Desinformação como estratégia: extrema-direita, tecnofascismo e modulação
A desinformação não é acidente de percurso das redes digitais, nem efeito colateral indesejado da liberdade de expressão no ciberespaço. Ela é uma estratégia de construção de hegemonia e um projeto de tomada do poder. Trata-se de conjunto deliberado de técnicas, operadores, empresas e narrativas articulados para modular a atenção, capturar a percepção e conduzir o comportamento eleitoral de milhões de pessoas. A modulação é o processo pelo qual os sistemas algorítmicos filtram, classificam e direcionam nossa atenção, nossos afetos e nossas visões de mundo. A desinformação eleitoral contemporânea é uma de suas expressões mais cínicas: fabricar um fato que não existiu, ou distorcer fato existente, para alimentar as amostras que as plataformas oferecem a públicos previamente selecionados.
Ao contrário do que a ingenuidade tecnológica sugere, essa desinformação não brota espontaneamente do caos das redes. Ela é planejada em escritórios, financiada por campanhas, operada por “fazendas” de perfis falsos e vendida como serviço político. A desinformação deixou de ser recurso tático de ocasião ou mentira tradicionalmente contada por políticos. Ela se tornou estratégia estrutural da extrema direita internacional, articulada a um projeto mais amplo concebido por neoliberais que romperam com a democracia e que teve a adesão dos bilionários do Vale do Silício. O filósofo da extrema direita, Nick Land, no início do texto The Dark Enlightenment (2022), indica a sentença paradigmática do neofascismo, pronunciada em 2009, pelo criador o PayPall, sócio de diversos investimentos tecnológicos e fundador da Palantir, Peter Thiel: “I no longer believe that freedom and democracy are compatible” (tradução livre: “Já não acredito que liberdade e democracia sejam compatíveis”).
As teorias funcionalistas clássicas da comunicação de massa propunham que as mensagens bem estruturadas podem atingir o público como uma “bala mágica”. Um exemplo disso era a abordagem de Harold D. Lasswell em seu estudo Propaganda Technique in the World War, publicado pela primeira vez em 1927. Essas teorias buscavam mostrar a capacidade do controlador do canal da comunicação de massas manipular a opinião pública. Sem dúvida, existem tentativas de manipulação, mas Jesús Martín-Barbero (2008) promoveu o deslocamento “dos meios às mediações” e demonstrou que a comunicação não pode ser compreendida apenas pela mensagem emitida ou pelos efeitos da mídia. A mesma mensagem pode ser apropriada, reinterpretada e ressignificada de modos distintos por diferentes grupos sociais.
A Internet alterou o ecossistema comunicacional. Cresceu como rede distribuída em que qualquer pessoa pode publicar sem a necessidade de autorização prévia. O difícil da Internet não é mostrar um conteúdo, é ser visto. Com o predomínio das redes sociais on-line, a visualização ficou sob controle de regras invisíveis operadas por sistemas algorítmicos de plataformas controladas por bilionários do Vale do Silício. Todo movimento realizado pelo usuário em uma plataforma digital, quanto tempo ficou em uma página, os links que foram clicados são recolhidos pelos sistemas algorítmicos, convertidos em dados que são processados para conformar o perfil de cada pessoa na rede social. A economia da difusão foi substituída pela economia da atenção.
Desse modo, a publicidade e a propaganda podem ser precisamente dirigidas. Não se produz mais um discurso único e amplo. O que se faz é segmentar públicos, testar narrativas em pequenos grupos, medir o engajamento gerado e escalar aquilo que funciona. A desinformação eleitoral da extrema direita segue exatamente esse padrão. É testada, ajustada e distribuída por meio de sistemas de microtargeting, redes de bots e operadores da “guerra política digital”, indústria que atravessa fronteiras nacionais e movimenta somas consideráveis de dinheiro.
Esse é o ponto central que sublinho: a desinformação nas eleições atuais não tem sido produzida por pessoas comuns equivocadas, enganadas por notícias falsas isoladas. Ela resulta de engenharia de modulação eleitoral concebida por consultores e especialistas, financiados por fortunas privadas e amplificada pela arquitetura de atenção das próprias plataformas. Ela tem nome, endereço, contrato e conta bancária. O caso do consultor argentino Fernando Cerimedo talvez seja o retrato mais nítido, e mais escandaloso, dessa engenharia em operação na América Latina.
Cerimedo: a fábrica de desinformação em ação
Fernando Cerimedo é dono do portal La Derecha Diario e atuou como estrategista digital nas campanhas de Javier Milei, na Argentina, aproximando-se também de Jair Bolsonaro e Eduardo Bolsonaro no Brasil. Em 2022, após o segundo turno das eleições presidenciais brasileiras, Cerimedo realizou transmissão ao vivo na qual apresentou suposto dossiê contendo fraudes nas urnas eletrônicas do Brasil. O documento sem qualquer comprovação técnica, desmentido pelo Tribunal Superior Eleitoral e pela imprensa especializada, circulou amplamente entre apoiadores do bolsonarismo, alimentando o imaginário golpista que desembocaria nos atos de 8 de janeiro de 2023.
Em campanha para Milei, o próprio Cerimedo admitiu publicamente, em entrevista ao jornal argentino La Nación, recorrer a “fazendas de trolls” para engajar seu candidato e atacar adversários. Não se trata de opinião pública espontânea: trata-se de linha de produção de conteúdo, coordenada para simular organicidade e produzir a sensação de consenso onde não há. A desinformação é fabricada em quantidade suficiente para gerar sensação de caos informacional. Mesmo as pessoas mais atentas ficam confusas, sem saber em que acreditar.
Em agosto de 2026, o nome de Cerimedo voltou às manchetes de forma dramática: ele foi preso na Bolívia, suspeito de ser o mandante de atentado a tiros contra a advogada e ativista boliviana Nadia Beller, sua ex-companheira, que sobreviveu fingindo estar morta. Nas buscas realizadas em imóveis ligados a ele, a polícia boliviana encontrou “fazenda de bots” em funcionamento e apreendeu valores expressivos em diferentes moedas. Cerimedo também responde por acusações de enriquecimento ilícito, lavagem de dinheiro e tráfico ilegal de ouro.
O mais relevante para a nossa análise, contudo, não é o crime pessoal que lhe é imputado, mas a rede política e tecnológica que o caso expôs. Segundo reportagem do The Economist, Cerimedo é sócio de negócios de Brad Parscale, ex-gestor da campanha de Donald Trump em 2020, e foi descrito pela publicação britânica como o homem do MAGA (Make America Great Again) na América Latina. De acordo com investigações jornalísticas, Milei pagava a Cerimedo até US$ 800 mil mensais para operar campanhas de desinformação digital em seu favor. O mesmo operador é apontado como fio condutor entre a extrema direita argentina, o entorno de Bolsonaro no Brasil, o governo boliviano de Rodrigo Paz e o círculo político de Donald Trump nos Estados Unidos, configurando rede transnacional de modulação eleitoral de extrema direita.
O caso Cerimedo não é um escândalo de crônica policial. É a evidência empírica de uma estratégia e de uma estrutura. O que foi exposto é a existência de uma indústria da desinformação política, com operadores especializados, tecnologia de segmentação de públicos, financiamento robusto e trânsito fluido entre diferentes países, todos articulados por uma mesma agenda de extrema direita. A modulação da opinião pública deixou de ser conduzida somente pelos algoritmos das plataformas. Sua operação é construída e gerenciada por consultores que buscam acionar esses sistemas algorítmicos das Big Techs para produzir efeitos eleitorais específicos.
Tecnofascismo: doutrina de bilionários do Vale do Silício
Esse fenômeno latino-americano não pode ser compreendido isoladamente das transformações ideológicas em curso no coração do capitalismo de plataforma: o Vale do Silício. Em abril de 2026, a Palantir Technologies, empresa de análise de dados fundada por Peter Thiel e dirigida por Alex Karp, cujos softwares sustentam operações do ICE nos Estados Unidos e sistemas de vigilância utilizados por Israel, publicou em suas redes resumo de 22 pontos do seu livro A República Tecnológica (2025). O documento, que rapidamente ficou conhecido como “Manifesto Tecnofascista”, afirma que a elite de engenharia do Vale do Silício tem dever moral de participar da defesa dos Estados Unidos, que os valores humanistas liberais se tornaram obsoletos, que será necessário preparar soluções de IA para a guerra, além de realizar a defesa supremacista da cultura dos EUA.
Alex Karp, escreveu no resumo, nomeado de Manifesto Tecnofascista: “Os limites do soft power, da retórica eloquente por si só, foram expostos. A capacidade de sociedades livres e democráticas prevalecerem exige algo mais do que apelo moral. Exige poder coercitivo, e o poder coercitivo neste século será construído sobre software.” Ao publicar esse manifesto no canal oficial da Palantir no X, ex-Twitter e agora dominado por Elon Musk, Alex Karp e sua corporação realizam chamado à formação de um EUA autoritário sustentado pelo desenvolvimento de sua capacidade de vigilância tecnológica e poder letal. O manifesto, aplaudido pelo Vale do Silício, é expressão pública da aliança entre o capital financeiro tecnológico e a extrema direita, fundada não apenas na violência tradicional, mas na vigilância digital, na análise massiva de dados e na modulação e manipulação da opinião pública, com expressão mais evidente no trumpismo.
Não é coincidência que esse mesmo núcleo de bilionários, Peter Thiel, Alex Karp, Elon Musk e outros nomes ligados ao movimento de “aceleracionismo efetivo” e ao “tecno-otimismo”, tenha investido pesadamente em campanhas eleitorais de extrema direita ao redor do mundo, ao mesmo tempo em que constrói a infraestrutura tecnológica de vigilância que hoje serve à administração Trump. A Palantir, segundo diversas reportagens internacionais, tornou-se peça central da máquina de deportação do ICE e mantém contratos bilionários com o governo americano, além de vínculos operacionais com o aparato de inteligência de Israel.
O tecnofascismo é doutrina em formação, que combina o mais avançado aparato de coleta e processamento de dados pessoais com visão de mundo autoritária, que despreza a deliberação democrática e celebra a concentração de poder tecnocrático nas mãos de poucas corporações e de seus proprietários. A desinformação eleitoral, nesse quadro, deixa de ser efeito colateral e passa a ser compreendida como ferramenta funcional a esse projeto: ela desorganiza o debate público, mina a confiança nas instituições eleitorais e cria terreno fértil para líderes que prometem, eles mesmos, romper com os “entraves” da democracia liberal, exatamente o roteiro seguido por Cerimedo em relação às urnas eletrônicas brasileiras e por outros operadores em campanhas na Argentina, na Bolívia e em outros países da região.
Modulação, extrema direita e a arquitetura da atenção
As plataformas de relacionamento on-line não criam os discursos que nela circulam. Quem produz o conteúdo são seus usuários, sejam eles pessoas, corporações ou operações políticas coordenadas. O que as plataformas fazem, por meio de seus sistemas algorítmicos, é distribuir, filtrar e destinar esses discursos a segmentos específicos, de acordo com critérios de impacto e engajamento. Para modular, não é necessário criar mentira: basta encontrá-la, ou fabricá-la uma única vez, e destiná-la, por meio de anúncios pagos, redes de bots e comunidades fechadas, aos públicos mais suscetíveis a acreditar nela e a replicá-la.
É assim que operadores como Cerimedo funcionam: não como jornalistas ou como líderes de opinião, mas como técnicos da modulação, capazes de identificar o agente modulável, construir seu perfil comportamental e endereçar a mensagem certa ao público certo, no momento eleitoral certo. A «fazenda de bots” encontrada em seus imóveis na Bolívia não é curiosidade policial: é a materialização concreta do estágio de “acompanhamento cotidiano” do processo de modulação, aquele que garante que o conteúdo desinformativo seja replicado de forma constante e aparentemente orgânica.
A monetização das plataformas, aliada à lógica do espetáculo, faz o resto: conteúdos falsos, por serem mais chocantes e mais compartilháveis, tendem a gerar mais engajamento do que a informação verificada e sóbria, produzindo lucro para as próprias corporações que hospedam essas operações. A extrema direita descobriu e vem aperfeiçoando ano após ano essa vulnerabilidade estrutural do modelo de negócios das big techs e passou a tratá-la como ativo estratégico de campanha, com orçamento, metas e prestação de contas, como demonstram os valores mensais que Cerimedo recebia de Milei.
Urgência da regulação democrática
Em Democracia e os Códigos Invisíveis, sustentei que os sistemas algorítmicos só poderão servir à democracia se forem transparentes e governáveis. Invisíveis, ocultos ou obscuros, eles não podem ser socialmente auditados e, portanto, não podem ser democraticamente controlados. O caso Cerimedo e o chamado Manifesto Tecnofascista da Palantir são exatamente a confirmação prática dessa tese: de um lado, operadores que exploram a opacidade dos algoritmos de distribuição de conteúdo para modular eleições inteiras; de outro, os próprios donos da infraestrutura tecnológica anunciando, com todas as letras, que pretendem subordinar a política à lógica de dominação corporativa e militar, dispensando os “entraves” do humanismo liberal e da deliberação democrática.
Além disso, os sistemas automatizados chamados de IA generativa, controlados pelo Vale do Silício, permitem criar com facilidade imagens, cenas e diálogos sonoros ficcionais. Assim, temos o deep fake, a criação de vídeos e áudios hiperrealistas, mas que foram criados sinteticamente pela IA. As autoridades eleitorais temiam que essa técnica piorasse o cenário de desinformação eleitoral. Sem dúvida, forjar situações que não existiram com imagens contundentes ainda pode ocorrer, mas o que mais preocupa os pesquisadores que acompanham as big techs é que elas utilizem seus chats para induzir o eleitorado a votar em candidaturas da extrema direita. Imagine na véspera das eleições, uma pessoa que não acompanha a política perguntando ao chat de um Grande Modelo de Linguagem (GPT, Claude, Gemini, Grok, etc.) em quem deve votar para Senador ou qual o melhor candidato ao Senado.
Diante desse quadro, não basta a indignação moral. É preciso retomar a agenda da regulação democrática das plataformas digitais e dos sistemas algorítmicos de relevância pública. Isso significa, entre outras medidas: garantir a transparência do modelo e do código-fonte dos sistemas de recomendação e distribuição de conteúdo político; assegurar o conhecimento aberto de seus parâmetros, finalidades e operações; expor quais bancos de dados alimentam os perfis eleitorais; instituir mecanismos de auditoria externa permanente; criar prazos e procedimentos para correção de vieses antidemocráticos; e, sobretudo, nomear responsáveis, humanos, identificáveis e responsabilizáveis pela operação algorítmica e por suas consequências políticas. “Foi o algoritmo” não pode seguir sendo desculpa aceitável, tampouco pode seguir sendo desculpa aceitável a alegação de que desinformação é obra de agentes isolados e não de uma indústria política organizada.
O neoliberalismo, em sua fase atual, rompeu com a democracia e se associou abertamente com o tecnofascismo dos bilionários do Vale do Silício. Unidos, resistem a qualquer proposta de regulamentação, sob o argumento de que caberia apenas ao mercado desenvolver e operar essas tecnologias. Mas é justamente essa recusa em regular que permite a proliferação de caixas-pretas, de fazendas de bots, de dossiês fraudulentos sobre urnas eletrônicas e de manifestos que dispensam a própria ideia de democracia. Se quisermos preservar minimamente a possibilidade de eleições livres, informadas e disputadas em condições de igualdade, será preciso disputar, com a mesma intensidade com que a extrema direita disputa os algoritmos, o direito da sociedade de conhecer, auditar e regular as estruturas invisíveis que hoje decidem o que vemos, o que sentimos e, cada vez mais, em quem votamos.
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