28 janeiro 2026

Banimento de redes para menores é vitória do bom senso após anos de omissão

Depois de anos ouvindo que as redes haviam despertado a população para os reais problemas do mundo, em 2025, pode-se dizer que isso ocorreu de verdade

Foto: Bruno Peres/Agência Brasil

Um antigo clichê afirma que, na guerra, a primeira vítima é sempre a verdade. Já na era das plataformas digitais, a primeira perda foi a do bom senso. Essa foi a tendência durante anos para sociedades, pensadores, governos e reguladores. No entanto, 2025 se mostrou um ano com potenciais pontos de virada. Uma das grandes notícias não veio de uma zona de conflito ou capital de alguma grande potência, e, sim, da Austrália: o banimento das redes sociais para menores de 16 anos. 

O despertar sobre como plataformas que começaram oferecendo reencontros com amigos de colégio e joguinhos inocentes como Farmville terminaram criando a maior crise de saúde mental da história ocorreu aos poucos ao longo dos últimos anos. 

‘Deixar as novas gerações à mercê de grandes conglomerados visando lucro a qualquer custo através da atenção foi uma das piores decisões coletivas da história’

O documentário O Dilema das Redes Sociais teve um importante papel. Depois, as obras A Fábrica de Cretinos Digitais, de Michel Desmurget, e A Geração Ansiosa, de Jonathan Haidt, trouxeram evidências mais que suficiente do óbvio: deixar as novas gerações à mercê de grandes conglomerados visando lucro a qualquer custo através da atenção foi uma das piores decisões coletivas da história.

As notícias dos desastres apareceram pouco a pouco, normalmente, sem contexto suficiente para que um grande quadro pudesse ser traçado. Aumento de ansiedade e suicídio entre adolescentes em quase todo o mundo; quedas drásticas nos níveis de atenção; e, a mais impressionante: a primeira perda cognitiva geracional registrada. Ou seja, uma reversão do quadro pós-Revolução Industrial no qual uma série de avanços sociais vinha possibilitando que uma geração superasse a outra de forma consistente. Nada páreo para uma tela com estímulos constantes 24 horas por dia.      

Os professores nas escolas estavam alarmados há anos. Mas, se há algo que o ser humano é constante na infância e depois como adulto é em ignorar os professores das escolas em qualquer fase. Após anos de relatos, confirmados em estudos e evidências, de como o ensino com o uso liberado de celulares estava virando uma mera formalidade em que pais tivessem onde deixar os filhos por algumas horas antes que eles voltassem para casa para seguir usando as mesmas telas, algumas autoridades tomaram a decisão de proibir o uso nestes espaços. Sem grandes surpresas, os resultados positivos foram quase imediatos.

‘O modelo de vídeos curtos e estímulo constante se provou um sucesso em todas as idades, no entanto, os danos são muito maiores na fase de desenvolvimento’

Enquanto os pais e tomadores de decisão se distraíam com o entretenimento político em suas telas, o desafio foi ficando cada vez maior nas dos pequenos. O surgimento do TikTok, o mais potente instrumento massivo de captura de atenção já desenvolvido, criou um novo paradigma para a geração, afetando de forma decisiva o desenvolvimento cognitivo. O modelo de vídeos curtos e estímulo constante se provou um sucesso em todas as idades, no entanto, os danos são muito maiores na fase de desenvolvimento. 

Se “brain rot”, eleito termo do ano em 2024 por Oxford é um desastre para um cérebro formado, imagine o que a fritura é capaz em um que está em formação.

A efetividade foi tanta que logo Meta e Google correram para copiar o modelo de vídeos curtos na vertical sugeridos a todo instante através de algoritmos. 

Shorts e Reels foram a resposta, assim como outros aplicativos como o Kwai buscaram usar um modelo que se consolidou. Tão grave quanto a forma de se entreter ter sido sequestrada, é o fato de todo uma legião de jovens usá-lo também para questões mais relevantes. Já há uma porcentagem grande que usa o TikTok, e não buscadores, para consultas na internet, o que faz da Wikipédia, o pesadelo de professores de duas décadas atrás, um sonho. 

‘O jornalismo, o mais ingênuo dos inimigos dos engenheiros do caos, mais uma vez foi atrás da tendência’

Pior, praticamente todas as pesquisas sobre consumo de mídia com menores de 23 anos mostra que o TikTok é hoje a principal fonte de informação. O jornalismo, o mais ingênuo dos inimigos dos engenheiros do caos, mais uma vez foi atrás da tendência. Nas redações, após a obsessão por competir com fake news nos buscadores através do modelo SEO, a tendência são os vídeos curtos. 

A necessidade de se comunicar com a audiência jovem impulsionou a produção de conteúdo por páginas de credibilidade do tipo: “entenda a guerra da Síria em um minuto”. Quem realmente quer entender o que se passa na Síria, não buscará fazê-lo em um minuto. Agora, quem quer se entreter com isso, sim. E o jornalismo sempre vai perder para quem não tiver compromisso com a verdade e responsabilidades.

Em uma analogia, é como achar que colocar uma fatia de alface nos cheese burgers pode resolver os problemas de alimentação de uma geração que apenas se alimenta de fast food. Da mesma forma que nunca houve tanta caloria disponível para a humanidade e nunca fomos tão malnutridos, o excesso de informação de forma alguma está ligado à formação de uma geração mais consciente.

‘No Brasil, a exposição da chamada “adultização” alertou país para um lucrativo mercado que vinha de anos de exposição de jovens sexualizadas precocemente’

Os casos em certos nichos foram os que mais chamaram a atenção, até pela gravidade, envolvendo pedofilia e suicídios. No Brasil, a exposição da chamada “adultização” alertou país para um lucrativo mercado que vinha de anos de exposição de jovens sexualizadas precocemente, algo que têm correspondências em outros países, com destaque para a Colômbia. Na Argentina, suicídios e outros casos graves envolvendo menores viciados em apostas esportivas comoveram o país. A omissão das plataformas, intermediárias destas situações, impressiona, ainda que a responsabilidade seja ignorada legalmente.

Gigante pouco conhecida pelos adultos fora do mercado financeiro, a Roblox ganhou forte presença infantil nos últimos anos, não sem se envolver em comportamentos problemáticos visando lucros. O jogo, com contexto altamente atrativo para crianças, se tornou um espaço para predadores sexuais em busca de vítimas vulneráveis com pouca supervisão dos pais, nem responsabilidade das plataformas. Com a escalada da questão, em 2025, a cidade de Buenos Aires definiu o banimento da plataforma em suas escolas.

‘Mortes após atitudes de risco impulsionadas nestes espaços foram alguns dos principais catalisadores para buscar preservar os jovens’

Pelo mundo, mortes após atitudes de risco impulsionadas nestes espaços foram alguns dos principais catalisadores para buscar preservar os jovens, especialmente no TikTok. A Albânia optou por suspender a plataforma por ao menos um ano após mortes ligadas a conteúdos que circulavam no aplicativo, alegando incitação à violência e ao bullying. 

Já a cidade de Nova York moveu neste ano um processo que alega que as big techs criaram uma crise de saúde mental entre os jovens. Além das questões já citadas, a ação apresenta os casos chamados de “subway surfing”, que foram estimulados nas redes e que causaram uma série de acidentes na cidade após jovens subirem nos trens do metrô para gravarem um desafio.      

Em um mundo que sequer conseguiu banir o consumo de amianto depois de décadas de evidências, acreditar que algumas das empresas mais poderosas da história passarão em poucos anos de solução para a humanidade às culpadas pelos danos a uma geração é ingenuidade. No entanto, depois de anos ouvindo que as redes haviam despertado a população para os reais problemas do mundo, em 2025, pode-se dizer que isso ocorreu de verdade, e boa parte estava no espelho delas.     

Matheus Gouvea de Andrade é jornalista focado em temas internacionais baseado na América Latina. Trabalhou no Grupo Estado e publicou em veículos como BBC, Rest of World, Climate Change News, DW Brasil, Folha de S. Paulo, Piauí e Público, escrevendo a partir de Lisboa, Medellín, Lima, Buenos Aires e São Paulo

Artigos e comentários de autores convidados não refletem, necessariamente, a opinião da revista Interesse Nacional

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