01 abril 2026

Por que o Brics ainda não se manifestou sobre a guerra contra o Irã?

Semanas após o Irã ser atacado numa clara violação do direito internacional, o BRICS permanece em silêncio. Essa falta de posicionamento enquanto grupo é ainda mais significativa pelo Irã ser Estado-membro do Brics desde 2023. No ano passado, durante a Guerra dos Doze Dias, o grupo emitiu uma declaração em que criticava os ataques de […]

Ministro das Relações Exteriores da República Islâmica do Irã, Seyed Abbas Araghchi e o Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante a Cerimônia oficial de chegada dos Chefes de Estado e de Governo, no Museu de Arte Moderna (MAM). Rio de Janeiro – RJ. Foto: Ricardo Stuckert / PR

Semanas após o Irã ser atacado numa clara violação do direito internacional, o BRICS permanece em silêncio. Essa falta de posicionamento enquanto grupo é ainda mais significativa pelo Irã ser Estado-membro do Brics desde 2023.

No ano passado, durante a Guerra dos Doze Dias, o grupo emitiu uma declaração em que criticava os ataques de Israel e dos EUA contra o território iraniano. Em suas reuniões de cúpula, o BRICS sempre declarou apoio ao direito internacional, defendendo que intervenções estrangeiras devem estar sob autorização do Conselho de Segurança da ONU.

Como explicar, então, que um grupo que defende o direito internacional e surgiu para restringir a hegemonia norte-americana ainda não tenha emitido uma declaração conjunta sobre os ataques sofridos pelo Irã, membro desta organização? A resposta a essa pergunta passa por compreender como o BRICS funciona e seu processo de expansão.

O Brics funciona por consenso. Sem aprovação de todos os seus Estados-membros, o bloco não se posiciona. Conversações lideradas pela Índia, detentora da presidência do grupo, estão sendo realizadas na busca por uma declaração conjunta sobre os ataques sofridos pelo Irã.

Relação direta de alguns membros com o conflito

O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores indiano, Randhir Jaiswal, afirmou recentemente que seu país está tentando obter essa declaração, mas tem encontrado dificuldade devido à relação direta que alguns membros do BRICS têm com o conflito. Essa relação passa diretamente pelo processo de expansão do grupo.

Em 2023, o BRICS anunciou um processo de expansão com o ingresso de novos membros, incluindo o Irã, os Emirados Árabes Unidos (EAU) e a Arábia Saudita. Esse processo de expansão não foi consensual no grupo. Por anos, a China tentou aumentar o número de Estados-membros, mas enfrentou resistência principalmente do Brasil e da Índia. Os dois países temiam perder influência no grupo e, principalmente, que se tornaria mais difícil obter consenso sobre questões que consideram cruciais, tais como a reforma no Conselho de Segurança da ONU.

Após anos de negociações, em 2023, a Índia cedeu e passou a aceitar a expansão. O Brasil seguiu a maioria. Se o BRICS já tinha rivalidades internas (Índia e China têm conflitos territoriais na região dos Himalaias), os países escolhidos para integrar o grupo aumentaram ainda mais o número de rivalidades entre os membros.

Irã, EAU e Arábia Saudita têm históricos conflitos que remetem não apenas à distinção entre sunitas (Arábia Saudita e EAU) e xiitas (Irã), mas também às disputas por liderança regional. No Iêmen, por exemplo, o Irã apoia os Houtis, enquanto os sauditas apoiaram grupos ligados ao antigo governo de Abedrabbo Mansour Hadi, expulso de Sanaa em 2015.

No ano passado, o Irã foi atacado por Israel e pelos Estados Unidos, sem retaliar contra os seus vizinhos, o que permitiu a declaração do BRICS criticando os ataques ocidentais. Desta vez, a retaliação iraniana atingiu o território dos EAU e da Arábia Saudita.

Enquanto a Arábia Saudita ainda não formalizou a adesão ao bloco e, por isso, é considerada um “país membro convidado”, os EAU são membros plenos do grupo, assim como o Irã. Por funcionar por consenso, para haver uma declaração conjunta do grupo, é preciso encontrar um texto com o qual o Irã e os EAU concordem, o que não será fácil. Caso contrário, o silêncio perdurará.

Crescente proximidade da Índia com Israel

Se já não bastasse a dificuldade de encontrar convergências entre os seus membros muçulmanos, o BRICS também enfrenta outra dificuldade: a crescente proximidade da Índia com Israel. Por décadas, nenhum primeiro-ministro indiano visitou Israel. Desde Jawaharlal Nehru, primeiro primeiro-ministro do país, a Índia era uma forte defensora da causa palestina. O país votou contra a partilha da Palestina na ONU em 1947 e só normalizando suas relações com Israel nos anos 90.

Isso tem mudado desde que Narendra Modi assumiu o poder em 2014. O atual primeiro-ministro indiano, o primeiro a visitar Israel em 2017, defende uma ideologia hindu nacionalista que o aproxima da extrema-direita israelita. Ideologicamente próximo de Benjamin Netanyahu, Modi visitou Israel nos dias 25 e 26 de fevereiro, pouco antes dos ataques ao Irã. Nesta visita, ao mencionar os ataques de 7 de outubro, afirmou: “A Índia está ao lado de Israel, firmemente, com plena convicção, neste momento e além.”

Por presidir o BRICS em 2026, cabe à Índia buscar uma posição conjunta do grupo. Devido à aproximação com Israel, dificilmente Modi medirá grandes esforços para obter uma declaração conjunta muito crítica a Israel e aos EUA. Da mesma forma, o Irã e seus aliados no bloco, como a Rússia, dificilmente aceitarão uma declaração que critique a retaliação iraniana.

Por isso, o BRICS tem hoje um impasse: o processo de expansão dificultou o alcance de consensos, como o Brasil temia, e o governo indiano é cada vez mais um ator desalinhado em relação a algumas posições dos demais membros do BRICS. Porém, sendo difícil encontrar consensos, o bloco se arrisca a deixar de se posicionar sobre temas fraturantes. Sem posicionamentos políticos, o risco do BRICS perder relevância internacional é real.


Luis Gouveia Junior, PhD Candidate in International Relations, Universidade de Coimbra

This article is republished from The Conversation under a Creative Commons license. Read the original article.

Artigos e comentários de autores convidados não refletem, necessariamente, a opinião da revista Interesse Nacional

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