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Como desastres socioambientais afetam a saúde mental de populações, e o que pode ser feito para mitigar o problema

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Estudo apresenta a mais abrangente revisão sobre saúde mental global desde o início do século e aponta que as pessoas em países mais pobres são as mais afetadas e com menos chance de serem tratadas devido à falta de serviços adequados. Enquanto isso, estes também são os países mais afetados pelos impactos das mudanças climáticas

O rompimento da barragem de rejeitos da mineradora Samarco causou uma enxurrada de lama que inundou várias casas no distrito de Bento Rodrigues, em Mariana, Minas Gerais (Foto: Rogério Alves/TV Senado)

Por Ana Rojas Acosta e Ariel Pontes*

Desafios globais como desigualdade social, epidemias, conflitos armados e a crise climática têm impactado a saúde mental das pessoas no Brasil e no mundo, conforme estudo do ano passado da Organização Mundial da Saúde (OMS). O estudo, que apresenta a mais abrangente revisão sobre saúde mental global desde o início do século, aponta que as pessoas em países mais pobres são as mais afetadas e com menos chance de serem tratadas devido à falta de serviços adequados. Enquanto isso, estes também são os países mais afetados pelos impactos das mudanças climáticas.

Somente no Brasil, recentemente, vivemos uma seca severa na Amazônia, ondas de calor, fortes chuvas, entre outros desastres. Isto, somado a outros problemas sociais e econômicos, por exemplo, contribuem para desencadear problemas de saúde mental na população.

Neste contexto, é fundamental que os países estejam mais preparados para lidar com os desafios globais, principalmente com as mudanças climáticas, e preservar a saúde das pessoas. Uma maneira é investir em sistemas de alerta para mitigar os impactos destes desastres, particularmente, expandir a iniciativa “Alerta Precoce para Todos”, da Organização das Nações Unidas (ONU), da qual o relatório de impacto foi divulgado durante a 28ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP28).

Relação entre desastres socioambientais e saúde mental

Um estudo conduzido na Austrália e publicado na revista científica The Lancet Planetary Health destaca que a perda total ou parcial de residências devido a eventos climáticos extremos está intimamente relacionada aos impactos adversos na saúde física e mental das pessoas afetadas.

Enquanto algumas enfrentam o sofrimento pela perda material, outras lidam com a necessidade de realocação e as consequências da insegurança habitacional. Assim, essas pessoas vivenciam a perda de vitalidade e restrições nas atividades diárias devido aos desafios emocionais, o que, por sua vez, repercute na saúde mental. O estudo também conclui que as pessoas em situação de vulnerabilidade são as mais afetadas por essas perdas.

A saúde mental é influenciada por diversos fatores, não se limitando apenas a aspectos socioeconômicos, mas também a elementos que perpetuam desigualdades sociais. Emprego, educação, habitação, urbanização e cultura desempenham papéis cruciais no bem-estar psicológico. O acesso pleno aos serviços públicos e a garantia de direitos são igualmente fundamentais.

Isso evidencia que indivíduos em situação de vulnerabilidade estão mais propensos a desenvolver transtornos mentais. Além disso, grupos como jovens, mulheres, pessoas com transtornos mentais preexistentes e profissionais de saúde são especialmente impactados em termos de saúde mental por desastres socioambientais. A estigmatização social em torno dos transtornos mentais também se apresenta como um desafio.

A fragilidade da saúde mental durante eventos climáticos extremos e situações vulneráveis destaca a necessidade de uma estratégia abrangente. Essa abordagem deve promover a saúde mental, prevenir problemas mentais, reduzir discriminação e violações de direitos humanos, atendendo às necessidades específicas de grupos vulneráveis ao longo da vida. A iniciativa “Alerta Precoce para Todos” da ONU emerge como um potencial crucial para mitigar os impactos desses eventos na saúde da população.

“Alerta Precoce para Todos” e a COP-28

A iniciativa “Alerta Precoce para Todos” foi lançada em 2022 pela ONU com o chamado para que cada pessoa na Terra seja protegida contra eventos climáticos extremos por meio de sistemas de alerta precoce até 2027. Os eventos abrangem terremotos, tsunamis, ciclones, inundações e incêndios, e toda pessoa, independentemente de sua localização geográfica ou condição socioeconômica, deve ser atendida pelos sistemas.

Diante da iminente elevação de 2,8 graus na temperatura global, torna-se imperativo adotar medidas proativas, como os “Alertas Precoces para Todos”. O Relatório Unidos pela Ciência 2023, da ONU, destaca uma previsão alarmante: até 2030, mais de 670 milhões de pessoas enfrentarão a ameaça da fome devido às mudanças climáticas. Além disso, há o adoecimento mental relacionado com os impactos destas mudanças. Conforme dados da OMS, cerca de 1 bilhão de pessoas viviam com transtornos mentais em 2019, incluindo aproximadamente 14% de adolescentes.

A COP-28, realizada de 30 de novembro a 12 de dezembro de 2023 em Dubai, representou uma oportunidade estratégica para ampliar esta iniciativa. Durante a conferência, foi apresentado o relatório “Status global dos Sistemas de Alerta Precoce de Múltiplos Perigos em 2023”.

No primeiro ano da iniciativa, 101 países declararam ter um sistema de alerta precoce, incluindo o Brasil. Apesar de não representar um aumento significativo em relação ao ano anterior, com apenas mais seis países, o número é o dobro do relatado em 2015, antes da implementação desta iniciativa.

Além disso, mais países anunciaram o investimento de recursos para ampliar a cobertura de sistemas de alerta, como Dinamarca, Suécia e França. O objetivo principal na COP28 foi o de fortalecer o compromisso global em direção à segurança e resiliência, especialmente para as populações menos favorecidas. Um sistema de alerta eficiente não apenas pode mitigar os impactos negativos dos eventos climáticos extremos, mas também oferece informações precisas e oportunas para preparação e prevenção.

Oportunidades frente aos desafios

Ao destacar a relação entre os eventos climáticos extremos, sistemas de alerta precoce, saúde mental e resiliência da população, a COP28 buscou acelerar medidas transformadoras. O foco esteve na promoção de um compromisso eficaz para enfrentar desafios climáticos, de modo que considerou as populações mais vulneráveis. Esta abordagem é necessária para a construção de um futuro mais seguro e resiliente para todos.

Apesar dos desafios persistentes, a COP-28 estimulou e acelerou algumas ações colaborativas. Sob a liderança da ONU, os países devem buscar assegurar o acesso universal a informações precisas e oportunas, permitindo preparação e ações preventivas para mitigar possíveis danos. No contexto dos “Alertas Precoces para Todos”, é crucial impulsionar a colaboração global entre diversos atores, como organizações internacionais, ONGs, setor privado, instituições acadêmicas e agências multilaterais. A participação efetiva dos governos e instituições nacionais é igualmente crucial. Por fim, a cooperação eficaz entre essas partes é essencial para enfrentar os desafios dos alertas precoces para todos, contribuindo para a conquista da justiça climática global.


*Ana Rojas Acosta é assistente social e professora na Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP)

Ariel Pontes é psicóloga e mestranda do Programa de Pós-graduação Psicossociologia de Comunidade e Ecologia Social, Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)


Este texto é uma republicação do site The Conversation sob uma licença Creative Commons. Leia o artigo original


Artigos e comentários de autores convidados não refletem, necessariamente, a opinião da revista Interesse Nacional

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