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Karina Stange Calandrin: A dança errática da diplomacia brasileira

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Lula e o Itamaraty adotam postura ambígua e contraditória ao tratar de crises internacionais como as guerras na Ucrânia e em Gaza e a tensão na Guiana. Para professora, a busca por uma diplomacia mais alinhada com princípios éticos é vital para enfrentar os desafios globais e posicionar o Brasil como um agente construtivo na cena internacional

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva discursa na abertura da Assembleia Geral das Nações Unidas (Foto: Ricardo Stuckert / PR)

Por Karina Stange Calandrin*

A análise da política externa brasileira diante dos conflitos internacionais que marcam a atualidade revela uma dança complexa e, por vezes, contraditória. Três cenários específicos – Rússia/Ucrânia, Israel/Gaza e Venezuela/Guiana – ilustram a dificuldade do governo brasileiro em adotar uma posição clara e enérgica, especialmente quando esses embates envolvem aliados estratégicos. Além disso, a figura do presidente Luiz Inácio Lula da Silva destaca-se como um elemento que, muitas vezes, adiciona um tom mais problemático às declarações, em comparação com as posturas mais comedidas adotadas por seus ministros e pelo Ministério das Relações Exteriores, o Itamaraty.

No epicentro do embate russo-ucraniano, o Brasil se vê em uma encruzilhada. Enquanto a comunidade internacional se divide entre condenações e apoio, com destaque para os Estados Unidos e seus aliados mais próximos condenando veementemente a Rússia, impondo sanções duras, o governo brasileiro opta por uma abordagem ambígua, evitando uma posição definitiva.

‘A busca por equilíbrio entre interesses nacionais e princípios éticos levanta questionamentos sobre a consistência da diplomacia brasileira e sua capacidade de exercer influência’

A hesitação em criticar as ações da Rússia revela uma priorização pragmática, uma vez que o país figura como um parceiro estratégico em setores como energia e defesa, e é membro original do Brics, grupo que o Brasil integra. No entanto, essa busca por equilíbrio entre interesses nacionais e princípios éticos levanta questionamentos sobre a consistência da diplomacia brasileira e sua capacidade de exercer influência de maneira efetiva no cenário internacional.

No teatro do conflito Israel/Gaza, a postura histórica do Brasil em criticar as ações do governo israelense, sem chamar o grupo Hamas de terrorista, e até mesmo equiparando as ações do grupo com as de Israel, eleva o tom das críticas à postura brasileira. Neste contexto, a postura do Brasil revela uma crítica contundente a Israel, que, por sua vez, foi alvo do grupo Hamas no que foi considerado o maior ataque terrorista da história do país.

‘A hesitação em adotar uma posição mais robusta sugere as dificuldades inerentes à busca por uma diplomacia equilibrada em meio a conflitos tão intricados’

Esta dinâmica complexa desafia a diplomacia brasileira a encontrar um equilíbrio entre a condenação das ações do governo israelense e o reconhecimento dos desafios de segurança enfrentados por Israel em meio a ataques sofridos. A hesitação em adotar uma posição mais robusta sugere as dificuldades inerentes à busca por uma diplomacia equilibrada em meio a conflitos tão intricados. O desafio reside não apenas em criticar a resposta israelense, mas em compreender a complexidade do cenário que envolve o papel do Hamas como agente desestabilizador na região.

No cenário do conflito Venezuela/Guiana, observa-se uma relutância notável do Brasil em condenar de maneira mais veemente as ações da Venezuela, que tem ameaçado invadir a Guiana, buscando anexar parte de seu território. Esta situação delicada demanda uma abordagem cuidadosa da diplomacia brasileira, que se vê pressionada a equilibrar interesses regionais, considerações ideológicas e o respeito à soberania das nações envolvidas.

‘A hesitação levanta questões sobre a capacidade do Brasil de atuar como mediador em situações de tensão fronteiriça, preservando seus princípios diplomáticos fundamentais’

A hesitação em adotar uma posição mais contundente não apenas revela a complexidade das relações na América Latina, mas também levanta questões sobre a capacidade do Brasil de atuar como mediador em situações de tensão fronteiriça, preservando ao mesmo tempo seus princípios diplomáticos fundamentais. Essa relutância em condenar a Venezuela de maneira mais incisiva destaca os desafios inerentes à busca por uma posição clara e consistente em meio a conflitos geopolíticos complexos.

Em meio a essas oscilações diplomáticas, as declarações do presidente Lula frequentemente adicionam um elemento de imprevisibilidade. Suas falas muitas vezes contradizem as abordagens mais moderadas adotadas por seus ministros. Essa discordância interna na comunicação do governo contribui para a imagem de uma política externa brasileira errática e, por vezes, contraditória.

Para compreender plenamente a complexidade desses cenários, é crucial considerar não apenas as posições oficiais, mas também os bastidores diplomáticos e as implicações econômicas e estratégicas envolvidas. A análise aprofundada desses elementos permite uma visão mais abrangente da diplomacia brasileira e destaca a necessidade premente de uma abordagem mais consistente e fundamentada em princípios éticos no cenário global.

Em última análise, o Brasil se encontra em um momento crucial em sua trajetória diplomática. A manutenção de parcerias estratégicas não pode ocorrer à custa da abdicação de valores fundamentais. A retórica ambígua e as hesitações seletivas comprometem não apenas a credibilidade do país, mas também sua capacidade de influenciar positivamente os rumos da comunidade internacional.

Em um mundo cada vez mais interconectado e desafiador, a coerência e a determinação na política externa são essenciais para a construção de um papel mais significativo do Brasil no palco internacional. A busca por uma diplomacia mais alinhada com princípios éticos, aliada a uma análise profunda dos contextos específicos, é vital para enfrentar os desafios globais e posicionar o Brasil como um agente construtivo na cena internacional.


*Karina Stange Calandrin é colunista da Interesse Nacional, professora de relações internacionais da Uniso, pesquisadora de pós-doutorado do Instituto de Relações Internacionais da USP, doutora em relações internacionais pelo PPGRI San Tiago Dantas (Unesp, Unicamp e PUC-SP) e assessora acadêmica do Instituto Brasil-Israel.


Artigos e comentários de autores convidados não refletem, necessariamente, a opinião da revista Interesse Nacional 

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