23 fevereiro 2026

Lula na Ásia – A Índia, primeira parada

Apesar de laços históricos, os dois países ainda estão distantes em termos de política e economia, mas há espaço para fortalecimento das relações com a visita do presidente a Nova Delhi

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante reunião restrita com o primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, na Sala Nilgiri da Casa Hyderabad (Foto: Ricardo Stuckert / PR)

A convite do primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, o presidente Lula chegou no dia 19/02 a Nova Delhi numa viagem oficial de oito dias ao país. Esta foi a quarta vez que Lula e Modi se encontraram. Ele está acompanhado de uma estofada delegação que inclui, além de dez ministros de Estado e parlamentares, representantes de mais de trezentas empresas de diversos setores. Entre estes, saúde, tecnologia, alimentos, açúcar e álcool, farmacêutico, aeronáutico, mineração e maquinário. Mais de 300 empresas foram credenciadas para os encontros de negócios, segundo o Itamaraty.

‘No radar do governo, além das discussões políticas, consta a prospecção de novos mercados e acordos em setores estratégicos’

No radar do governo, além das discussões políticas, consta a prospecção de novos mercados e acordos em setores estratégicos, como minerais críticos, aviação e medicamentos. Outro ponto em foco são as parcerias digitais, sobretudo no setor da Inteligência Artificial (IA). O MRE informou que os dois países assinarão uma série de acordos em diversas áreas e firmarão parcerias e memorandos de entendimento sobre terras raras e minerais críticos.

A este respeito, como sabemos, o Brasil tem a segunda maior reserva de terras raras conhecida, e busca atrair parceiros globais para pesquisa, extração, processamento e refino dentro do País sem se amarrar a acordos de exclusividade.

A propósito, o governo vem sendo cortejado pelos Estados Unidos, que lançaram uma ofensiva diplomática no campo dos minerais críticos, capitaneada por Donald Trump, voltada para reduzir dependência e desafiar o domínio da China no setor. Como também sabemos, esta detém as maiores reservas conhecidas do planeta. A índia, de sua parte, necessita do produto para amparar o desenvolvimento do seu setor da tecnologia da informação, no qual mantém a liderança mundial. Lula participará ainda da inauguração do escritório da ApexBrasil na Índia.

‘Na agenda consta ainda uma cúpula informal com outros líderes sobre Inteligência Artificial, tema que vem catalisando cada vez as ações dos governos e da comunidade internacional’

Na agenda consta ainda uma cúpula informal com outros líderes sobre Inteligência Artificial, tema que vem catalisando cada vez as ações dos governos e da comunidade internacional. Pelo menos 17 chefes de Estado e de governo, entre eles os da França, Holanda e Espanha, confirmaram presença. Estarão também participando do fórum cerca de 20 líderes empresariais globais, entre eles CEOs de “big techs”, como Sam Altman, da Open AI, e Sundar Pichai, do Google. Lula deverá se reunir com alguns deles à margem do evento. Segundo o Itamaraty, “esta será a primeira vez que um presidente brasileiro participa de um evento global de alto nível sobre IA”.

O fórum é informal e não tomará deliberações compulsórias, senão discutirá aspectos diversos de grande importância para o desenvolvimento da tecnologia, com foco na sua democratização. Ao seu final será emitida uma declaração de princípios: segundo se espera, o documento lançará uma carta visando a difusão democrática da IA para as instituições científicas e um guia para o avanço de uma infraestrutura resiliente para a mesma.

Cabe agora analisar os aspectos políticos desta aproximação entre o Brasil e a Índia. Como sempre, recorramos à história.

‘Apesar da herança compartilhada dos portugueses, ao longo dos séculos as nossas relações foram distantes’

Apesar da herança compartilhada dos portugueses – a língua e o cristianismo, em Goa; o gado zebuíno e a manga, aqui, e a castanha de caju, na Índia – , ao longo dos séculos as nossas relações foram distantes: atados ao Ocidente, não nos demos conta da proximidade civilizacional da Índia, até que a globalização nos fizesse perceber as nossas coincidências.

Até na economia: ambos nos fechamos na política de reserva de mercado ao longo de décadas, nós brasileiros, na substituição das importações do “milagre” da década de 70, a Índia, paladina do Não-Alinhamento, buscando no mesmo período uma terceira via entre o capitalismo ocidental e o comunismo soviético, ótica que, então, os nossos militares no poder consideravam “subversiva”. Até que o Muro de Berlim desmoronou, nos redemocratizamos, e a globalização ganhou ímpeto.

Anteriormente, em 1968, Indira Gandhi, então primeira-ministra, tomara a iniciativa de realizar uma visita oficial ao Brasil, que retribuiríamos quase trinta anos após: coube a Fernando Henrique Cardoso tornar-se o primeiro Chefe de Estado brasileiro a visitar oficialmente o país, em 1996, para reciprocar a vinda da Indira.

‘Nosso relacionamento tem-se mantido, a bem da verdade, “morno”, malgrado as iniciativas de algumas das nossas empresas’

O nosso relacionamento tem-se mantido, a bem da verdade, “morno”, malgrado as iniciativas de algumas das nossas empresas, como a Marco Polo (carrocerias de ônibus) e a WEG, que se instalaram com grande êxito no país, e a crescente instalação de empresas indianas no Brasil, sobretudo no setor farmacêutico.

A Câmara de Comércio Brasil-Índia, em São Paulo, sob a empenhada liderança de Roberto Paranhos do Rio Branco, recentemente falecido, buscou de sua parte criar pontes entre os empresariados, mas o desconhecimento das nossas elites a respeito da Índia, e da Ásia, e o apego aos valores do Ocidente (?) têm dificultado que encontremos as similaridades e nos acerquemos. Permanece – e pesa muito – a fantasia da “Índia exótica e misteriosa”.

Isto não se justifica, pois ela é uma das economias que mais cresce no mundo, tendo passado a ocupar recentemente o 4ª lugar na classificação global, com um PIB nominal superior a 4 trilhões de dólares. Com um expressivo setor de serviços (cerca de 55-61% do PIB) e forte crescimento nos setores industrial e de tecnologia da informação/TI, o país vem superando metas e registrando altas acima de 7% ao ano. Calcula-se que até o final desta década – ou até antes – ela se torne a terceira maior economia do planeta, logo após os Estados Unidos e a China. Alguns analistas mais ousados consideram que até o final do século ela possa tornar-se a primeira, impulsionada por sua industrialização acelerada e mercado de trabalho cada vez maior (é o país mais populoso do planeta, sendo que a maioria da sua população tem menos de 25 anos !), coincidindo com o seu mercado interno.

Fantasia? Devaneio?

‘Neste universo pleno de oportunidades, o nosso intercâmbio comercial ainda é muito modesto frente ao direcionamento da globalização em direção ao continente asiático’

Neste universo pleno de oportunidades, o nosso intercâmbio comercial ainda é muito modesto frente ao direcionamento da globalização em direção ao continente asiático. Segundo o Itamaraty, “em 2025, a balança do comércio bilateral somou mais de US$ 15 bilhões, sendo US$ 6,9 bilhões relacionados às exportações brasileiras e US$ 8,3 bilhões às importações.

Atualmente, a Índia é o 10° destino das exportações do Brasil”, valor este que, aliás, está muito abaixo dos US$ 170 bilhões trocados anualmente com a China. A Índia tem focado suas exportações nos produtos farmacêuticos, químicos, e componentes de automotores, refletindo o seu crescente papel de supridora de itens de maior valor agregado.

As nossas exportações se concentram, por sua vez, nos produtos agropecuários. O momento internacional e os desafios da Índia para assegurar segurança alimentar para a sua população abrem, portanto, grande espaço para negócios…Porém, as grandes oportunidades residem no campo da tecnologia da informação.

O que estamos esperando? Eu tive o privilégio de viver na Índia em duas etapas da minha carreira, e desde então jamais a abandonei: ela é a minha “matrika” (mãe, em sânscrito). Sou testemunha do quanto, guardadas as diferenças civilizacionais, nos assemelhamos – sim!! – em termos de percepção de mundo. Verdade!!!! Espero, portanto, que este seja o início de um real intercâmbio entre nós. Ou, uma vez mais teremos perdido mais uma “janela de oportunidades” que a globalização das economias e dos povos nos está oferecendo!

Fausto Godoy é colunista da Interesse Nacional. Bacharel em direito, doutor em direito internacional público pela Universidade de Paris (I) e diplomata, serviu nas embaixadas do Brasil em Bruxelas, Buenos Aires e Washington. Concentrou sua carreira na Ásia, onde serviu em onze países. Foi embaixador do Brasil no Paquistão e Afeganistão (2004/2007) e Cônsul-Geral em Mumbai (2009/10). É coordenador do “Centro de Estudos das Civilizações da Ásia” da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) e curador da Ala Asiática do MON.

Artigos e comentários de autores convidados não refletem, necessariamente, a opinião da revista Interesse Nacional

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