandra_korap/ Stories, visitado dia 22 de fevereiro, 2026.
(12) Reuters. 2026. “Brazil court reinstates order to free up access to Santarem port terminal.” 19 February 2026.
(13) Valente, Rubens. 2020. “Opinião: Ataque de Heleno expõe ignorância sobre o movimento indígena.” Disponível em: https://noticias.uol.com.br/colunas/rubens-valente/2020/09/22/augusto-heleno-movimento-indigena-governo-bolsonaro.htm.

Christoffer Guldberg é professor e doutor pelo King's College London e pela USP, com uma tese sobre violência e resistência policial no Brasil.

Artigos e comentários de autores convidados não refletem, necessariamente, a opinião da revista Interesse Nacional

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