11 junho 2024

Em livro, cientista narra jornada pelo Antropoceno com final otimista

Integrante do Centro de Pesquisa em Biodiversidade e Mudanças do Clima da Unesp, Mauro Galetti utiliza experiências adquiridas desde a graduação em biologia até os estudos mais recentes em ecologia para contar, em linguagem acessível, histórias que inspiram os leitores a lutar pelo planeta

Galetti, coordenador de Disseminação do CBioClima, na Mata de Santa Genebra (Foto: Daniel Antônio/Agência FAPESP)

Por André Julião – Agência Fapesp*

Mauro Galetti esteve com as tartarugas-gigantes de Galápagos, com os orangotangos de Bornéu, com as iguanas das Bahamas, os araçaris da Serra do Mar, mas se emociona mesmo quando vê bugios em um pedacinho de Mata Atlântica dentro da cidade de Campinas, a Mata de Santa Genebra.

Nesse fragmento de 252 hectares, distante cerca de sete quilômetros da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), iniciou sua jornada científica o hoje coordenador de Disseminação do Centro de Pesquisa em Biodiversidade e Mudanças do Clima (CBioClima) – um Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPID) da FAPESP instalado no Instituto de Biociências da Universidade Estadual Paulista (IB-Unesp), em Rio Claro (leia mais em: agencia.fapesp.br/51662/).

Não por acaso, a Mata de Santa Genebra é o ponto de partida de Um naturalista no antropoceno – um biólogo em busca do selvagem (Editora Unesp), livro escrito pelo professor da Unesp em que narra sua trajetória a partir dos diferentes lugares em que esteve como cientista.

“O começo do curso de graduação era muito teórico e eu tinha muita frustração de ficar dentro de sala de aula. Como aprender biologia entre quatro paredes? Foi aqui que isso mudou para mim. Procurando bugios e frutos, comecei a entender como a vida é estruturada”, conta o pesquisador à Agência Fapesp, sob a sombra de um jatobá (Hymenaea courbaril), na entrada de uma trilha da mata.

Foi a partir das observações e anotações que fazia aqui que ele publicou seu primeiro artigo científico, aos 19 anos, durante a graduação no Instituto de Biologia da Unicamp. Com tanto tempo andando por trilhas, recolhendo sementes, observando animais e tabulando as informações, criou um banco de dados até hoje usado por pesquisadores do mundo inteiro.


Galetti aos 19 anos, na Mata de Santa Genebra, com filhote de bugio no ombro. A dispersão de sementes por esses primatas foi tema de primeiro artigo científico do autor (Foto: arquivo pessoal)

“A Mata de Santa Genebra é, provavelmente, um dos remanescentes de Mata Atlântica mais estudados do mundo. Centenas de dissertações de mestrado e teses de doutorado foram feitas a partir de dados colhidos aqui”, conta.

A fluidez da linguagem do livro lembra a de outros cientistas-escritores, mais especificamente os norte-americanos Edward O. Wilson e Jared Diamond, inspirações declaradas de Galetti.

“Cresci na biologia lendo a obra desses autores e sentia falta de mais livros assim no Brasil. A minha é apenas uma história. Espero com esse livro criar não apenas leitores, mas outros autores”, diz.

“O Antropoceno é real”

Em março deste ano, pouco depois do lançamento do livro, o conceito de Antropoceno (do grego anthropos, que significa humano, e kainos, que significa novo) foi rejeitado pela Comissão Internacional de Estratigrafia, da União Internacional de Ciências Geológicas, como uma nova época geológica, que sucederia o Holoceno.

No entanto, mesmo geólogos e, principalmente, cientistas de outras áreas concordam que a ação humana posterior à Revolução Industrial provocou mudanças na Terra que serão evidentes mesmo num futuro distante. Como alguém que estuda perdas de espécies e as interações entre elas, Galetti não poderia pensar diferente.

“O Antropoceno existe, ele é real, é só olhar o que está acontecendo no planeta. A grande maioria dos cientistas entende que a nossa influência, principalmente as mudanças climáticas e as mudanças na biodiversidade, está transformando a Terra. Estamos causando a extinção de várias espécies, entrando numa sexta extinção em massa. Isso é irreversível. Estamos mudando o clima. Várias espécies mudaram sua evolução por causa dos seres humanos”, afirma.

No primeiro capítulo do livro, o autor lista e exemplifica as principais características de uma época geológica, agora criadas pela ação humana: o aparecimento de novos elementos químicos e moléculas (como os contidos em pesticidas), de novas rochas (concreto e rochas de plástico), novos fósseis (chicletes e garrafas PET), surgimento (animais e plantas domésticos) e extinção de espécies (pombo-passageiro, dodô, preguiça-gigante), além de mudanças no clima (que causam, entre outros problemas, mais eventos extremos, como as chuvas recentes no Rio Grande do Sul).


Galetti e uma tartaruga-de-galápagos, em uma das ilhas do lendário arquipélago visitado por Charles Darwin (Foto: arquivo pessoal) 

Marte não é uma opção

Mais do que reflexões sobre o passado e o futuro do planeta, porém, Um naturalista no Antropoceno é uma jornada pessoal e científica por florestas, cerrados e ilhas tropicais.

Nele, o leitor pode conhecer um paraíso chamado Saibadela, no Vale do Ribeira, em pleno Estado de São Paulo. Um local isolado e úmido, onde inúmeras espécies de aves se alimentam de centenas de frutos diferentes, com animais e plantas se reproduzindo num ciclo harmonioso difícil de ser encontrado na Mata Atlântica, que só tem 12% de sua cobertura original.

No passeio entre os capítulos, pode-se ainda visitar Bornéu, uma das ilhas da Indonésia em que podem ser encontrados os lendários orangotangos, mas também os calaus, javalis-barbados e ursos-do-sol, de quem Galetti teve de fugir uma vez enquanto realizava seus estudos de pós-doutorado.

“Bornéu e Galápagos, ambas ilhas visitadas por Alfred Russel Wallace e Charles Darwin, foram muito importantes para minha formação como naturalista” afirma Galetti.


Galetti com as iguanas-de-galápagos, endêmicas do arquipélago (Foto: arquivo pessoal)

Além dessas ilhas, os arquipélagos das Bahamas e Fernando de Noronha são outros pontos do globo visitados pelo autor. Com seus estudantes e parceiros, Galetti estudou como ratos e camundongos invasores estão alterando a dispersão de sementes, antes realizada por aves e répteis nativos.

As conclusões dessa jornada científica, que poderiam ser pessimistas, na verdade trazem um tanto de esperança. O que é uma boa notícia, uma vez que Galetti está no time dos que estão tentando realizar a mudança, estudando os efeitos e as possíveis soluções para os problemas gerados pelo homem no recém-criado CBioClima.

“O Centro de Pesquisa em Biodiversidade e Mudanças do Clima reúne pesquisadores e estudantes que, trabalhando nesses tópicos, perceberam ser necessário juntar esforços em um centro único com recursos, no caso, da FAPESP, para avançar em questões que individualmente não podemos responder. Unidos, podemos dar um salto no conhecimento científico e buscar soluções ambientais para o Brasil”, afirma.

Para o naturalista, ao mesmo tempo em que criou os problemas do Antropoceno, o homem tem a oportunidade de resolvê-los. “Alguns vão levar mais tempo, outros menos [para serem resolvidos], mas eu trago uma visão otimista. Acho que nunca na história da humanidade tanta gente se preocupou com o meio ambiente. É o que o professor Edward O. Wilson chama de biofilia. Nós precisamos de outros animais, outras plantas, outros organismos. Não dá pra viver sozinho, por isso que migrar pra Marte não é uma solução.”


* Colaborou Daniel Antônio.
 

Este texto é uma republicação da Agência FAPESP sob licença Creative Commons (CC-BY-NC-ND). Veja mais no site da Agência: https://agencia.fapesp.br/

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