Número 72

Ano 19 / jan - mar 2026

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É filósofo pela Universidade Nacional Autônoma do México, em doutor em filosofia pela Universidade de Paris e pós-doutor na École Normale Supérieure Lettres et Sciences Humaines. Leciona na Universidade Federal do Rio Grande do Sul e Tecnológico

A ideologia russa na construção de Ivan Ilyin

A invasão da Ucrânia e a autocracia de Vladimir Putin deitam raízes na ideologia russa, e não podem ser simplesmente identificadas aos interesses atuais da Rússia como se estivéssemos diante de um fenômeno simplesmente geopolítico. Não se trata, por exemplo, de conter um eventual expansionismo da OTAN. A geopolítica russa expressa uma forma de sua mentalidade que é avessa, senão refratária, aos valores ocidentais e, por extensão, às categorias que informam o seu pensamento. Dever-se-ia, portanto, prestar mais extensão à forma cultural e religiosa que lhe deu origem, vindo a influenciar decisivamente as decisões do Kremlin e, em particular, de Putin. Uma de suas maiores expressões é Ivan Ilyin.

Preliminarmente, vejamos alguns dados biográficos que nos permitam melhor avaliar a sua importância. Nascido em Moscou, em 1883, teve de abandonar a União Soviética devido à perseguição comunista, tendo se estabelecido em Berlin em 1922. Após o colapso da União Soviética em 1991, foi objeto de uma espécie de renascimento, suas obras ganhando ampla divulgação e sua influência estendendo-se ao nível propriamente político. Putin o cita frequentemente em seus discursos, tendo ele sido mencionado nos discursos presidenciais de 2005 e 2006, e no ano seguinte no Conselho de Estado. Em 2009, o presidente depositou flores em seu túmulo no Monastério de Sretensky[1], tendo sido ele o patrono de suas exéquias, pois tinha sido enterrado na Suíça em 1954. O filósofo veio a ser, então, considerado por Putin e seus colegas como uma espécie de profeta que forneceria os fundamentos da nova ideologia[2].

Advogava por um forte poder central e era favorável à anexação da Ucrânia e do Cáucaso, não possuindo esses países nenhum direito próprio em relação à Rússia, da qual deveriam fazer parte. Inicialmente próximo dos nazistas, tendo o seu escritório no Ministério da Propaganda de Goebbels, terminou por ter problemas com a Gestapo, o que o obrigou a deixar o seu trabalho em 1935, movendo-se, depois, para a Suíça. Não aceitava um ponto importante da doutrina nazista segundo o qual os eslavos, portanto os russos, eram uma outra classe de sub-humanos. Em relação a Hitler, considerava que o ditador tinha prestado um grande serviço à Europa por ter impedido a bolchevização da Alemanha[3]. Diante dos testemunhos das atrocidades nazistas, considerou que isto era simplesmente decorrente das emoções judaico-liberais, expressando claramente o seu antissemitismo.

Para ele, estava em questão a contraposição entre duas particularidades, a russa, ortodoxa, e a ariana, afirmando o valor sagrado da primeira que terminaria se impondo, inclusive pela força, sobre todas as demais. Mais particularmente, ele elabora filosoficamente sua posição em uma leitura original do conceito de mal, de repercussões políticas e geopolíticas. Politicamente, o mal estaria exemplificado na experiência comunista, soviética, que é o inimigo a ser combatido. E ele o combate desde a perspectiva da Igreja Ortodoxa na defesa do Cristo, tendo sustentado ardorosamente o Exército branco em sua guerra contra o Exército vermelho. Seu pensamento é, sob essa ótica, um pensamento engajado, expondo-se como um ideólogo em sua luta política. Note-se, por outro lado, que os comunistas tinham uma pauta claramente antirreligiosa, antiortodoxa, apresentando-se como ateus, embora o seu exercício de poder tenha sido o de uma concepção teológico-política, impondo pela violência a sua própria doutrina.

Filosoficamente, segundo ele, o “mal é sobretudo a inclinação espiritual do homem”; “inerente a cada um de nós, há vivendo dentro de nós um desejo passional de provocar a besta interior, uma espécie de força gravitacional que procura sempre expandir o seu campo de atuação e tomar conta de nós completamente”[4]. Tome-se, então, o espiritual em sua acepção propriamente hegeliana, correspondente à que hoje consideraríamos em sua significação religiosa, política e cultural, concretizada em concepções, valores e costumes. Ganha ele uma conotação espiritual, que pode ser, por sua vez, definida como uma ação racional voltada para a maldade, seguindo os seus próprios parâmetros. Neste sentido, esta força de natureza espiritual pode libertar a besta existente em todo homem, vindo, sob certas condições históricas, a tomar conta inteiramente dele.

Note-se, a propósito, que sua concepção da maldade vai além de Hegel, imprimindo-lhe uma dimensão propriamente ontológica, existencial, e não apenas moral, daí derivando a luta contra o ateísmo e bolchevismo. Entretanto, convém assinalar que a luta contra o ateísmo e o bolchevismo tem significações distintas, na medida em que o ateísmo é uma corrente intelectual que nega a existência da Ideia de Deus, colocando-se como um desafio intelectual, próprio de um processo civilizatório que se caracteriza pela disputa de ideias, sem que nenhuma predomine politicamente.

Trata-se de uma disputa interior a uma sociedade democrática, e não de uma cruzada contra o mal. No caso do bolchevismo, o seu significado é outro, visto que estamos diante de um movimento político, revolucionário, que se voltou contra a própria ideia de uma sociedade russa ancorada em valores religiosos e, mais geralmente, de uma luta à morte contra o capitalismo e a democracia, embasados, por sua vez, na liberdade.

O mal teria uma força positiva

Teologicamente, o mal visa à destruição de Deus, em uma oposição radical à Criação. Havendo uma força gravitacional que propulsionaria o homem para a maldade, sendo, em contraposição, a Igreja Ortodoxa a força que pode impedir o desenlace desse processo. O mal teria, então, uma força positiva, não se caracterizando somente em uma oposição ao bem, embora moralmente adquira também essa significação. Não se trata somente de uma natureza pulsional do homem, mas intelectual e racional, constituindo um “mundo psicoespiritual”[5]. Sua tradução política consiste em uma realidade que se concretiza em instituições e forças que lutam pela implantação da maldade. Eis por que se torna necessária uma conjunção das forças humanas, práticas, políticas, culturais e religiosas para que este enfrentamento, inclusive de natureza escatológica, se faça no palco do mundo.

Ilyin ressalta que, nesta luta contra o mal, objetivamente falando nada vale retirar-se do mundo, apenas cultivar a subjetividade, sendo imperioso confrontá-lo, quando possível, através da persuasão, senão pela força, pelas armas. Em tal confronto, não vale nem a mera afirmação moral da subjetividade, nem, tampouco, a tolerância entre as várias religiões e credos, pois, neste caso, um credo ateísta seria uma forma travestida da maldade. A reclusão subjetiva seria uma espécie de resignação diante do mal, uma fuga na interioridade e, portanto, uma derrota na objetividade do mundo.

Neste sentido, são acerbas suas críticas à Igreja católica por ter renunciado à sua missão, retirando-se ou ausentando-se do controle do Estado, assim como a protestante por ter se abrigado na interioridade. Logo, segundo sua concepção, seria a Igreja Ortodoxa Russa, expressão de uma superioridade civilizatória e não somente teológica, que teria como missão levar a cabo a salvação do mundo, a começar pelos Estados eslavos. Isto significa que a Igreja Ortodoxa estaria justificada para impor, mesmo coercitivamente, seu credo a todos os que dela discordem, pois seria a representante divina em sua luta contra a maldade.

A coerção, forma de imposição externa, não é, por si só, algo que possa ser considerado como nocivo, mas pode ser igualmente um instrumento do bem ao seguir parâmetros espirituais e uma firmeza da vontade na imposição desses valores. Seu argumento, na verdade, era o mesmo utilizado pela Inquisição espanhola, que funcionaria como seu modelo. De nova conta, trata-se da imposição da particularidade russa que teria uma verdade e vontade absolutas por ser religiosa, e não universal, preponderando sobre outros credos e religiões. Logo, na ausência da eficácia da persuasão política, ou melhor geopolítica, pode tomar o seu lugar a coerção militar, como estamos observando hoje na Ucrânia, com os russos impondo sua forma de “russianidade”, com apoio da Igreja Ortodoxa, a partir de sua ideia própria de Império. Segundo essa perspectiva, ela estaria recuperando um território “perdido”, a própria noção de perda pressupondo evidentemente que se tinha uma coisa, sobre a qual se exercia um direito.

Observe-se que a formulação de Ilyin é, de um lado, hobbesiana, baseada no choque de corpos, de pessoas (ou grupos políticos, sociais e nações) que simpatizam ou antipatizam com as outras em um estado natural produtor de conflitos, e, de outro, é cristã, segundo a qual o homem é um ser que naturalmente peca e sofre, causando dor em outro. O homem seria, então, um “sujeito sofredor”[6], que deveria ser objeto de amor e piedade. Contudo, o esforço pela piedade não é simplesmente religioso, moral, voltado para reerguer o próximo, para salvá-lo, mas deve se fazer pelo exercício da autoridade, do Estado. 

Segue-se daí a aversão de Ilyin e, depois dele, Alexandre Dugin, pelos valores ocidentais, identificados ao relativismo, ao hedonismo, ao apego aos bens materiais, à tolerância pelos princípios e religiões dos outros, ancorando-se em sua própria concepção do caráter absoluto, sacro, dos princípios e valores da Igreja Ortodoxa Russa. Sua expressão do ponto de vista da vontade reside em que os ocidentais seriam dotados de uma fraqueza da vontade, de falta de personalidade para o combate, visto que justificam sua inércia ou passividade pelo relativismo, pela dedicação aos bens materiais, enquanto os valores russos confeririam firmeza à vontade, à decisão de lutar e de ir à guerra.

O princípio da inseparabilidade

Consequentemente, Ilyin defende o princípio da inseparabilidade entre o Estado e a Igreja: o primeiro sem o segundo sendo um mero mecanismo sem força espiritual, enquanto o segundo sem o primeiro seria um espírito sem corpo, ineficaz. Trata-se de unir no exercício do poder o guerreiro e o monge, cada um exercendo suas funções em uma determinação recíproca, ambos irmanados em uma mesma missão escatológica, de salvação[7]. O Tsar, depois na história russa o Secretário-Geral do Partido comunista, e, hoje, o Presidente, deveria ser santificado, veiculando uma obediência de tipo religioso, não podendo ser somente um exercício da vontade de poder, em cujo caso seria um mero exercício arbitrário deste. A inseparabilidade entre os poderes estatal e eclesiástico exige obediência incondicionada. Eis, pois, a sua crítica às concepções católica e protestante ocidentais, baseadas, por sua vez, na separação entre essas duas instâncias, fonte para a afirmação de uma universalidade humana para além dos caracteres absolutos de uma religião determinada. A universalidade ocidental afirma-se em contraposição à determinação absoluta de qualquer religião, devendo todas prestar contas a uma universalidade moral.

A obra de Carl Schmitt, O conceito do político, foi publicada em 1927, enquanto sua edição ampliada e revisada em 1932. O livro de Ivan Ilyin é de 1925. No entanto, chama atenção o fato de Ilyin apresentar uma concepção do inimigo semelhante à de Schmitt, caracterizado não do ponto de vista pessoal, mas desde a perspectiva dos “inimigos da causa de Deus na terra”[8]. O inimigo é, portanto, aquele que é denominado enquanto tal por aqueles que o combatem, sendo os combatentes os que conjugam em si a ação espiritual, unificada, da Igreja e do Estado. São eles os agentes políticos – e civilizatórios em projetos expansionistas como os militares –, os que decidem pelos destinos alheios.

Outros credos, outras religiões e civilizações, comportamentos materialistas e hedonistas e atitudes livres se tornam, assim, figuras do inimigo a ser combatido e aniquilado. Os inimigos de Deus não podem ser objeto do amor cristão[9], estando este destinado somente aos inimigos pessoais. Em um escrito posterior[10], de 1937, o mundo é visto sob a ótica de uma ausência de sentido, na medida em que se caracteriza pelo abandono da religião e, mais particularmente, da cultura e da religiosidade cristãs, pela ciência, identificada ao materialismo, e por uma política secular. Logo, tanto o capitalismo quanto o socialismo e o comunismo são perniciosos por não estarem baseados em Deus. 

Acontece que a noção ilyiniana de inimigo não se refere apenas a um inimigo político em sua acepção restrita, mas a um inimigo em sua acepção cultural, civilizatória e espiritual[11]. Em Schmitt, o inimigo é qualificado politicamente, enquanto em Ilyin ele adota uma forma religiosa, sob o abrigo doutrinário da Igreja Ortodoxa Russa. Há, portanto, um embate cultural – poderíamos dizer civilizatório –, segundo o qual cada contendor veicula e transmite os seus valores, afirmando os seus e, também, contaminando ou rotulando os outros sob o signo da maldade. Deveria, então, do ponto de vista de uma cultura superior – a russa –, haver um combate sistemático a qualquer tipo de contaminação, de infecção cultural, que viesse a minar seus pressupostos e princípios. Daí se segue a eliminação dos seus agentes transmissores.

O espaço territorial não é só geopolítico, mas sacro

Neste sentido, o espaço territorial do Estado é considerado por Ilyin um espaço não apenas político e geopolítico, mas sacro[12], visto que nele se afirmam os valores e princípios da religião. Nele se exerce o poder da espada, da coerção, baseado nos valores que estruturam esta forma de vida comunitária. Não haveria, portanto, lugar para conceber a organização estatal do ponto de vista constitucional enquanto baseada, por exemplo, em uma declaração universal dos direitos humanos, pois seria ela destituída do caráter sacro da autoridade. Espaço sacro significa espaço necessariamente particular, não podendo ser remetido a qualquer justificativa de tipo universal que o transcenderia.

O espírito anti-iluminista, antirrevolução francesa, é particularmente claro. Seu alvo é o Ocidente. A espada torna-se santificada, o que significa dizer que a violência religiosamente amparada é justificada, não somente em relação aos transgressores das leis, aos crimes comuns, mas aos portadores de outros valores e princípios, justificando qualquer ação militar externa. A espada santificada é a da invasão da Ucrânia, podendo estender-se para os países bálticos e a Polônia.

Logo, em sua consideração geopolítica, haveria uma grande guerra escatológica em curso entre as forças servas de Deus e as forças do inferno[13], em uma espécie de luta à morte, cujo desenlace é a morte daquele que passou a ser considerado como um inimigo. A espada torna-se escatológica, inscrita em uma grande Teodiceia guerreira, justificando ações militares. Mais concretamente ainda, partindo da premissa de que Jesus é o Senhor, trata-se de seguir os seus ensinamentos e viver existencialmente e comunitariamente a experiência da Cruz e do Sacrifício.

A morte e o sacrifício passam a fazer parte da cena político-religiosa e geopolítica, compreendida não como o destino de um processo natural, porém como meio de reencenação da experiência de Cristo[14]. Um verdadeiro cristão deve se preparar para matar em nome de Deus, devendo assumir essa sua missão na Terra.


Notas

1
Laqueur, Walter. Putinism. Russia and its future with the West. New York, Thomas Dunne Books/St. Martin’s Press, 2015, p. 178-9. Cf. também Snyder, Timothy. The Road to Unfreedom. New York, Tim Duggan Books, 2018, p. 15-35.

2 Ibid., p. 178.

3 Ibid., p. 180.

4
Ilyin, Ivan Alexandrovich. On Resistance to Evil by Force. Svolen, Slovakia/London, Taxiarch Press/K. Benois, 2018, p. 8.

5 Ibid., p. 13.

6 Ibid., p. 87.

7 Ibid., p. 206-7.

8 Ibid., p. 123.

9 Ibid., p, 127.

10 Ilyin, Ivan. Foundations of the Christian Culture. Waystone Press, 1937.

11 Ilyin, op. cit., p. 142.

12 Ibid., p. 146.

13 Ibid., p. 163.

14 Ibid., p. 190.


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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