27 março 2025

Inflação descontrolada é pior para a popularidade que uma recessão de curto prazo

Em busca de popularidade, governo Lula 3 amplia gastos e impulsiona o consumo, o que pode aumentar a inflação e piorar seus índices de aprovação. A esperança é que o governo compreenda que a inflação será seu maior inimigo e permita que o BC atue com independência para evitar um descontrole ainda maior

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante posse de Fernando Haddad como Ministro de Estado da Fazenda (Foto: Ricardo Stuckert/PR)

O resultado da inflação de fevereiro de 2025, de 1,31%, elevou a inflação acumulada em 12 meses para 5,06%, bem acima da meta do Banco Central (BC) de 4,5%. Isso reforça o grande desafio do governo Lula 3 em controlar a alta dos preços.

A pressão vem principalmente da expansão fiscal, mesmo com a economia operando no limite da sua capacidade. Outros fatores, como mudanças climáticas e o cenário internacional, também contribuem para o problema. Ainda assim, esperava-se um plano mais claro do governo para combater a inflação, o que não está acontecendo.

‘Não é surpreende que o governo Lula 3 tente repetir a fórmula de seus mandatos anteriores. Nos anos 2000, a popularidade petista se consolidou com o Bolsa Família, o Minha Casa Minha Vida e a ampliação do crédito para a população de baixa renda’

Não é surpreende que o governo Lula 3 tente repetir a fórmula de seus mandatos anteriores. Nos anos 2000, a popularidade petista se consolidou com o Bolsa Família, o Minha Casa Minha Vida e a ampliação do crédito para a população de baixa renda, que consumiu em larga escala. No entanto, essa mesma estratégia contribuiu para a maior recessão da história do Brasil sob a gestão de Dilma Rousseff, mas que afetou em muito pouco a imagem de Lula, que desassociou a imagem econômica de seu governo com a de sua predecessora.

Agora, a queda da aprovação do governo impulsiona uma nova onda de gastos. A inflação crescente, especialmente dos alimentos, e a falta de políticas que marquem a atual administração são apontadas como os principais motivos desse desgaste. Desde novembro, os indicadores inflacionários vêm subindo, reflexo da manutenção da expansão fiscal mesmo em pleno emprego e da utilização máxima da capacidade instalada do país. Não por acaso, as expectativas de inflação dispararam após o anúncio, em rede nacional, do pacote de cortes de gastos já enfraquecido por diversas áreas do governo, acompanhado de isenções fiscais, como a faixa de isenção do IR para rendas até R$ 5 mil.

‘Apesar da inflação alta, o governo anunciou uma série de medidas para ampliar benefícios sociais e impulsionar o consumo’

Assim, apesar da inflação alta, o governo anunciou uma série de medidas para ampliar benefícios sociais e impulsionar o consumo. No dia 11 de março o próprio presidente anunciou programa de expansão de crédito relacionado à carteira assinada que, segundo o anúncio, pode chegar a liberar R$ 120 bilhões em crédito para as famílias.

Há algumas semanas também foi anunciado que o programa Pé-de-Meia teve um aumento significativo, podendo chegar a R$ 9,2 mil por aluno, enquanto os remédios do Farmácia Popular tiveram seus preços zerados. Ao mesmo tempo, o ministro Fernando Haddad apresentou novos programas de expansão de crédito, incluindo a reformulação do Plano Safra e a liberação do FGTS para saque-aniversário.

‘O principal motor da inflação parece ser a expansão dos gastos públicos’

O principal motor da inflação parece ser a expansão dos gastos públicos. Aumento real do salário-mínimo, indexação de despesas em saúde e educação, ampliação de benefícios previdenciários e assistenciais – tudo isso impulsiona o consumo sem um correspondente aumento de produtividade. Além disso, o crédito para consumo e a expansão dos gastos das estatais elevam o PIB no curto prazo, mas pressionam ainda mais uma inflação no médio prazo que está em plena aceleração.

No cenário global, a situação também não favorece a política expansionista do governo. O aumento de tarifas nos EUA pressiona os preços globais, e as decisões de Donald Trump trazem novas barreiras comerciais para o Brasil, afetando setores estratégicos como o agronegócio e a indústria de transformação.

‘Uma recessão americana terá impactos no Brasil, que já apresenta índices de crescimento em queda’

As expectativas de inflação nos EUA vinham aumentando fortemente nos últimos meses, mas parecem ter retraído nas últimas observações. Porém, nem isso traz boas notícias ao futuro da aprovação do governo. Com expectativas de inflação nos EUA se arrefecendo, cria-se forte expectativa de recessão na maior economia do mundo. Uma recessão americana terá impactos no Brasil, que já apresenta índices de crescimento em queda, como crescimento do setor de serviços de janeiro, que teve queda de 0,2%. Este comportamento era esperado devido ao ajuste de juros do BC com o objetivo de frear a inflação. Neste cenário, o governo terá incentivo a gastar, vendo uma recessão se formando para o Brasil muito perto de uma disputa eleitoral.

Além dos fatores econômicos, o clima também preocupa. As ondas de calor neste início de ano reduzem o volume de chuvas no verão, período em que chuvas deveriam ser mais constantes. Este efeito é promovido pelo fenômeno La Niña, que está mais recorrente que no passado. O impacto, ainda não consolidado, pode comprometer a colheita de grãos mais tarde no ano, pressionando a inflação de alimentos, além de afetar a geração de energia, um risco adicional para a economia e para a inflação.

‘Se esse cenário persistir, a popularidade do governo pode cair ainda mais, pois a alta de preços anularia os ganhos das políticas expansionistas’

Diante disso, a inflação brasileira pode atingir faixa inicialmente indicada pelos maiores bancos do país, de 6%. Com expansão fiscal tão grande quanto o governo vem anunciando, será difícil segurar o valor nesse patamar, apesar da possibilidade de recessão que está no horizonte. Se esse cenário persistir, a popularidade do governo pode cair ainda mais, pois a alta de preços anularia os ganhos das políticas expansionistas.

Por outro lado, mesmo caso o BC consiga aumentar juros o suficiente para, no mínimo, estabilizar a inflação no patamar atual, a recessão gerada também fará a popularidade do governo cair. Este cenário gera um ciclo vicioso de mais gastos públicos para tentar conter o descontentamento da população, evitar uma recessão e perda de renda em período eleitoral. Por outro lado, mais gasto acelera a inflação e afeta o poder de compra da população.

Diante desse cenário, é importante saber como vai se comportar Gabriel Galípolo para equilibrar essa equação. O mercado já fala em juros à 18% para segurar uma inflação que volte para a meta em pouco mais de 1 ano. O presidente do BC terá que conter uma inflação impulsionada tanto por fatores internos quanto externos, ao mesmo tempo em que lida com a pressão política daqueles que o colocaram no cargo e querem desesperadamente gerar aumento de popularidade.

A esperança é que o governo compreenda que a inflação será seu maior inimigo e permita que o BC atue com independência para evitar um descontrole ainda maior. Enquanto isso, outras políticas podem feitas, mas evitar expansão fiscal será fundamental. Será que nosso governo conseguirá ler estes sinais?

Economista pela PUC-Rio e Mestre em Relações Internacionais e em Administração Pública pela Universidade Columbia, em Nova York. Atua nas áreas de resolução de conflitos,gestão de projetos de infraestrutura para PPPs, licitações e concessões, bem como em análise política, economia e dados, para os setores público e privado, no Brasil e no exterior.

Artigos e comentários de autores convidados não refletem, necessariamente, a opinião da revista Interesse Nacional

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Economia 🞌

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