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29 outubro 2026

Se o primeiro turno foi marcado pelo ressentimento, no segundo foi o medo

O susto, seguido do medo da vitória da extrema direita, produziu uma mudança de atitude: um movimento espontâneo nas ruas, que começou com os estudantes da UFF no Rio de Janeiro, e se alastrou pelas cidades grandes e médias do país. Medo que foi crescendo à medida que Flávio Bolsonaro ia se mostrando cada vez mais parecido com o pai, Jair Bolsonaro.

Presidente Lula encerra campanha das Eleições 2026 com caminhada na avenida Paulista. Foto: Paulo Pinto/Agencia Brasil

No primeiro turno das eleições de 2026, dominou o voto do ressentimento. A frustração dos deslocados de seus postos de trabalho pela automação e dos trabalhadores por conta própria, equivocadamente chamados de “empreendedores”, levou ao voto de oposição. Esse contingente preferiu a extrema-direita de Flávio Bolsonaro (PL).

Mas, no segundo turno, a motivação mudou de lado, do ressentimento para o medo do retorno do bolsonarismo ao poder. Lula foi reeleito em um segundo turno que não se podia prever a partir da fria campanha do primeiro turno e da vantagem de 2,2 milhões de votos de Flávio Bolsonaro.

Então, o que mudou?

Mudou que a campanha eleitoral de Lula foi para as ruas, de onde esteve praticamente ausente no primeiro turno. E foi para as redes, onde a presença de Lula não passava de uma transcrição do analógico para o digital.

Outro fator relevante foi o medo trazido pela vantagem de Flávio Bolsonaro no primeiro turno. Havia uma convicção, não apenas de Lula e de sua equipe de campanha, mas da sociedade democrática em geral, de que o presidente seria facilmente reeleito.

O susto, seguido do medo da vitória da extrema direita, produziu uma mudança de atitude: um movimento espontâneo nas ruas, que começou com os estudantes da UFF no Rio de Janeiro, e se alastrou pelas cidades grandes e médias do país. Medo que foi crescendo à medida que Flávio Bolsonaro ia se mostrando cada vez mais parecido com o pai, Jair Bolsonaro.

O mapa da virada

Nas 27 capitais estaduais e 162 maiores cidades do país, com quase 75 milhões de eleitores – perto de 47% do total -, o crescimento da votação de Lula foi decisivo, aponta levantamento feito pelo site Dado Bruto. Ele venceu em 13 das capitais, inclusive São Paulo e Rio de Janeiro. Perdeu em Belo Horizonte, embora tenha vencido no estado de Minas Gerais. Só nessas capitais Lula ganhou mais 2,2 milhões de votos no segundo turno, compensando a vantagem de Flávio Bolsonaro no primeiro turno.

Já no conjunto de 189 grandes cidades, Lula avançou quase 3,5 pontos percentuais. Com esses votos, ele teve ganhos em todos os estados. Virou a derrota do primeiro turno em Minas Gerais, com mais 3 pontos percentuais. O Brasil urbano deu a vitória a Lula. Venceu em 12 estados no primeiro turno, e em 13 no segundo.

Dou o exemplo de Osasco, no estado de São Paulo, cujo PIB é basicamente formado por serviços urbanos, nos setores financeiro, tecnológico, de logística e de comércio eletrônico. É uma cidade de quase 729 mil habitantes, com um PIB per capita de R$ 164 mil. Flávio Bolsonaro ganhou o primeiro turno em Osasco com 191,7 mil votos, contra 182,7 mil de Lula. No segundo turno, Lula virou, ganhando por 234,3 mil a 213,2 mil votos.

Em muitas dessas grandes cidades os eleitores foram às ruas para apoiar Lula. Nas redes sociais, a capilaridade da conta de WhatsApp “Exército do Lula”, com mais de 10 milhões de usuários e administrada por André Janones, certamente teve efeito positivo relevante na produção de mais votos para o presidente. A interação rede/rua teve papel decisivo, se não determinante, na reeleição de Lula.

Clivagem urbano/rural ressuscitada

Nos polos do agronegócio, Flávio Bolsonaro ganhou por mais de 70% dos votos no segundo turno. Um município muito representativo disso é Sinop, no Mato Grosso, onde ele ganhou o primeiro turno com uma contagem de 73,7 mil votos contra 17,5 mil de Lula. No segundo turno, o presidente conseguiu mais 4,7 mil votos em Sinop, enquanto o candidato do PL somou outros 3,8 mil, fazendo pouca diferença no final: 77,5 mil a 22,2 mil votos, com vitória de Flávio Bolsonaro atingindo 77,7% dos votos.

O crescimento do agronegócio exportador, particularmente nas regiões Centro-Oeste e Norte, mas também na Região Sul e no centro-norte e noroeste de Minas Gerais, ressuscitou a clivagem urbano/rural. Essa clivagem marcou as mais sérias contrariedades político-eleitorais na Segunda República, de 1945-1964. Nesse período, as difíceis relações entre o Executivo, eleito pelo Brasil urbano, e o Legislativo, em sua maioria eleito pelo Brasil rural, produziram a paralisia legislativa que contribuiu para a ruptura institucional do golpe militar.

Agora, embora sejam tempos de um rural “tecnológico”, essa apartação assume a forma radicalizada da polarização, desestabilizadora e que ameaça a governabilidade do país. Ela cria uma pulsão autoritária que se materializou no governo de Jair Bolsonaro, condenado por tentativa de golpe e cumprindo pena.

O julgamento dos golpistas não dissipou nem a polarização radicalizada, nem a pulsão autoritária. Esta ressurgiu com nitidez na recusa de Flávio Bolsonaro em aceitar o resultado limpo e democrático após a derrota nas urnas.

A queda na alienação eleitoral

E foi exatamente essa compulsão golpista que permitiu a mobilização do segundo turno, numa interação bem evidente entre as redes e as ruas. A queda da alienação eleitoral, retornando ao voto válido 4,8 milhões de eleitores, expressa bem essa reação de medo de retorno do golpismo bolsonarista. Perto de 2,9 milhões de eleitores a mais compareceram às urnas. Os votos nulos caíram de 3,7 milhões para 2,7 milhões, e os brancos de 2,3 milhões para 1,4 milhão. Uma queda de 3 pontos percentuais da alienação eleitoral.

Um quarto mandato diferente

Este é um ponto importante quando vemos a composição do Congresso eleito. A maioria dos congressistas eleitos no primeiro turno estava do lado de Flávio Bolsonaro. Com isso, a partir de 2027 a margem de manobra do presidente Lula no Congresso será mais estreita.

Embora tanto na Câmara quanto no Senado seja possível formar uma coalizão majoritária, ela terá maior peso da centro-direita e da direita. Os parlamentares do Centrão são adesistas por definição. Na Câmara, essa força de direita mais o Centrão teria em torno de 66% dos votos da coalizão e, no Senado, 56%.

Isso mudaria significativamente a configuração do quarto governo Lula, apoiado em uma grande coalizão democrática, mas não progressista. Lula pretende incorporar à sua caixa de ferramentas a mobilização digital a partir da experiência do “Exército do Lula”, criado pelo deputado reeleito André Janones. O objetivo seria elevar a aprovação de Lula na sociedade, a partir da qual ele teria maior capacidade de negociação e pressão no Legislativo. No entanto, de qualquer forma o presidente terá de abrir mais seu governo e estar mais disponível a esses parlamentares estranhos a seu meio político-partidário.

Esse quarto mandato marca o fim do ciclo Lula. Após esse ciclo, a política brasileira terá que mudar, renovar lideranças e levar em consideração a emergente geração de políticos digitais. O final desse ciclo corresponde, também, à saída de cena da geração da resistência à ditadura, da qual tivemos três presidentes: Fernando Henrique Cardoso, Lula e Dilma Rousseff. A sucessão geracional é inescapável. A nova geração terá maior sintonia com a sociedade digital.


Sergio Abranches, Ex-professor titular do IUPERJ/Uerj e ex-professor visitante no Departamento de Economia e Administração (FEA), Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)

This article is republished from The Conversation under a Creative Commons license. Read the original article.

Cientista político, é fundador e diretor de O Eco, um site de jornalismo ligado no meio ambiente

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