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Mais de 10 mil sítios arqueológicos pré-colombianos estão escondidos na Amazônia

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A Amazônia foi o lar de sociedades complexas que souberam utilizar a floresta sem destruí-la, modificando a geografia e a biodiversidade do território para sustentar suas vidas. Em face da necessidade de preservar a Floresta Amazônica, dada sua influência nos padrões climáticos regionais e globais, a compreensão da gestão adotada por essas sociedades pré-colombianas poderia contribuir significativamente para o desenvolvimento da atual bioeconomia

O sítio arqueológico de Teso dos Bicho, na ilha de Marajó (Foto: Elilopes/CC)

Por Vinicius Peripato*

A Amazônia, a floresta mais diversa do mundo e também o maior reservatório de carbono tropical, é ocupada por sociedades indígenas há mais de 12 mil anos, mas a extensão desta ocupação e a influência dessas sociedades na composição florestal que contemplamos (e desmatamos) ainda era incerta. Nosso novo estudo publicado na revista Science, lançou luz sobre esta questão, encontramos 24 novos sítios arqueológicos e estimamos que pelo menos 10 mil ainda não tenham sido encontrados.

O estudo foi liderado por mim e assinado por uma equipe de 230 pesquisadores de 156 instituições de 24 países e quatro continentes. Nós combinamos o uso de 1) tecnologia de ponta em sensoriamento remoto para identificar sítios arqueológicos abaixo da floresta, 2) modelagem estatística bayesiana para estimar sítios arqueológicos que ainda podem estar escondidos na floresta e 3) regressão linear com milhares de dados de parcela florestal (a área delimitada da floresta para fins de pesquisa) para identificar as espécies arbóreas domesticadas por esses povos pré-colombianos.

Sítios arqueológicos na Amazônia

Estes sítios arqueológicos são chamados de “obras de terra”, um termo que abrange os mais variados tipos de estruturas construídas na Amazônia, como geoglifos, assentamentos fortificados, montanhas coroadas, monumentos megalíticos, poços e lagoas. As “obras de terra” são estruturas formadas por valetas ou muretas de terra, com cerca de 4 metros de altura, aproximadamente 15 metros de largura e até 200 metros de diâmetro.

Os 24 novos sítios arqueológicos foram identificados por meio de uma tecnologia avançada de mapeamento remoto que possibilita a visão através da floresta. A tecnologia LiDAR (em inglês: Light Detection and Ranging) permite a reconstrução em 3D da superfície e a remoção digital da vegetação.

Essas descobertas em ambientes preservados abrem significativas oportunidades para pesquisas sobre as antigas civilizações amazônicas, com resultados promissores nas áreas da arqueologia, antropologia e ecologia. A capacidade de estudar a floresta, adquirir conhecimento sobre o manejo do solo e investigar a composição das espécies arbóreas nessas regiões representa um avanço notável, assim como a quantidade de bens arqueológicos que podem ser recuperados.

Portanto, outro passo crucial na pesquisa consistiu em identificar os locais e estimar quantas outras “obras de terra” ainda podem ser encontradas na Amazônia. A abordagem estatística Bayesiana utilizada, ao combinar as novas descobertas com as estruturas já catalogadas (totalizando 961 até aquele momento), possibilitou uma análise de regressão precisa para estimar o número de “obras de terra” pré-colombianas ainda a serem descobertas. Com isso, o nosso estudo aponta que a Amazônia pode abrigar entre 10.000 e 23.000 dessas estruturas, concentradas em menos de 10% da floresta. Isso também ressalta que os sítios arqueológicos já documentados na Amazônia até o presente momento representam apenas de 4% a 9% do total possível.

Devido à vastidão da floresta amazônica e às dificuldades associadas ao estudo de áreas remotas, este estudo apresenta previsões passíveis de serem testadas em relação a locais pouco conhecidos da Amazônia. É provável que novas expedições de campo encontrem sítios arqueológicos de dimensões monumentais, bem preservados dentro da floresta.

Relação com as espécies arbóreas

O estudo também contou com o apoio da Amazon Tree Diversity Network (Rede de Diversidade de Árvores da Amazônia), a maior rede de coleta de dados de parcelas florestais na Amazônia. A partir de milhares de conjuntos de dados de parcelas, os pesquisadores identificaram as espécies arbóreas associadas à presença desses sítios arqueológicos. Isso sugere que várias espécies foram intencionalmente cultivadas próximas aos assentamentos para fornecer alimento e outros recursos. Hoje, muitas dessas espécies são dominantes em toda a floresta e estão frequentemente relacionadas a qualquer tipo de ocupação indígena, não apenas às “obras de terra”. Isso se aplica a espécies como a castanha-do-pará (Bertholletia excelsa), a macaúba (Acrocomia aculeata), o araticum (Annona montana), a pupunha (Bactris gasipaes), o açaí (Euterpe oleracea) e muitas outras.

Além de sugerir que a Amazônia pode não ser tão intocada quanto muitos supõem, a identificação dessas espécies arbóreas abre portas para outras abordagens na busca por novos sítios arqueológicos. Mesmo ao considerarmos apenas áreas com alta probabilidade, a vastidão da floresta torna o levantamento de dados LiDAR inviável em termos de aquisição operacional e recursos computacionais. Uma abordagem possível, por exemplo, é o uso de sensores ópticos de alta resolução espacial para identificar concentrações e abundância dessas espécies arbóreas.

Perspectivas futuras

Embora esta pesquisa se concentre na descoberta de construções históricas, também traz à tona debates contemporâneos relacionados à Amazônia. As inúmeras evidências da ocupação ancestral da floresta amazônica por povos indígenas, seus modos de vida e a relação estabelecida com a floresta contribuem para discussões sobre o marco temporal para a demarcação de terras indígenas. A proteção de seus territórios, línguas, culturas e heranças deve ser compreendida como ancestral, como de fato são, e não deve ser vinculada a uma data, que é tão recente.

A Amazônia foi o lar de sociedades complexas que souberam utilizar a floresta sem destruí-la, modificando a geografia e a biodiversidade do território para sustentar suas vidas. Em face da necessidade de preservar a Floresta Amazônica, dada sua influência nos padrões climáticos regionais e globais, a compreensão da gestão adotada por essas sociedades pré-colombianas poderia contribuir significativamente para o desenvolvimento da atual bioeconomia. O Brasil é, atualmente, uma das maiores potências ambientais do mundo e possui um vasto potencial para a geração de riqueza por meio da bioeconomia.

Nosso estudo é uma descoberta multidisciplinar que produzirá resultados diversos. A gestão da floresta por essas sociedades, a relação que estabeleceram com o ambiente, o comportamento da floresta nessas áreas ao longo dos anos, demonstrando sua resiliência, capacidade de absorção de carbono, biodiversidade, artefatos arqueológicos e conhecimento antropológico, bem como as modificações geográficas que eles introduziram, tudo isso pode levar a desenvolvimentos e desdobramentos científicos imensuráveis.


*Vinicius Peripato é geógrafo, doutorando em sensoriamento remoto no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe)


Este texto é uma republicação do site The Conversation sob uma licença Creative Commons. Leia o artigo original


Artigos e comentários de autores convidados não refletem, necessariamente, a opinião da revista Interesse Nacional

Uma resposta

  1. Temos muito que aprender com povos antigos. Em pouco mais de 500 anos estamos acabando com o que eles em 12000 ou mais preservaram. E ainda que estamos desenvolvendo como seres “humanos”.

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