O acordo de livre comércio entre a Índia e a União Europeia
A Índia e a União Europeia oficializaram, no último dia 27/01, a conclusão do acordo de livre comércio que vinha sendo negociado entre ambos há cerca de duas décadas. Considerado histórico, o pacto foi anunciado por Bruxelas como o maior já concluído por qualquer um dos lados. Ele soma cerca de US$ 23,4 trilhões em […]

A Índia e a União Europeia oficializaram, no último dia 27/01, a conclusão do acordo de livre comércio que vinha sendo negociado entre ambos há cerca de duas décadas.
Considerado histórico, o pacto foi anunciado por Bruxelas como o maior já concluído por qualquer um dos lados. Ele soma cerca de US$ 23,4 trilhões em termos de produto interno bruto e envolve um mercado de 1,9 bilhão de habitantes.
Por ele serão reduzidas as tarifas sobre 96,6% das exportações da UE para a Índia, abatendo-se os custos de mercadorias como carros, álcool e maquinário, por exemplo. Entretanto, alguns setores agrícolas sensíveis para ambos os lados, como laticínios, açúcar e algumas carnes, permaneceram intocados.
“Concluímos o acordo de todos os acordos”, afirmou nas redes sociais a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, que esteve em Nova Deli para a assinatura do documento com o presidente do Conselho Europeu, António Costa, e o primeiro-ministro indiano, Narendra Modi. Assim como o Acordo EU/Mercosul, o tratado deverá ser submetido ao Parlamento europeu, em Bruxelas, da mesma forma que ao parlamento indiano.
‘Juntamente com o acordo da União Europeia-Mercosul, o ímpeto atual dos europeus evidencia o esforço da UE em romper com a obstinada intransigência de alguns de seus agentes econômicos nacionais em ceder espaço nesse campo’
Juntamente com o acordo da União Europeia-Mercosul, concluído quase que simultaneamente – e igualmente após mais de 20 anos de negociações -, o ímpeto atual dos europeus evidencia o esforço da UE em romper com a obstinada intransigência de alguns de seus agentes econômicos nacionais, sobretudo franceses – e do setor agrícola, principalmente -, em ceder espaço nesse campo, engessados diante de uma competição acirrada com os sul-americanos (leia-se Brasil), enquanto permanecem num arcabouço de produção que está-se provando obsoleto.
Tal diagnóstico está-se consolidando sobretudo diante das políticas entrópicas do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que com medidas tarifárias agressivas persegue com obstinação o seu plano de “Make America Great Again”; mas está, de fato, isolando cada vez mais o seu país e criando contundências pelo planeta afora.
Sinais disto são fenômenos isolados, mas que considerados em conjunto, como a corrida que está ocorrendo ao ouro, que abordei numa postagem anterior, levantam suspeitas sobre a prevalência do padrão dólar; em última análise sobre o domínio absoluto da economia americana no contexto mundial.
A realização de negociações entre vários atores planetários fora do padrão dólar reflete o rearranjo das parcerias globais sob Trump. A UE, após ter-se chocado por muito tempo com a Índia sobre políticas comerciais, ora busca reduzir por esta parceria sua dependência econômica dos EUA e da China. Já a Índia tenta se desvencilhar de sua reputação protecionista e compensar a tarifa de 50% imposta por Trump para as suas exportações para o mercado americano.
‘O acordo com a Índia corre o risco de reduzir o sentido de urgência política em concluir o com os sul-americanos’
No caso dos dois acordos (UE-Índia e UE-Mercosul), alguns analistas insistem em que, embora os produtos negociados com a Índia sejam distintos daqueles em discussão com o Mercosul, o acordo com a Índia corre o risco de reduzir o sentido de urgência política em concluir o com os sul-americanos.
Por exemplo, os europeus não tiveram problema em concordar ou flexibilizar questões ambientais para assinar o documento com os indianos. Isto demonstra que a questão com o Mercosul não é meramente ambiental: é sobre a competitividade da agricultura brasileira. Isto desnuda a hipocrisia das “dificuldades” do acordo UE/Mercosul. “It´s the economy, stupid”.
Cabe ainda relembrar que a União Europeia é o maior parceiro comercial da Índia, representando €120 bilhões em comércio de bens, em 2024, ou seja, 11,5% do comércio total do país. Esta, por sua vez, é o 9º maior parceiro da UE, representando 2,4% do seu comércio total de bens, em 2024. O comércio de serviços bilateral atingiu € 59,7 bilhões em 2023, um aumento em relação aos € 30,4 bilhões em 2020.
‘Não nos esqueçamos de que o mercado indiano, com 1,45 bilhão de habitantes, abre espaços privilegiados de consumo para as exportações dos europeus’
Não nos esqueçamos de que o mercado indiano, com 1,45 bilhão de habitantes, abre espaços privilegiados de consumo para as exportações dos europeus. Além do mais, em termos de poderio econômico, a previsão é que a Índia, que já ocupa a quarto lugar em termos de Produto Interno Bruto mundial, juntamente com o Japão, supere a Alemanha até 2032, e se torne a terceira maior economia do planeta.
Como vemos, o mundo está mudando. Isto nos leva a uma conclusão ainda mais instigante: a de que no final deste século, dentre as cinco maiores economias do planeta, quatro estarão na Ásia: a China (2ª ou 1ª), a Índia (3ª); o Japão (4ª). Deste lado do planeta, apenas os Estados Unidos!
E fica a pergunta que não quer se calar. Até quando nós, brasileiros, ficaremos atados a um mundo moribundo em vez de nos lançarmos na “aventura asiática”, que parece inescapável? Meus 16 anos de vivência em onze países da região já me convenceram há muito tempo. Os europeus aparentemente já acordaram. E nós?
Fausto Godoy é colunista da Interesse Nacional. Bacharel em direito, doutor em direito internacional público pela Universidade de Paris (I) e diplomata, serviu nas embaixadas do Brasil em Bruxelas, Buenos Aires e Washington. Concentrou sua carreira na Ásia, onde serviu em onze países. Foi embaixador do Brasil no Paquistão e Afeganistão (2004/2007) e Cônsul-Geral em Mumbai (2009/10). É coordenador do “Centro de Estudos das Civilizações da Ásia” da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) e curador da Ala Asiática do MON.
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