Número 72

Ano 19 / jan - mar 2026

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É professor associado de Ciência Política no Berea College, em Kentucky. É Ph.D. em Relações Internacionais pela Old Dominion University, onde foi bolsista Fulbright, e pesquisador visitante na Georgetown University. É autor de livros como Brazil, the United States, and the South American Subsystem (2012) COP30 demonstrou que a ação climática pode ir além dos textos negociados

Quem vai colar os caquinhos do velho mundo?


Carlos Gustavo Poggio é professor associado de Ciência Política no Berea College, em Kentucky. É Ph.D. em Relações Internacionais pela Old Dominion University, onde foi bolsista Fulbright, e pesquisador visitante na Georgetown University. É autor de livros como Brazil, the United States, and the South American Subsystem (2012)

A cantora Marina Lima pergunta em uma música – lançada na efervescência política dos anos 80, mas que parece ter sido escrita para este momento – “quem vai colar os tais caquinhos do velho mundo?”. A imagem é poderosa. Um vaso uma vez quebrado pode ser colado, mas nunca volta a ser o mesmo. As rachaduras permanecem visíveis, a estrutura perde sua firmeza e algo essencial – a confiança na integridade do objeto – se desfaz. O vaso das relações internacionais, meticulosamente moldado após 1945 e consolidado pelo consenso neoliberal pós-Guerra Fria, não apenas rachou, mas se estilhaçou sob o peso disruptivo da administração de Donald Trump nos Estados Unidos. A questão central, que define o futuro da política global, não é se qualquer outro presidente mais “razoável” ou “normal” pode reverter os danos de um ciclo político, mas se a confiança dos aliados nos EUA, o cimento invisível que unia o vaso da ordem ocidental, não foi permanentemente erodida.

A eleição de Trump, em 2016, não apenas abalou uma tradição política americana; ela expôs fragilidades de um sistema que se acreditava consolidado e revelou que as forças subterrâneas da política – o nacionalismo, o protecionismo, o ceticismo em relação às instituições multilaterais – estavam vivas e prontas para emergir. O ano de 2024 deixou claro que o trumpismo não foi um acidente histórico, mas o sintoma de transformações profundas e, talvez, irreversíveis. Mesmo que outro presidente tente colar os cacos, o vaso da ordem liberal já não tem como recuperar sua forma original.

A principal ruptura não foi apenas ideológica, mas simbólica. Durante décadas, os Estados Unidos foram vistos pelos seus aliados como o pilar de estabilidade e previsibilidade. Podia-se discordar das políticas americanas, podia-se levantar eventuais acusações de hipocrisia, porém havia um certo consenso sobre a continuidade e o compromisso com a liderança global. Essa confiança foi abalada de forma irreversível e não irá retornar com uma mera troca de inquilino na Casa Branca. Os parceiros de Washington testemunharam, em tempo real, um desprezo explícito por alianças históricas, um questionamento contínuo dos princípios de defesa mútua, como o emblemático Artigo 5 da OTAN, reduzido a uma transação a ser paga e a um uso instrumental das relações bilaterais, transformadas em meras negociações comerciais subordinadas ao mantra “America First”. Essa lição, aprendida em Tóquio, Berlim e até mesmo nas capitais sul-americanas, é inequívoca: os EUA não são mais o fiador absoluto e desinteressado da ordem global. A palavra da Casa Branca revelou-se condicional, volátil e dependente da paixão momentânea de um líder e de suas necessidades eleitorais. É uma mudança que enterra a política externa da estabilidade pela política externa da incerteza.

A Europa, o Japão e mesmo aliados regionais, como a Coreia do Sul e a Austrália, perceberam que o compromisso americano com a ordem liberal não é estrutural, mas contingente, dependente do humor do eleitorado e das dinâmicas internas do país. E uma vez quebrada a confiança, nenhum discurso diplomático é suficiente para restaurá-la. O mundo aprendeu que os Estados Unidos podem, sim, escolher um presidente que despreza alianças, desafia instituições e enxerga parceiros históricos como fardos. Essa percepção muda tudo.

A retórica de “América primeiro”

Trump obviamente não inventou o nacionalismo econômico, nem o isolacionismo. Pat Buchanan, na década de 1990, já defendia ideias semelhantes: fronteiras fechadas, protecionismo, hostilidade às instituições multilaterais e uma retórica de “América primeiro”. Mas Buchanan era uma figura periférica, confinada à margem do Partido Republicano. Faltava-lhe tração política. Trump, por outro lado, conseguiu transformar essas ideias em um movimento de massas, impulsionado pelas redes sociais e pela crise de representatividade que corroía as democracias ocidentais. O que era marginal tornou-se mainstream.

O trumpismo, mais do que um fenômeno eleitoral, é uma mutação cultural. Ele deslocou o centro do debate político americano, e, por extensão, global. O liberalismo cosmopolita, que por décadas orientou tanto democratas quanto republicanos, perdeu o monopólio da legitimidade. Falar em “muro”, “tarifas”, “soberania nacional” ou “reindustrialização” deixou de ser tabu. Essas ideias agora fazem parte do vocabulário comum de qualquer campanha. Mesmo quem se opõe a Trump precisa, de alguma forma, responder ao universo simbólico que ele criou.

Curiosamente, estamos testemunhando um processo de latino-americanização da política dos Estados Unidos. O que antes era visto como um fenômeno distante, como o populismo personalista, a política midiatizada e o uso do Estado como extensão do partido agora é realidade em Washington. Trump transformou a comunicação presidencial em espetáculo, fundindo o espaço público e o privado, o institucional e o partidário. A Casa Branca virou palanque, o Twitter virou diário oficial. O estilo, antes considerado “antiamericano”, agora é parte do repertório político doméstico. A imagem dos Estados Unidos como nação “séria”, racional, institucional e previsível, se perdeu. O espetáculo da política invadiu o espaço da diplomacia. Presidentes tuitando contra aliados, negociando por rede social, anunciando sanções e rompimentos por impulso, tudo isso corroeu a percepção externa de que os Estados Unidos são um ator racional. Em termos weberianos, houve um deslocamento da racionalidade instrumental para uma lógica carismática e emocional.

Essa transformação cultural é profunda, e não se reverte facilmente. Mesmo que um presidente mais moderado assuma o poder, ele o fará dentro de uma estrutura política contaminada pela lógica do espetáculo e pela descrença nas instituições. O Partido Democrata, por sua vez, parece perdido, dividido entre uma ala moderada, que tenta restaurar o passado, e outra que, embora crítica do trumpismo, compartilha parte do seu ceticismo em relação à globalização e ao establishment.

O impacto disso no sistema internacional é imenso. A diplomacia, por definição, requer previsibilidade e confiança. Sem ela, o cálculo estratégico se torna instável. Países europeus começaram a discutir formas de autonomia estratégica, a Alemanha fala abertamente em defesa própria, a França ensaia um discurso de soberania europeia. A China, por sua vez, observa e se beneficia do vácuo, mas também não oferece um modelo alternativo confiável. Pequim não cola os caquinhos, apenas se move entre eles, aproveitando-se da desordem.

Origem em mudanças estruturais profundas

É importante reconhecer que o trumpismo floresceu em um terreno já transformado por mudanças estruturais profundas. O processo de globalização que se acentuou a partir dos anos 1980, prometia prosperidade e integração, mas produziu também desigualdade, ressentimento e a sensação de perda. A revolução tecnológica, agora impulsionada pela inteligência artificial, reorganiza o trabalho e o poder econômico em escala global. O sistema internacional está, portanto, em transição, não apenas por razões políticas, mas civilizacionais. A economia digital, a automação, a concentração de riqueza e o enfraquecimento das classes médias criaram as condições para a política da raiva. O trumpismo, em certa medida, é uma resposta a esse cenário. E os aliados dos Estados Unidos sabem disso. Eles percebem que a instabilidade não é um acidente, mas um sintoma de uma sociedade em mutação. O mundo assiste à crise de um império que ainda é poderoso, mas já não é confiável, e cuja política interna contamina a credibilidade externa.

Antonio Gramsci famosamente escreveu que “a crise consiste precisamente no fato de que o velho está morrendo e o novo não pode nascer”. É uma frase que descreve perfeitamente este momento. O velho mundo, o da ordem liberal internacional, das instituições multilaterais e da liderança americana, se desfaz diante de nossos olhos. Mas o novo ainda é incerto. O que virá a seguir? Uma multipolaridade fragmentada? Uma nova bipolaridade EUA-China? Ou uma era de desordem prolongada, sem hegemonias claras?

No provérbio japonês do kintsugi, a arte de reparar a cerâmica quebrada com laca misturada com pó de ouro, o vaso é colado, mas suas rachaduras são exibidas, não escondidas, definindo sua nova forma e história. O vaso da ordem global pode ser colado, mas será uma peça fundamentalmente alterada, com as fissuras da desconfiança marcando sua nova composição. O que está à vista é uma ordem multipolar em que os aliados, sentindo-se vulneráveis e expostos à próxima oscilação da política doméstica americana, buscam ativamente uma maior autonomia estratégica.

A Europa, por exemplo, não pode mais contar com a dependência existencial do guarda-chuva de segurança dos EUA. A busca por uma defesa europeia mais robusta e a diversificação de cadeias de suprimentos (o famigerado de-risking) são respostas diretas a essa vulnerabilidade. O eixo Berlim-Paris move-se com uma nova urgência para blindar a União Europeia das oscilações de humor de Washington. Do mesmo modo, na região do Indo-Pacífico, aliados como Japão e Coreia do Sul, embora reforcem seus laços de segurança com Washington para conter a China, investem paralelamente em suas próprias capacidades militares e buscam o equilíbrio diplomático, sabendo que o isolacionismo americano ou um novo unilateralismo é uma possibilidade real a cada ciclo eleitoral de quatro anos.

Liderança americana sem autoridade simbólica

Nesse vácuo de liderança, nem a China, nem os próprios EUA de hoje, parecem dispostos ou capazes de restaurar o status quo ante. A China propõe um novo arranjo centrado em si mesma, uma ordem com “características chinesas”, frequentemente através de coerção econômica e de instituições alternativas, como o Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura. Os EUA, por sua vez, vivem à sombra não apenas de Trump, mas das forças que o Trumpismo liberou e legitimou.

Nesse cenário, o mais provável é que vivamos, nas próximas décadas, em um entrelugar histórico, em que a liderança americana persiste formalmente, mas sem a autoridade moral e simbólica de antes. As alianças continuarão existindo, mas com reservas. A cooperação internacional seguirá, mas por cálculo, não por convicção. E cada crise, seja na Ucrânia, em Taiwan ou no Oriente Médio, revelará o quanto o mundo confia cada vez menos na constância americana.

O sonho de “voltar ao normal” é uma miragem. Não há retorno possível. A política americana, como o vaso da alegoria, pode até ser colada, mas jamais será a mesma. O trumpismo é mais do que uma fase: é um ponto de inflexão. Ele redefiniu o que é aceitável no discurso público, corroeu as fronteiras entre verdade e opinião, e mostrou que o sistema político americano é mais frágil do que parecia. Os Estados Unidos mudaram, e com eles mudou o mundo. O que emerge é um novo arranjo, mais fragmentado, mais perigoso e mais volátil. A instabilidade e a imprevisibilidade americana são agora um fator permanente no cálculo estratégico de todos os demais atores globais. A política global das próximas décadas será definida por essa fratura, pela busca incessante dos países por autonomia em um mundo sem fiador, e pela incerteza da forma final desse novo, e já rachado, vaso global. A confiança, uma vez perdida, é o bem mais difícil de reconstruir. E enquanto o novo não nasce, seguimos tentando entender quem, ou o que, poderá colar os caquinhos do velho mundo. O veredito é o que a própria canção de Marina já anunciava, sem meias palavras e com a força inegável do colapso: “Quebrou, não tem mais jeito”.

Artigos e comentários de autores convidados não refletem, necessariamente, a opinião da revista Interesse Nacional

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