Vitória de Lula é respiro democrático para o Brasil, a América Latina e o mundo
A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva nas eleições de 2026 representará um alívio democrático, mas não encerrará o ciclo que levou a extrema direita ao centro do poder. O resultado preservará condições institucionais para reconstruir a democracia. Não eliminará, porém, a força da direita no Congresso, suas redes de mobilização ou sua capacidade […]

A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva nas eleições de 2026 representará um alívio democrático, mas não encerrará o ciclo que levou a extrema direita ao centro do poder.
O resultado preservará condições institucionais para reconstruir a democracia. Não eliminará, porém, a força da direita no Congresso, suas redes de mobilização ou sua capacidade de disputar ideias nas plataformas digitais.
O desafio será transformar a vitória em mudanças concretas. Lula terá de governar uma sociedade polarizada e negociar com um Congresso de forte presença conservadora. E a possível saída do presidente da vida pública traz outra pergunta: a esquerda conseguirá construir um projeto para além de sua principal liderança?
Um contraponto à expansão da extrema direita
A eleição de Lula representa um contraponto político à expansão da extrema direita, por sua trajetória vinculada à inclusão social e pela defesa do pluralismo e das instituições democráticas.
Num cenário de articulação entre organizações ideológicas, financiamento privado, mobilização religiosa e redes transnacionais, Lula ocupa lugar central na disputa entre projetos de sociedade.
O relatório The Next Wave: How Religious Extremism Is Regaining Power, publicado pelo European Parliamentary Forum for Sexual and Reproductive Rights, em 2026, documenta a ampliação da influência política de movimentos religiosos extremistas e forças populistas de direita na Europa.
O contraponto representado por Lula, contudo, não se limita à polarização eleitoral. Cabe ao governo traduzir essa posição em políticas que combatam a fome e as desigualdades, ampliem direitos e protejam as minorias. E isso inclui defender a laicidade do Estado contra privilégios econômicos ou convicções religiosas particulares.
Como argumenta Marilena Chauí, a oposição entre privilégio e direito constitui uma chave para compreender os obstáculos históricos à democracia brasileira. A capacidade de Lula de ampliar a cidadania e democratizar o acesso às decisões públicas será decisiva para dar consistência a esse contraponto, o que dependerá também da articulação com o Congresso e do fortalecimento da sociedade civil.
O que Lula 4.0 pretende fazer?
O programa de governo registrado por Lula no Tribunal Superior Eleitoral combina valorização do trabalho, inclusão social, desenvolvimento e sustentabilidade.
Entre as propostas estão a redução da jornada semanal para 40 horas sem corte de salário, a valorização do salário mínimo, a ampliação de programas sociais e habitacionais e o fortalecimento dos serviços públicos. Há também investimentos em infraestrutura, reindustrialização e transição energética.
Essa tenta associar crescimento e proteção social. Resta a questão: como conciliar limites orçamentários com expectativas de melhoria de vida? A resposta dependerá do desempenho da economia, das escolhas fiscais e de acordos políticos.
Na segurança pública, a coordenação federal e o combate ao crime organizado exigirão cooperação com estados e municípios, além de respeito aos direitos fundamentais.
No meio ambiente, será preciso conciliar o combate ao desmatamento com interesses econômicos que frequentemente entram em conflito.
A questão, portanto, não é só o que o governo promete, mas o que conseguirá executar. Propostas dependem de orçamento e, às vezes, do Congresso; numa correlação de forças desfavorável, podem ser modificadas, adiadas ou bloqueadas.
Resultados em emprego, renda, saúde e educação pesarão na relação do governo com a população; falhas de implementação darão à oposição novas oportunidades.
Dois projetos de sociedade
As propostas de Lula expressam uma disputa mais ampla sobre o papel do Estado, a distribuição de recursos e os direitos sociais. A polarização brasileira não se resume à competição entre lideranças: envolve concepções distintas de como organizar a sociedade.
O projeto de Lula atribui ao Estado papel central na redução das desigualdades e na ampliação de direitos. Em setores da direita, ganha força a ênfase na liberdade econômica, na responsabilidade individual, na autoridade e nos valores tradicionais.
Nas vertentes mais radicalizadas, esse repertório se associa à desconfiança das instituições e à contestação de direitos de minorias. Nenhum dos campos é homogêneo. E há eleitores que combinam posições que não se encaixam perfeitamente em nenhum deles.
Essas disputas também se desenvolvem nos ambientes digitais, onde ideias sobre liberdade, segurança, família e direitos circulam e alcançam públicos distintos. É nesse espaço que o poder das grandes empresas de tecnologia se tornou uma questão política central.
A religião participa dessa disputa quando lideranças mobilizam interpretações morais para influenciar a agenda pública, como mostra a atuação da Frente Parlamentar Evangélica.
O desafio democrático é assegurar a participação de diferentes convicções sem que uma delas se imponha como medida dos direitos de todos. A laicidade não exige excluir a religião do debate público, mas preservar a igualdade de direitos numa sociedade plural.
A discussão sobre a mão invisível das big techs aponta para a influência dessas empresas sobre a circulação de informações e o debate público. O desafio será ampliar a transparência e a responsabilização dessas empresas sem transformar a regulação em instrumento de censura ou controle político.
O fim de um ciclo?
A eleição de Lula para o quarto mandato abrirá a oportunidade de reconstruir políticas públicas, recompor a confiança nas instituições e dar continuidade à redução das desigualdades. Mas a resposta democrática não pode se limitar a restaurar o que existia antes. Será preciso entender por que a extrema direita transformou insatisfações sociais em força política duradoura.
Como sociólogo, considero importante evitar o triunfalismo e o fatalismo.
A derrota eleitoral da extrema direita não autoriza anunciar o fim do bolsonarismo, assim como seu crescimento não condena a democracia. O poder não depende só de quem governa, mas da distribuição desigual de recursos e das disputas pela definição legítima da realidade. A eleição altera uma dimensão dessas relações, mas não muda automaticamente suas bases sociais.
Há ainda a questão da sucessão. Lula não é apenas um presidente: sua trajetória está ligada a uma identidade política e a uma base social. O campo progressista precisará renovar lideranças e reconstruir vínculos sociais. A direita, por sua vez, continuará disputando o significado da democracia e dos valores que devem orientar a vida coletiva.
O Brasil democrático respira, mas não pode confundir alívio com solução. O ciclo de Lula pode acabar sem que termine a polarização que marcou sua trajetória.
A eleição decidiu quem governa; não decidiu quem herdará o seu legado nem qual projeto de sociedade prevalecerá. Essa disputa continua aberta.
Péricles Andrade, Professor Titular do Departamento de Ciências Sociais e docente permanente dos Programas de Pós-Graduação em Ciências da Religião e em Sociologia., Universidade Federal de Sergipe
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