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Daniel Buarque: Livro revela como exposição de arte ajudou a promover o Brasil no exterior durante a Segunda Guerra Mundial

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Décadas antes de os conceitos de diplomacia pública e soft power serem desenvolvidos, diplomacia brasileira já agia para projetar uma imagem positiva do país e tentar conquistar prestígio. Obra do diplomata Hayle Melim Gadelha discute como uma mostra de arte brasileira no Reino Unido avançou nesse sentido

Obra de Portinari na capa do livro sobre a exposição de arte brasileira no Reino Unido durante a Segunda Guerra Mundial (Foto: Divulgação)

Por Daniel Buarque*

No meio da guerra, o Brasil mandou sua arte para o front. 

Por mais que a participação da Força Expedicionária Brasileira no conflito na Itália seja conhecida como um dos principais esforços do país na tentativa de construir um lugar de destaque no mundo durante a Segunda Guerra Mundial, houve também um importante e pouco conhecido esforço de diplomacia pública na Europa no mesmo período. Além de armas e soldados, o país enviou 168 obras para uma exposição de arte moderna que cruzaria o Reino Unido promovendo uma imagem positiva do país.

A exposição percorreu o país entre outubro de 1944 e setembro de 1945 mostrando obras doadas por 70 dos mais reconhecidos pintores modernistas brasileiros, incluindo Candido Portinari, Emiliano Di Cavalcanti, Lasar Segall e Tarsila do Amaral. Tratava-se da maior coleção enviada ao exterior até então, e ainda hoje a mais marcante mostra de arte brasileira já exibida no Reino Unido. 

Esta importante ação diplomática ganha o devido tratamento agora com o livro Public Diplomacy on the Front Line, escrito pelo diplomata Hayle Melim Gadelha (que também é colunista da Interesse Nacional). A obra reconstrói esta iniciativa pouco conhecida e discute por que a empreitada foi entusiasticamente defendida pelo Ministério das Relações Exteriores na época. 

‘A exposição fazia parte de um amplo esforço diplomático lançado pelo Brasil durante a guerra com o objetivo de aumentar seu prestígio e status internacionais após o conflito global’

Segundo Gadelha, a exposição fazia parte de um amplo esforço diplomático lançado pelo Brasil durante a guerra com o objetivo de aumentar seu prestígio e status internacionais após o conflito global. Décadas antes da criação dos conceitos de diplomacia pública e soft power, o Brasil foi capaz de conceber e executar uma iniciativa alinhada com práticas comuns no século XXI.

Ao remontar ao início do uso da diplomacia pública pelo governo brasileiro na década de 1940, o livro inova na abordagem de como o Brasil tentou se projetar para o mundo e contribui tanto para a compreensão da importância do status e da imagem para o país quanto para a pesquisa acadêmica sobre diplomacia pública. Ele esclarece como a diplomacia pública foi usada no passado e como a diplomacia do Brasil há muito se concentra em aumentar o prestígio internacional do país.

‘A diplomacia brasileira buscou fazer o país ser percebido como um igual pelas nações vitoriosas’

Para ser reconhecida como uma potência global capaz de moldar conjuntamente o concerto emergente e definir a agenda do pós-guerra, diz Gadelha no livro, a diplomacia brasileira buscou fazer o país ser percebido como um igual pelas nações vitoriosas. Para isso, via como urgente transformar a sua imagem internacional, que era muito limitada, estereotipada e algo depreciativa. “A exposição foi, portanto, um componente cultural inovador e proposital da campanha de diplomacia pública do Brasil, que visava projetar uma imagem de um país moderno, em sintonia com os valores ocidentais predominantes”, diz.

Isso está bem alinhado com os estudos mais recentes sobre a diplomacia pública brasileira, que mostram que ela deve ser compreendida no contexto da busca histórica do país por prestígio internacional e por uma imagem positiva no resto do mundo. Desde antes de o país se tornar independente, projetar uma imagem internacional forte tem sido uma prioridade para o Brasil, e isso se refletiu em um esforço contínuo não apenas para se envolver com outras nações, mas também para estabelecer contato com o público estrangeiro, a fim de garantir que o Brasil fosse capaz de influenciar as percepções externas sobre o país. 

O livro indica ainda que o esforço foi bem-sucedido e a exposição atingiu os seus objetivos, atraindo um grande público (incluindo a rainha Elizabeth), garantindo ampla cobertura mediática e estabelecendo laços duradouros com a sociedade britânica. 

O que fica menos claro é o legado de longo prazo da exposição. Até hoje o Brasil está longe de conquistar reconhecimento como uma das grandes potências do mundo, e é curioso pensar que a sua imagem internacional é muito mais associada a elementos artísticos e culturais do que a sua capacidade de poder bruto (econômico e militar). Segundo Gadelha, o legado da exposição poderia ter durado mais tempo, se as prioridades da política externa do Brasil não tivessem mudado após a Segunda Guerra Mundial.


*Daniel Buarque é editor-executivo do portal Interesse Nacional, doutor em relações internacionais pelo programa de PhD conjunto do King’s College London (KCL) e do IRI/USP. É jornalista, tem mestrado em Brazil in Global Perspective pelo KCL e é autor dos livros “Brazil, um país do presente” (Alameda) e “O Brazil É um País Sério?” (Pioneira).


Artigos e comentários de autores convidados não refletem, necessariamente, a opinião da revista Interesse Nacional

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