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Mathias Alencastro: Nova ‘onda rosa’ na América Latina depende do Brasil para se consolidar

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Eleições no Chile, no México, na Argentina e na Bolívia alimentam percepção de crescimento da esquerda na região, mas movimento só vai ter relevância se o Brasil também eleger um governo de esquerda

Campanha chilena por nova constituição (Jose Pereira)

Por Daniel Buarque

A eleição recente de candidatos de esquerda para as Presidências do Chile, do México, da Argentina e da Bolívia alimentam uma discussão sobre o possível ressurgimento de uma “onda rosa” na América Latina. A avaliação faz referência a um movimento de esquerda que dominou vários países do continente na primeira década dos anos 2000. E ganha força com os resultados de pesquisas de intenção de voto na Colômbia e, especialmente, no Brasil. 

Segundo o cientista político Mathias Alencastro, uma vitória da esquerda nas eleições do Brasil neste ano seria fundamental para se confirmar de fato uma onda continental deste tipo. “Uma onda rosa sem o Brasil em 2023 não vai dar em nada. Vai ser uma marolinha”, disse, em entrevista à Interesse Nacional

Em um artigo publicado na Folha de S.Paulo no início de março, Alencastro defendeu que esta atual guinada à esquerda não é igual à que marcou o continente nos anos 2000. Ele citava três características que diferenciavam os dois movimentos: uma geracional, com políticos mais jovens; outra econômica, sem a ajuda de um boom de commodities igual ao do passado; e uma última ligada à forma como a esquerda vê o futuro do continente.

Reportagem da revista The New Statesman sobre nova ‘onda rosa’ na América Latina

Além de colunista do jornal, Alencastro é doutor pela Universidade de Oxford, pesquisador do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), e professor de relações internacionais na UFABC.

Leia abaixo a entrevista completa

Daniel Buarque – Pode-se falar sobre a existência de uma nova onda de esquerda na América Latina?

Mathias Alencastro – Sim. É uma onda que está em consolidação. A gente tem que lembrar que a primeira onda também se consolidou depois de um ciclo de quatro anos de eleições em vários países. E nesta, temos a Colômbia, que há grandes chances de virar à esquerda, mas ainda não está totalmente certo. Tem obviamente o Brasil, que vai ter uma eleição muito competitiva. E é importante ressaltar que uma onda de esquerda na América Latina sem o Brasil não é realmente uma onda de esquerda no continente. O Brasil traz uma inflexão muito grande, Tanto pelo seu peso econômico e pela sua capacidade de ancorar a região no mundo. Isso é particularmente importante neste momento porque ao contrário do começo dos anos 2000, o sul global está muito mais competitivo. A África está muito mais internacionalizada, com regiões que estão muito competitivas e tirando investimento que normalmente viria para o Brasil. A Ásia nem se fala, pois nos últimos anos ganhou uma estatura enorme. E então, a América Latina, que já está em uma situação de marginalidade por causa das suas incoerências políticas e falta de um projeto amplo dos seus governantes e falta de união. Portanto uma onda rosa sem o Brasil em 2023 não vai dar em nada. Vai ser uma marolinha. Outro elemento fundamental é a africanidade que o Brasil traz para a América Latina, que mesmo todos os outros países do continente juntos conseguem ter uma política africana sem o Brasil.

Daniel Buarque – Acha que o movimento de outros países rumo à esquerda pode ter influência sobre o que vai acontecer no Brasil?

Mathias Alencastro – É possível argumentar que sim, que movimentos regionais têm incidência eleitoral nacional. Esse é o caso na União Europeia, onde há a tendência de governos de direita ajudarem a eleger outros governos de direita. E também é possível argumentar que a eleição de Bolsonaro teve uma incidência na eleição em El Salvador, na eleição do Uruguai, na do Paraguai. Mas também na era uma onda populista só latino-americana, era uma onda global dessa nova direita. Entretanto, sem querer soar muito Brasil-cêntrico, o Brasil pauta tendências mais do que sofre tendências no caso da América Latina. Se você elege um presidente no Brasil, isso reverbera no continente, e as elites nacionais dos países vizinhos adotam uma parte da retórica. No Brasil isso é mais limitado. Sobretudo no campo da esquerda, porque a esquerda brasileira tradicionalmente se reivindica como latino-americana, emulam exemplos e experiências da América Latina. Mas do ponto de vista eleitoral é difícil saber se existe essa incidência. 

Daniel Buarque – Caso o Brasil eleja um presidente de esquerda, consolidando uma onda rosa no continente, qual o potencial desse movimento?

Mathias Alencastro – Acho que o objetivo minimalista é reposicionar a América Latina dentro do sistema internacional, do qual ela foi desconectada nos últimos quatro anos pelo fato de o Mercosul ter sido praticamente desativado e por mudanças na economia global que deixaram a América Latina no canto. Talvez pela primeira vez na história, nos últimos dez anos a África se tornou uma fronteira econômica mais aliciante do que a América Latina. A Ásia atravessou a gente, mas a África também ultrapassou a gente, e a América Latina é a última roda da carroça do sistema internacional. A missão minimalista é fazer a América Latina voltar a ser relevante, voltar a ter presença nas instituições internacionais, a ter voz no diálogo do sul global, essas coisas todas. O objetivo maximalista seria acelerar a integração econômica da região, que é uma missão existencial dessa onda, unificando esses países. Para sobreviver no mundo multipolar com a competição entre China e Estados Unidos, é preciso ter uma região unida, ou ela vai ser destruída. O outro objetivo maximalista é colocar a América Latina como um ponto tanto de defesa dos sistemas democráticos, pois a região tem democracias funcionais que conseguem fazer transições e resistiu a uma onda populista pesada. Defender a democracia na região e no mundo é algo muito nobre que deveria ser encampado. E a questão do clima. A região continua sendo relevante por suas commodities e pode compensar isso com uma política climática um milhão de vezes mais ambiciosa do que a atual. O que une geograficamente nossos países é a Amazônia.

Daniel Buarque – Em um exemplo oposto, caso Bolsonaro seja reeleito e o Brasil não ajudar a consolidar essa onda rosa, como fica a relação do país com esses vizinhos que seguiram o rumo da esquerda?

Mathias Alencastro – Se Bolsonaro for reeleito, é uma tragédia latino-americana. Isso impactaria todos os projetos progressistas do resto do continente. É impossível fazer uma política climática ambiciosa na Colômbia, por exemplo, sem o Brasil. E o Brasil continuaria sendo o que foi nos últimos quatro anos, uma âncora para a região. Ele arrasta. Os países da América Latina não precisam da integração regional para se darem bem. A economia peruana está muito bem nos últimos dez anos, a economia chilena passou por crises, mas conseguiu fazer uma renovação política profunda, a Argentina está seguindo um caminho de integração com a China. O pessoal ta tocando a vida. Se o Brasil desaparecer amanhã, esses países não vão ser arrastados e vão conseguir sobreviver bem. Mas as perspectivas de integração regional são definitivamente abaladas por uma reeleição de um presidente que abomina a região. Ele não acredita nos princípios mais elementares da diplomacia. Então não há perspectiva de integração nenhuma com o Brasil desse jeito.

Daniel Buarque – E que impactos esse afastamento, essa falta de integração regional, pode ter para o Brasil?

Mathias Alencastro – Isso vai ampliar e confirmar a desconexão do Brasil do sistema internacional. Escrevi um capítulo no livro “Reconstrução” em que falo da “jangada brasileira”. É uma referência a à “Jangada de Pedra”, de José Saramago, que trata de uma separação física de Portugal e Espanha da Europa, ficando à deriva. E o Brasil virou uma jangada assim. O Brasil vai se desconectar da América Latina. E essa jangada não faz o Brasil alguém como o Irã ou a Coreia do Norte. Esses países são integrados no sistema internacional, são relevantes estrategicamente tanto para os Estados Unidos, para o Atlântico norte e para a China. O Brasil estaria em um patamar abaixo. O Brasil seria a história inacreditável de uma potência média, de tamanho continental, com mais 200 milhões de pessoas, mas que desaparece do mapa geopolítico. Por vontade própria. É um harakiri.

Daniel Buarque – E como você vê o posicionamento dos Estados Unidos em relação a essa possível onda de esquerda na América Latina?

Mathias Alencastro – Os Estados Unidos não têm escolha a não ser se aproximar dessa nova onda. Primeiro porque a experiência contrária à onda anterior foi catastrófica. Nada pior para os Estados Unidos do que ter governos erráticos. Segundo porque os Estados Unidos sabem que ganham muito tendo uma relação de interesse com o Brasil que, sob um presidente como Lula, possa atuar bem no mundo multipolar. Obviamente haveria tensões, já que o contexto da América Latina mudou radicalmente porque pela primeira vez em 150 anos  os Estados Unidos deixaram de ser o primeiro parceiro comercial da região, ultrapassado pela China. A virada chinesa é uma realidade inevitável. Mas qualquer governo racional do Brasil deve buscar maximizar a posição brasileira num contexto de competição de superpotências na região. 

Os contextos da relação dos Estados Unidos com a América Latina mudam bastante. Esta reaproximação que vemos agora com a Venezuela já sinaliza isso. Este movimento resolve um problema para essa onda de esquerda, para a qual a Venezuela poderia se tornar uma âncora, ou um problema reputacional. O espectro dessa segunda onda de esquerda no continente é muito mais heterogêneo do que o da primeira onda. A diferença ideológica e programática dos governos da primeira onda era menor do que na atual. A diferença entre Boric  e Maduro é muito maior do que a diferença entre Chávez e Bachelet. O papel do Brasil deveria ser sentar o Boric e o Maduro em uma mesa para desenvolver um projeto de continente. Por mais que custe e seja difícil. esta é a única coisa que o Brasil pode fazer. Os Estados Unidos resolveram um problema para o Brasil ao se reaproximarem da Venezuela. Eles resolveram um impasse, um nó que o Brasil precisaria desamarrar, e vai permitir que essa onda possa focar na aproximação entre os países, que é o que realmente importa. 

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