01 julho 2011

Um Olhar sobre o Futuro das Relações Brasil-China

A recente visita da presidente Dilma Rousseff à China, por sua natureza e resultados, marcou a abertura de uma nova etapa nas relações bilaterais. Talvez seja a primeira vez que um presidente do Brasil escolha, para uma de suas primeiras viagens internacionais, a China. Esse gesto demonstrou a nova prioridade da China e da Ásia na diplomacia brasileira. O Brasil não tem por que ver com receio a ascensão chinesa, sustenta o autor, que escreve sobre a estratégia de longo prazo para a relação entre o Brasil e a China que começa a ser desenhada.

Este parece um bom momento para tentar desenvolver uma visão prospectiva sobre o futuro das relações entre o Brasil e a China. Nos últimos anos, essas relações tiveram um crescimento extraordinário e atingiram um patamar que nem mesmo os poucos observadores dessa evolução poderiam antecipar. Como consequência desse crescimento vertiginoso, em particular na área comercial, problemas começaram a aparecer. O crescimento do comércio entre o Brasil e a China é a face mais visível da relação, mas ela na verdade mudou em muitos outros campos, tanto no plano bilateral, como no multilateral. Entre os dois países novas áreas foram abertas à cooperação, dando à relação um conteúdo muito mais diversificado e complexo. No plano multilateral, a ascensão dos países emergentes, exemplificada pela criação e consolidação do BRICS, abriu espaço para uma atuação mais coordenada entre o Brasil e a China no plano internacional, o que passou a requerer um diálogo ainda mais intenso entre os dois países sobre temas como a Rodada de Doha, mudanças climáticas, segurança energética e alimentar e reforma do ordenamento internacional.

Mas o momento atual é especialmente propício para uma análise dessa natureza porque tivemos recentemente uma visita da presidenta Dilma Rousseff à China, que, por sua natureza e resultados, marcou a abertura de uma nova etapa nas relações bilaterais. Não é comum, e talvez seja mesmo a primeira vez que isso tenha ocorrido, que um presidente do Brasil escolha, para uma de suas primeiras viagens internacionais, a China. Esse gesto, que demonstrou a nova prioridade da China e da Ásia na diplomacia brasileira, foi claramente percebido pelas autoridades chinesas, que deram à visita um tratamento especial. É claro que a visita coincidiu com a cúpula do BRICS, mas a presidenta Dilma foi o único chefe de Estado a realizar visita oficial à China, antes do evento. Essa nova prioridade para a Ásia já havia sido antecipada pela realização, no ano passado, pelo então secretário-geral do Itamaraty, embaixador Antonio Patriota, de duas reuniões dos embaixadores brasileiros na região. Além disso, a viagem da presidenta foi objeto de cuidadosa preparação, sendo precedida da visita dos ministros Antonio Patriota e Fernando Pimentel e de missão empresarial. A coincidência da visita com a reunião do BRICS reafirmou a crescente importância da dimensão global dos países emergentes e da relação Brasil–China, o que está bem refletido na parte multilateral do comunicado conjunto da visita e no comunicado da cúpula do BRICS.

  1. As opiniões expressas neste artigo são de exclusiva responsabilidade do autor, não refletindo necessariamente posições oficiais brasileiras.
    Os resultados da visita não se esgotaram, contudo, nos gestos e no declaratório, ainda que tais elementos sejam importantes. Muito pelo contrário: a visita marcou uma mudança ao enfatizar a importância de resultados concretos e ao propugnar por um salto qualitativo nas relações. Em suas intervenções, a presidenta Dilma deixou claro às autoridades chinesas que uma abordagem construtiva das relações bilaterais deveria partir do reconhecimento de que existiam problemas, sobretudo nas áreas econômica e comercial, e que tais problemas requeriam atenção imediata e um esforço conjunto para equacioná-los.
    No plano concreto, a visita permitiu desbloquear reivindicações do setor privado brasileiro em áreas como comércio de carnes e cooperação no setor da aviação civil. Foram assinados 22 atos entre acordos governamentais e empresariais, cobrindo as mais diversas áreas do relacionamento. Na área empresarial, foram anunciados importantes investimentos em áreas prioritárias para o Brasil. Além disso, a visita foi marcada por dois grandes eventos: um na área empresarial e outro na área de ciência, tecnologia e inovação. O evento empresarial, por seu próprio título, “Além da Complementaridade”, expressava o objetivo brasileiro de mudar a composição do comércio bilateral. O evento sobre C&T marcou a crescente importância dessa área nas relações com a China, também demonstrada pelo significativo número de atos firmados, abrindo novos setores à cooperação bilateral. Finalmente, vale mencionar que durante a visita foi feito o anúncio da abertura de uma agência do Banco do Brasil na China, medida que, uma vez concluído o processo de aprovação pelas autoridades chinesas, representará um enorme avanço em termos de apoio a empresas brasileiras exportadoras, ou que operam, ou pretendem investir, na China.

Salto qualitativo nas relações

O ponto central da visita, contudo, foi a proposta brasileira de dar um salto qualitativo nas relações. A visita procurou dar uma visão de médio e longo prazo para as relações, combinando a correção de desequilíbrios com o aproveitamento de novas oportunidades abertas pelo crescimento anterior das relações, mas, sobretudo, pela nova fase do desenvolvimento dos dois países e de sua crescente projeção internacional. O Plano de Ação Conjunta 2010–2014, aprovado em 2010 pelos presidentes Lula e Hu Jintao, após mais de um ano de negociação, havia procurado dar um real conteúdo à parceria estratégica estabelecida entre o Brasil e a China em 1993, a primeira parceria deste tipo entre a China e um país em desenvolvimento. Por seu conteúdo e alcance, o PAC chinês, como foi então chamado, é um documento singular no plano das relações bilaterais do Brasil, não só por procurar projetar uma visão de longo prazo das relações, como por identificar problemas e alinhar medidas concretas para sua solução e para o desenvolvimento das relações. Além disso, o Plano renova o arcabouço institucional das relações, criando as bases para sua implementação e para um diálogo permanente entre os dois governos e entre as sociedades brasileira e chinesa. Esse arcabouço, que tem como elemento principal a Comissão Sino-Brasileira de Alto Nível de Concertação e Cooperação (Cosban), criada em 2004, compreende hoje onze subcomissões e seus diversos grupos de trabalho, além de contemplar mecanismos para o diálogo político e entre os poderes legislativo e judiciário. Embora o Brasil tenha outras comissões de alto nível em suas relações com outros parceiros prioritários, nenhuma conta com um mandato tão explícito e abrangente, nem com tantos mecanismos para levá-lo a bom termo, como a Cosban, copresidida pelo vice-presidente da República do Brasil, Michel Temer, e pelo vice-primeiro ministro da China, Wang Qishan.
O salto qualitativo proposto pela presidenta Dilma Rousseff poderia ser resumido em seis pontos:
a) intensificação do diálogo político e dos esforços de concertação e coordenação sobre temas da agenda internacional: refletindo a importância das relações bilaterais, temos tido, nos últimos anos, trocas anuais de visita de chefe de Estado e uma intensificação das visitas de alto nível de parte a parte. O chanceler Patriota esteve na China no final do ano passado, como secretário-geral do Itamaraty, e voltou poucos meses depois para preparar, em missão conjunta com o ministro Pimentel, a visita presidencial. Quase todos os membros da Comissão Permanente do Comitê Central já foram ao Brasil, ou tiveram contato com altas autoridades brasileiras. Além de encontrar-se com o presidente Hu Jintao, a presidenta Dilma reuniu-se com o presidente da Assembleia Nacional Popular, Wu Bangguo, e com o primeiro-ministro Wen Jiabao. Esses contatos de alto nível envolvem também as instâncias partidárias, do judiciário e militares. Há, portanto, hoje, na China, uma exposição continuada dos altos escalões do governo, das Forças Armadas e do Partido, à realidade brasileira e uma percepção clara da importância das relações bilaterais. Durante a visita, a presidenta Dilma reuniu-se também com o vice-primeiro-ministro Wang Qishan, personagem central no manejo da política econômica chinesa e presidente da seção chinesa da Cosban. Na ocasião, ficou acertada a realização da II Cosban, no segundo semestre deste ano, no Brasil. O Comunicado Conjunto reflete, em sua parte multilateral, a crescente convergência entre o Brasil e a China em temas internacionais.
O fato de existirem divergências, naturais entre países que operam em universos geoestratégicos distintos e que têm preocupações diferenciadas sobre temas internacionais, como no caso da reforma do Conselho de Segurança, ou dos direitos humanos, não diminui a importância das áreas de convergência. Essas são claras, por exemplo, no âmbito do G-20, em temas como a reforma dos organismos financeiros internacionais e do sistema monetário internacional, como, aliás, está expresso no objetivo comum de que os dirigentes do FMI e do Banco Mundial sejam escolhidos, por seus méritos, em processo aberto de seleção; na Rodada de Doha, na busca de resultados equilibrados e que respeitem o mandato e os acordos já alcançados; e, em mudança climática, na defesa do princípio das responsabilidades comuns, mas diferenciadas. Aliás, o acordo para intensificar consultas sobre temas de direitos humanos mostra que, mesmo onde existem percepções diferentes, o diálogo é desejável, o que demonstra a confiança mútua e o caráter estratégico da parceria. Se é difícil fazer avançar qualquer relação sem um diálogo político frequente, intenso e de alto nível, isso é especialmente verdadeiro no caso da China, dadas as caraterísticas do sistema político chinês;

Comércio exterior

b) no campo do comércio exterior, onde os resultados foram impressionantes, refletindo a complementaridade das duas economias, com o comércio crescendo quase 40% ao ano, nos últimos dez anos, com saldos favoráveis ao Brasil na maior parte do período, a proposta brasileira foi no sentido de promover a complementaridade, mas mudar a composição da pauta de exportações brasileira e também da chinesa. No caso do Brasil, os produtos de maior valor agregado devem ocupar maior espaço na pauta, que deve ser muito mais diversificada, refletindo melhor a estrutura global de nossas exportações; e, no caso da China, deve haver uma moderação no ritmo de crescimento das exportações e uma eliminação das exportações de baixo custo, que provocam uma competição desleal com a produção doméstica brasileira. O comércio exterior entre os dois países ainda é pequeno, se se considera a dimensão das duas economias, e poderá seguir crescendo e atingir rapidamente um nível superior a US$ 100 bilhões, consolidando a China na posição de principal parceiro comercial do Brasil. Para que isso ocorra, contudo, em benefício dos dois países, será necessário corrigir os desequilíbrios atuais e dar pronta resposta às reivindicações da indústria brasileira. Não há nada de errado com a complementaridade e as exportações de matérias-primas do Brasil para a China. Pelo contrário, elas ajudaram o Brasil a superar rapidamente a crise e hoje alavancam um saldo bilateral que representa 25% do nosso saldo total. Sem o comércio com a China, nossa situação de balanço de pagamentos seria bem diferente. Mas a complementaridade embute um problema de economia política: os setores que ganham com o comércio com a China não são os setores que enfrentam a competição chinesa. Como gostam de dizer os chineses, devemos construir parcerias em que os dois lados ganhem, numa win-win situation. Esse problema se viu exacerbado com a crise e com o deslocamento de exportações chinesas dos mercados desenvolvidos para os emergentes, que não têm condições de absorver tais exportações. Na ausência de medidas efetivas para corrigir esses desequilíbrios a resposta virá, como sempre ocorre e, aliás, já vem ocorrendo, pela via das barreiras ao comércio;

Investimentos

c) os investimentos têm um grande potencial para consolidar o salto qualitativo ao criar as bases para novas correntes de comércio e ao coadjuvar os esforços internos, sobretudo no Brasil, de desenvolvimento de setores de tecnologia de ponta e de modernização da infraestrutura. Nesta área, a China poderá dar uma contribuição importante, não só em projetos no Brasil, como em iniciativas de integração sul-americana e de interligação entre o Atlântico e o Pacífico. Como é natural, é necessário que os dois lados acompanhem a evolução dos fluxos de investimento e busquem direcioná-los para setores prioritários de parte a parte, o que começou a ser feito na primeira reunião do grupo de trabalho sobre investimentos realizada, recentemente, em Brasília. Do lado da China, é necessário que as empresas brasileiras que desejam investir encontrem uma boa acolhida e o apoio do governo chinês. De nossa parte, é necessário explicitar as áreas onde o investimento tem um papel complementar ao investimento doméstico e promove o desenvolvimento brasileiro, assim como as melhores condições para que isso ocorra, como, por exemplo, o estabelecimento de parcerias com empresas brasileiras, a utilização de insumos nacionais, a criação de capacidade de pesquisa e desenvolvimento e a utilização de mão de obra nacional e de pessoal técnico e de direção brasileiro. A natureza das empresas não deve ser motivo de discriminação, mas, sim, ser um dos elementos a serem considerados na análise dos investimentos. Dado que a China, como, aliás, qualquer país, possui legislação que procura direcionar os investimentos diretos estrangeiros para áreas prioritárias ao desenvolvimento do país, estabelecendo suas condições de aprovação e operação, não há nada de errado em procedermos de igual forma e em buscarmos, de comum acordo e pela via do diá­logo e da negociação, fixar os parâmetros para os investimentos chineses no Brasil. A resposta para essa questão não está nem em abrir as portas e considerar que qualquer investimento será benéfico para o Brasil, nem em fechar-se aos investimentos da única economia que hoje tem ampla capacidade de investir no exterior e cujas empresas reconhecem no Brasil um parceiro importante. A resposta é saber negociar e criar as condições para maximizar o potencial dos investimentos chineses no Brasil. Felizmente, começamos a faze-lo;

Finanças

d) a dimensão financeira deverá ter crescente importância nesse novo relacionamento com a China, um dos maiores poupadores e credores internacionais, e sendo o Brasil um país que necessita complementar sua poupança doméstica com recursos externos. A ascensão da China como potência econômica e crescentemente financeira foi acelerada com a crise, e a projeção chinesa nessa área pode ser atestada pelo fato de seus bancos estarem entre os maiores do mundo em valor de mercado, embora uma expansão mais efetiva dos bancos chineses dependa de movimento de liberalização da conta de capitais. No Brasil, os bancos chineses têm tido presença crescente, como financiadores de projetos de infraestrutura, e na área de petróleo, através do China Development Bank (CDB). Os bancos chineses também têm se dedicado a apoiar a expansão comercial e de investimentos das empresas chinesas. Em 2010, o Bank of China abriu agência em São Paulo e, recentemente, o ICBC entrou com pedido de abertura de agência junto ao Banco Central do Brasil. O CDB deverá abrir escritório permanente para a América do Sul no Rio de Janeiro, em 2011. Do lado brasileiro, temos escritórios de representação do Banco do Brasil e do Itaú BBA, em Xangai, os quais vêm tendo crescente atuação com o aumento dos negócios entre os dois paí­ses. Recentemente, o Banco do Brasil decidiu transformar seu escritório em agência, o que se espera ocorra brevemente. Para além das operações bancárias, há enorme potencial a ser explorado no mercado de capitais, seja em ações seja em títulos. O recente acordo entre a BMFBovespa e a Bolsa de Xangai pode ser importante embrião de maior integração entre os mercados financeiros dos dois países. A Subcomissão Econômico-Financeira da Cosban poderá ajudar a impulsionar esses temas, inclusive por permitir maior aproximação entre os reguladores financeiros dos dois países;

Ciência, tecnologia e inovação

e) uma outra área que desponta com grande potencial é a de ciência, tecnologia e inovação. Os dois países já vêm cooperando há mais de vinte anos no setor espacial, numa iniciativa única entre países em desenvolvimento, na construção de satélites de sensoriamento remoto, o que, de novo, demonstra que as relações bilaterais têm mais conteúdo estratégico do que parece à primeira vista. Essa cooperação segue sendo importante, mas agora abre-se um leque de opções, da pesquisa agrícola à nanotecnologia. A presença do ministro Aloizio Mercadante na comitiva presidencial sinalizou essa nova prioridade, e os acordos governamentais e privados na área de tecnologia de ponta permitem dizer que a área de C,T e I deverá ter papel central no futuro das relações;

f) nenhuma relação prospera com base no desconhecimento recíproco e no isolamento das sociedades dos dois países. Isso é ainda mais verdade no caso de Brasil e China, dois países de culturas muito distintas e situados em hemisférios diferentes a milhares de quilômetros um do outro. É bem verdade que os contatos entre o Brasil e a China existem desde o perío¬do colonial e que a imigração chinesa para o Brasil vai cumprir duzentos anos. Esses contatos e as influências daí decorrentes levaram Gilberto Freyre a referir-se ao Brasil como a “China Tropical”. Um diálogo sobre os valores que inspiram as duas sociedades na busca de seu desenvolvimento poderá revelar, além das claras diferenças, áreas surpreendentes de coincidência, que alimentarão o interesse recíproco. A visita da presidenta Dilma procurou fazer avançar o que os chineses chamam de cooperação humanística, ao promover iniciativas na área de ensino dos idiomas, desenvolvimento de relações entre instituições acadêmicas, criação de centros de pesquisa e promoção de atividades culturais e esportivas e do turismo. No Brasil e na China, novas iniciativas estão ganhando corpo para reduzir a brecha de conhecimento, tanto na área de ensino de idiomas, como na de centros de pesquisa e intensificação do diálogo acadêmico, mostrando que os governos e as sociedades despertaram para a necessidade de um melhor conhecimento recíproco, a um nível compatível com a importância atual das relações bilaterais.
Dado o grau de desinformação sobre as relações entre o Brasil e a China e o nível de preconceito existente, gerado, sobretudo, a partir da competitividade chinesa no setor industrial, muitos dirão que a visita presidencial pode ter sido plena de boas intenções, mas que, como ocorreu em momentos anteriores, os desequilíbrios não serão corrigidos, nem as bases de uma nova relação assentadas. Um diagnóstico dessa natureza seria pelo menos apressado. Logo após a visita, a China anunciou a ida ao Brasil do ministro do Comércio, Chen Deming, liderando delegação oficial e empresarial, para dar seguimento aos acordos alcançados nas áreas de comércio exterior e investimento. A visita acaba de realizar-se e, se não resolveu todos os problemas, permitiu aprofundar o diálogo e avançar em alguns temas, como o dos investimentos, criando um ambiente propício para a resolução, na Cosban, de questões remanescentes. Houve acordo para o estabelecimento de canais de comunicação permanentes entre o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC) e o Ministério do Comércio da China (MOFCOM), o que é uma precondição para encaminhar fricções na área comercial.
Outras altas autoridades chinesas já anunciaram sua intenção de visitar o Brasil, e no segundo semestre teremos a II Cosban, cuja reunião, dada sua importância, fixa um horizonte, de curto prazo, para que solucionemos nossos problemas e demos um salto qualitativo nas relações. Como a parte que considera que a relação, deixada seguir seu curso, não refletirá plenamente a potencialidade brasileira e nem atenderá a nossos objetivos, cabe ao Brasil articular-se internamente para definir claramente os rumos que pretendemos dar ao relacionamento. Essa não é uma tarefa somente do governo. O meio empresarial, em particular, deve intensificar seus contatos com a China, marcando presença no maior mercado importador do mundo. A visita da presidenta Dilma criou as condições para um salto qualitativo nas relações e obteve das mais altas autoridades chinesas seu acordo para trabalhar em novas bases. Devemos agora, governo, empresariado e sociedade civil, trabalhar para que os resultados da visita se concretizem e para que implementemos o PAC com celeridade, tendo a preparação da Cosban como meta de curto prazo e como teste da capacidade dos dois lados de superar problemas e construir um novo relacionamento.

Perspectiva de um mundo sinocêntrico

Até aqui, o texto procurou dar um quadro atualizado das relações entre o Brasil e a China e responder a certas afirmações, que têm surgido, de que tais relações carecem de uma visão de médio e longo prazo, e não têm um curso definido de acordo com os interesses brasileiros, o que decorreria de uma falta de visão estratégica brasileira e de uma incapacidade do Brasil de fazer valer seus interesses na China. Na verdade, governo, empresários e sociedade civil despertaram, ainda que tardiamente, para a importância das relações com a China e para o potencial que tais relações têm para promover ou afetar os interesses brasileiros. A partir desse momento, podemos olhar com maior tranquilidade para o futuro dessas relações, pois temos presente o que queremos e o que não queremos da relação com a China. Dada a crescente importância da China no mundo, é muito positivo que Brasil e China venham construindo, desde 1993, uma parceria estratégica. É ainda mais positivo que, no período recente, esta relação tenha experimentado rápido crescimento e que a China seja hoje nosso principal parceiro comercial, que suas empresas sejam a origem dos maiores investimentos no Brasil e que ela deverá tornar-se um dos mais importantes parceiros do Brasil na área de inovação. Apesar da distância e das diferenças culturais, a perspectiva de um mundo sinocêntrico não tem por que ser percebida como algo negativo para o Brasil. Não temos com a China qualquer problema estratégico ou político. Os problemas na área comercial são perfeitamente equacionáveis e refletem, em boa parte, o rápido crescimento das correntes de comércio. Ver tais relações de forma realista e desapaixonada, com clara percepção dos interesses nacionais e sem desconhecer as diferenças entre um país e outro, é o caminho para a construção de uma relação duradoura.
O futuro das relações entre o Brasil e a China dependerá da evolução interna dos dois países, de sua capacidade de superar conjun¬tamente entraves às relações bilaterais e do desenho de um novo ordenamento internacional, no qual Brasil e China desempenharão papel de crescente importância. Essas são questões complexas, que requereriam, para sua abordagem, um enfoque muito mais amplo do que o de um modesto texto sobre as relações entre o Brasil e a China. É possível, contudo, esboçar algumas indicações para a análise dessas questões e tirar algumas conclusões sobre o futuro das relações sino-brasileiras. Para efeitos deste texto, a análise se concentrará na evolução da China.

Evolução da China: visão futura

Um breve exame do XII Plano Quinquenal, que vem de ser aprovado, é um bom ponto de partida para examinar a evolução da China nos próximos anos. O Plano reflete o diagnóstico de que o modelo de crescimento chinês, que produziu resultados tão espetaculares em termos de taxas de crescimento do PIB, nos últimos trinta anos, não tem mais condições de assegurar o crescimento a longo prazo. A China terá de transformar-se profundamente e passar a crescer em novas bases, abandonando o crescimento com base nos investimentos e nas exportações em favor do consumo doméstico, reduzindo as desigualdades sociais, incentivando a inovação e as indústrias intensivas em conhecimento, convertendo sua matriz energética e construindo uma economia verde, ou seja, passando de um crescimento extensivo, onde a taxa do crescimento do produto era o objetivo principal, para um crescimento intensivo, onde a qualidade e a repartição dos benefícios passam a ser centrais.
Para efeitos deste texto, três aspectos dessa mudança devem ser ressaltados: não estamos diante de uma opção por uma dentre muitas alternativas, mas, sim, diante da constatação de que as bases, tanto internas como externas, do crescimento anterior se esgotaram; a mudança é, portanto, inadiável, mas a magnitude e a dificuldade da tarefa são enormes, o que indica que acidentes de percurso poderão ocorrer, interrompendo o crescimento chinês; caso, contudo, as mudanças sigam seu curso, como, aliás, acredita a maioria dos observadores, a nova economia chinesa dará uma contribuição ainda maior para a economia internacional, com a China se consolidando como o maior importador mundial, com importações estimadas em US$ 11 trilhões durante o período do Plano, com uma redução e eventual eliminação do saldo comercial, com a crescente internacionalização das empresas chinesas e com a mudança do perfil de suas exportações das indústrias de baixo custo e intensivas em mão de obra para indústrias intensivas em qualidade e conhecimento. Nessas circunstâncias, a China assumiria, junto com o resto da Ásia, o papel de novo motor da globalização. É para essa nova China que devemos olhar ao tentar desenhar o futuro de nossas relações, sempre tendo presente que nada há de predeterminado nessa trajetória.
A evolução da China em direção a taxas de crescimento mais reduzidas, a um mercado interno em expansão, com um setor de serviços mais desenvolvido e com uma indústria com um perfil distinto, indica que muitos dos problemas que hoje criam obstáculos à relação irão sendo superados. As indústrias de baixo custo, intensivas em mão de obra, perderão espaço, o câmbio irá se valorizando, como já vem ocorrendo, com uma valorização superior a 10%, se combinarmos valorização nominal com taxa de inflação, o que já faz prever que a internacionalização do yuan poderá ocorrer dentro dos próximos três a cinco anos, as práticas desleais de comércio irão ficando para trás, juntamente com as violações de marcas e patentes, num país que começa a lançar marcas internacionais e é hoje um dos que mais registram patentes no mundo.
Se a direção das mudanças é correta, seu ritmo lento preocupa. É necessário, assim, manter um diálogo permanente com a China, sobre a necessidade das mudanças e sobre seu ritmo, como fazem todos os seus grandes parceiros comerciais. Esse diálogo, que já está em curso, deve abordar francamente questões como a cambial, as práticas comerciais e os regimes de investimento. Algumas dessas questões podem ser equacionadas bilateralmente, mas outras demandarão acordos mais amplos. O importante é avançar no que for possível e manter abertos os canais de diálogo sobre os temas mais complexos. Não há por que esperar que o tempo e as transformações internas na China se encarreguem de resolver os problemas. O Brasil tem o peso específico para levar adiante esse diálogo e os instrumentos para fazê-lo com o PAC, a Cosban e os acordos alcançados durante a recente visita presidencial.
Olhar a relação e a evolução da China somente de um ponto de vista defensivo seria um grave erro. As transformações em curso abrirão amplos espaços para uma maior cooperação com a China, não só por remover entraves, mas sobretudo por abrir novas possibilidades. A leitura do XII Plano identifica múltiplas áreas de convergência e de interesse recíproco para a cooperação futura. Para citar apenas duas, mencionemos as indústrias emergentes e a construção de uma economia verde. Como dois países em desenvolvimento, Brasil e China enfrentam desafios semelhantes e têm outras complementaridades a explorar, além da gigantesca demanda chinesa por matérias-primas e produtos agrícolas e da demanda brasileira por bens de capital e insumos industriais. Mover-se para além da complementaridade significa também explorar essas novas áreas, onde investimentos recíprocos e pesquisa e desenvolvimento conjuntos poderão tornar possível, entre outras coisas, uma geração de novos produtos binacionais.
A relação sino-brasileira tem, hoje, uma dimensão global e refletir sobre o seu futuro implica, necessariamente, pensar sobre que papel os dois países desempenharão na montagem de um novo sistema internacional. Aí, de novo, existem possibilidades a serem exploradas. A ascensão chinesa e de outros países da região, como a Índia, vem deslocando para a Ásia o centro da economia mundial. As projeções indicam que poderíamos estar diante de um século asiático e de uma China que assumiria, nos próximos dez a quinze anos, o papel de primeira potência econômica mundial. Como dito acima, essas previsões podem não se realizar, mas ignorá-las no planejamento de nossa política externa e de nossa relação com a Ásia e a China seria um erro. A ascensão chinesa se dá em conjunto com o aumento do peso relativo dos países em desenvolvimento e dos países emergentes na economia mundial. A criação do G-20 e do BRICS são sinais das mudanças em curso.
Se a China tem a seu favor a dimensão crescente de sua economia, o Brasil conta com uma invejável projeção internacional e com uma tradição de diplomacia multilateral que data do século xIx. Como dois países em desenvolvimento e economias continentais, e com um peso crescente no contexto global, Brasil e China têm áreas naturais de coincidência nas discussões sobre temas globais e na redefinição da ordem mundial rumo ao que o ministro Patriota tem chamado de uma “multipolaridade benigna”, ou seja, um sistema que combine uma redistribuição do poder mundial, com o reconhecimento de novos polos, com um renovado multilateralismo. Não há dúvida de que os dois países são atores indispensáveis na solução de muitos problemas globais, como mudança climática e segurança energética e alimentar. Mas, mais do que isso, suas concepções sobre o redesenho do sistema mundial terão de ser levadas em conta. Nesse sentido, a diplomacia multilateral, que não era uma área forte da diplomacia chinesa, deverá ocupar papel crescentemente importante nas relações entre o Brasil e a China, dando a essa relação uma dimensão verdadeiramente global. Isso já vem ocorrendo em foros como o G-20, o BASIC (Brasil, África do Sul, Índia e China) e o BRICS. Com o adensamento das relações e do diálogo, essas áreas de convergência e de possível atuação conjunta se estenderão a outros campos, como a reforma do Conselho de Segurança e os direitos humanos.

Não temer a ascensão chinesa

O Brasil não tem por que ver com receio a ascensão chinesa. O que temos de fazer é tentar compreender o significado das mudanças em curso e como poderemos utilizá-las a nosso favor. É claro que temos um atraso a recuperar em termos de especialização na região asiática, mas devemos entender que esse desafio é muito menor do que o que enfrentam países que veem a China como ameaça ou que estão envolvidos numa disputa por ordem de precedência na escala das economias mundiais. Nesse contexto, é mais importante desenvolver uma visão de conjunto das relações do que simplesmente aprofundar análises setoriais e parciais. Estas são importantes para equacionar problemas e identificar áreas potenciais de cooperação. Mas uma visão integrada da relação com a China, que incorpore suas dimensões política, econômica, social e cultural, num horizonte de longo prazo, é a melhor maneira de orientar essas relações em um sentido cada vez mais favorável ao Brasil. É essa estratégia de longo prazo para a relação entre o Brasil e a China que ora começa a ser desenhada e que garantirá que a relação se torne uma parceria efetivamente estratégica, compatível com o papel que os dois países desempenharão no cenário internacional.
A evolução das relações entre o Brasil e a China criou uma base sólida a partir da qual poderemos superar os poucos, ainda que relevantes, problemas que temos. Essa é uma relação que felizmente tem futuro e, caso amanhã cheguemos a um mundo sinocêntrico, não há por que acreditar a priori que esse mundo oferecerá menos possibilidades para o Brasil do que o mundo da guerra fria, ou uma ordem unipolar. Os desafios existirão, mas nada indica que não possam ser superados com criatividade e pragmatismo e através de um diálogo cada vez mais estratégico com os chineses. Não se trata de construir relações excludentes ou pretender que as relações com a China suplantem tradicionais parcerias brasileiras, mas, sim, de, com realismo, ir superando problemas e construindo uma relação sólida e duradoura. Não estará ausente desta relação a busca de uma ordem internacional mais construtiva, onde os dois países jogarão papel ainda mais relevante.

  1. As opiniões expressas neste artigo são de exclusiva
    responsabilidade do autor, não refletindo necessariamente
    posições oficiais brasileiras.


É embaixador do Brasil na China.

Artigos e comentários de autores convidados não refletem, necessariamente, a opinião da revista Interesse Nacional

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