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Número 75

Ano 19 / out/dez 2026

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é jornalista e colunista do UOL. Trabalhou nos jornais O Globo, Folha de S.Paulo e Estado de São Paulo. É formada em Comunicação Social pela PUC-SP, com extensão em World Politics, na London School of Economics, e, em Economia, pela FIPE-USP

Como engajar eleitores fartos do polarizado fla x flu político?

Bastou uma semana de exposição na mídia para que um candidato minimamente articulado, ainda que com ideias para lá de estapafúrdias, conquistasse um lugar ao sol nas pesquisas de intenção de voto. 

O candidato autodenominado “Escritor Augusto Cury”, do Avante, cruzou a barreira dos 10% de intenção de votos nas pesquisas divulgadas no início de setembro, uma semana após as sabatinas da TV Globo, mostrando que o desejo do eleitor por uma alternativa à polarização não deve ser ignorado.

O médico e autor de 70 livros de autoajuda, que soma mais de 35 milhões de exemplares vendidos, acredita que, com um drone e um ministério de Inteligência Artificial, combate-se a violência doméstica e os males do Brasil. Confunde ajuste fiscal com reforma tributária e quer colocar influenciadores nas Embaixadas para vender o Brasil no exterior.  

Apesar de se posicionar como uma espécie outsider de um centro paz e amor, Cury não resiste a um escrutínio mais aprofundado: seu marqueteiro trabalhou para Jair Bolsonaro em 2019 e 2022. E ele contou com o apoio de outro coach de autoajuda da direita, Pablo Marçal, para ganhar tração. 

Seu posicionamento parece mais uma fabricação do marketing político do campo da direita — com interesse em embolar o meio de campo eleitoral —, e não causará surpresa se o candidato desidratar na mesma velocidade com que cresceu nas pesquisas. 

Sua súbita ascensão, após a sabatina na televisão aberta, no entanto, merece reflexão mais aprofundada. Ela sinaliza que há um contingente expressivo da população que está cansada do fla x flu da política, que não aguenta mais brigar com a família e se desentender com amigos de infância. 

Aderir à polarização implica seguir uma cartilha de posicionamentos preestabelecidos que não dá margem ao contraditório nem permite aprofundar as discussões. Afinal, que opção tem o eleitor que reprova as relações do ministro do Supremo Alexandre de Moraes com o Banco Master e acredita que ele deve deixar a Corte, mas não quer ser governado por um negacionista climático? E o que faz o eleitor que aprova a escala 6×1, mas é crítico da condução da economia pelo atual governo?

Não polarizados são mais de 20% dos votantes

Mas, afinal, quem é esse eleitor que não se enquadra nem cá nem lá?

O instituto Nexus, que produz as pesquisas de intenção de voto para o banco BTG Pactual, vem fazendo toda semana uma pergunta interessante para medir o grau de polarização da sociedade: “em uma escala de zero a dez, como você se posiciona em relação às seguintes alternativas: “Sou anti-Lula” e “Sou anti-Bolsonaro?” 

Na pesquisa divulgada no dia 8 de setembro, feita com 2.002 eleitores, aqueles que “não se engajam nem com o antilulismo nem com o antibolsonarismo” representavam um contingente nada desprezível: 19% dos eleitores. São o que a pesquisa chama de “não polarizados”. 

Desde março, essa categoria vem oscilando em torno de 20% e 23%, dentro da margem de erro.

Estamos falando do terceiro maior grupo de eleitores do país. Na liderança da classificação, com 27%, estão aqueles que se posicionam como “bolsonaristas convictos” (se identificam como antilulistas e rejeitam o antibolsonarismo). Já os “lulistas convictos”, no espectro oposto, representam 26% do total de eleitores.

Há, ainda, um contingente de 5% que vê Lula como alternativa: é indiferente ao antilulismo, mas se identifica primordialmente como anti-Bolsonaro. E 8% que é tão anti-Lula que prefere Bolsonaro como alternativa, ainda que sem tanta convicção. O time daqueles que se identificam, ao mesmo tempo, como anti-Lula e anti-Bolsonaro soma 8%.

Os não polarizados estão distribuídos em todo o país, mas a ocupação, a renda, a escolaridade e a fé, chamam a atenção: 

Os não polarizados lideram entre aqueles eleitores que fazem parte da população economicamente ativa, mas não trabalham (não ocupados): 37% dessa categoria não se engaja nem com o antilulismo nem com o antibolsonarismo. Só 12% dos não ocupados são Lula convictos e 23%, bolsonaristas convictos.

Em termos de renda, os não polarizados se assemelham ao eleitor do Lula. Somando os eleitores que ganham até 1 salário e de 1 a 2 salários, 49% se enquadram na categoria de “não polarizado”, mesmo percentual dos Lula convictos. 

Mas, os não polarizados em geral têm menos escolaridade. Só 11% de quem tem ensino superior é não polarizado. Nessa mesma faixa de escolaridade, 29% é Lula convicto e 31%, bolsonarista convicto.

Os não polarizados podem ser encontrados em todas as igrejas e entre os que não as frequentam. Eles são 22% dos evangélicos, 17% dos católicos e 18% dos que declaram não ter religião. Aqui, entre os não religiosos, o contingente de não polarizado só perde para os Lula convictos. Dentre os eleitores convictos do presidente Lula, 38% se dizem não religiosos.

Candidatura de centro pode arrefecer a polarização

De Norte a Sul do país, há um eleitor carente de uma alternativa que os represente e, mais uma vez, o país desperdiça uma chance de construir uma saída para a polarização.

O sempre proclamado grande estrategista da política Gilberto Kassab, presidente do PSD, partido que conseguiu eleger um exército de prefeitos na última eleição, escolheu mal a sua terceira via. Os governadores Ronaldo Caiado (PSD), de Goiás, e Romeu Zema (Novo), de Minas, não saem do lugar nas pesquisas. Estão embolados na lanterna com o influenciador Renan Santos (Missão), que, apesar de se colocar como uma alternativa a Lula e a Bolsonaro, é claramente um candidato da direita, com posicionamentos por vezes extremos. 

O influenciador e fundador do MBL atrai eleitores nem-nem – nem Lula nem família Bolsonaro –, que, como vimos acima, representa apenas 8% do total de eleitores. O fato de Renan estar estagnado com menos de 5% mostra que ele não consegue atrair o eleitor mais ”centrado” ou talvez pacifista, com sua comunicação estridente e propostas beligerantes e radicais como a da fabricação da bomba atômica e o elogio à política de encarceramento de Nayib Bukele em El Salvador, a despeito de graves violações de direitos constitucionais.

Talvez Kassab não quisesse emplacar um candidato com chance de vitória, mas apenas angariar forças para se aliar ao potencial vencedor, como vem fazendo o centrão desde a democratização. Preterido entre os três candidatos da lista de Kassab, o ex-PSDB Eduardo Leite talvez fosse o nome com mais capacidade de angariar a simpatia da centro-esquerda, embora se posicione um pouco mais para à centro-direita. 

Muitos vão dizer que o Brasil não está preparado para um candidato abertamente gay. O Brasil tampouco estava preparado para um candidato operário — mas até água mole em pedra dura, de tanto bater, fura. Após Lula disputar três eleições, o Brasil não só se mostrou preparado para um candidato da esquerda operária, como Lula segue no poder, liderando as pesquisas para um possível quarto mandato e tendo elegido uma sucessora nesse meio tempo. 

Uma ideia nova precisa de tempo para ser assimilada. A candidatura do centro democrático, que vai ser capaz de tirar o Brasil da polarização — equilibrando responsabilidade fiscal e o compromisso genuíno com redução de desigualdade e respeito ao meio ambiente —, precisaria começar a ser semeada hoje para alcançar resultados no pleito de 2030.

Mas não precisamos esperar até 2030.

Para o bem e para o mal, o Executivo Federal deixou de ser a instância com mais capacidade de resolução dos problemas nacionais – perdendo poder para o Legislativo e para as instâncias estaduais e municipais. 

Não menosprezamos os pleitos municipais. São as políticas públicas no nível das prefeituras que impactam mais o nosso dia a dia – incluindo o ar que a gente respira. E 2028 está logo ali. No nível federal, ainda há tempo de eleger um Congresso melhor.

Artigos e comentários de autores convidados não refletem, necessariamente, a opinião da revista Interesse Nacional

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