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Sociobioeconomia de floresta em pé: mais que preservação, uma solução econômica viável para desenvolvimento da Amazônia

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Cientistas indicam que a coleta e o manejo sustentável de produtos florestais nativos superam, em termos de lucratividade, a criação de gado ou a monocultura de soja na Amazônia. No entanto, esse potencial econômico ainda é subestimado por empresários e políticos, enquanto a expansão da agropecuária na Amazônia brasileira é assegurada pelos contínuos incentivos do Estado

Açaí fresco após o desembarque no início da manhã no mercado Ver-o-Peso, em Belém, Pará (foto: Joana Oliveira/WRI Brasil)

Por Carlos Nobre, Diego Oliveira Brandão e Julia Arieira*

A Amazônia abriga 13% da biodiversidade global conhecida de plantas vasculares e vertebrados. Só de árvores e palmeiras, estima-se que existam 16 mil espécies. A ocupação Indígena da Amazônia, há cerca de 12 mil anos, resultou na domesticação de dezenas a centenas destas espécies, que ainda estão inseridas nos modos de vida das populações Amazônicas. Espécies nativas como mandioca, pimenta, urucum, castanha do Brasil, cacau e açaí se popularizaram globalmente, evidenciando o poder da biodiversidade e do legado Indígena na Amazônia.

No entanto, a biodiversidade e o legado Indígena na Amazônia estão enfrentando pressões. O desmatamento na região é o mais alto entre as florestas tropicais do planeta, atingindo em média 1,7 milhão de hectares por ano nas últimas duas décadas. As principais atividades econômicas nessas áreas incluem pecuária, monoculturas de soja e milho. Estudos recentes indicam que o desmatamento e as atividades econômicas relacionadas estão ligados a um complexo sistema ilegal de mercado de terras. Da mesma forma, a extração de madeira, quase toda ilegal, está causando uma grande degradação da floresta, tornando-a vulnerável a incêndios florestais.

De fato, a conversão de extensas áreas de floresta pública em terras de produção agropecuária de propriedade privada representa grandes riscos de perda de biodiversidade e de serviços ecossistêmicos, como a reciclagem de chuva e a provisão de alimentos. O desmatamento e a degradação florestal, combinados com as mudanças climáticas globais, estão conduzindo a Floresta Amazônica a um ponto de não-retorno. Isso significa mudanças significativas na Amazônia, tal como a imaginamos e conhecemos hoje, transformando-a em um ecossistema degradado com dossel aberto (o que significa menos proteção da copa das árvores) e menor biodiversidade, com impactos negativos no clima global e nos modos de vida dos Povos Indígenas e comunidades locais.

Há mais de cinco décadas, cientistas observam que a coleta e o manejo sustentável de produtos florestais nativos superam, em termos de lucratividade, a criação de gado ou a monocultura de soja na Amazônia. No entanto, esse potencial econômico ainda é subestimado por empresários e políticos, enquanto a expansão da agropecuária na Amazônia brasileira é assegurada pelos contínuos incentivos do Estado. A lucratividade proveniente da pastagem de gado varia de US$ 50 a US$ 100 por hectare ao ano, enquanto o cultivo de soja apresenta uma faixa de lucro de US$ 100 a US$ 300 por hectare ao ano. Além do mais, a pecuária e a sojicultura algumas vezes sofrem prejuízos devido às oscilações nos preços e a extremos climáticos, como enchentes e secas.

Por outro lado, estudos mostram que aproximadamente 25% das árvores e palmeiras em florestas intactas possuem valor de mercado. Os produtos florestais não-madeireiros coletados nessas florestas têm o potencial de gerar lucros anuais na faixa de US$ 57 a US$ 400 por hectare. Em sistemas agroflorestais (SAFs), o manejo de espécies como açaí, castanha do Brasil, cacau, cupuaçu, mandioca, entre outras, pode resultar em lucros ainda mais expressivos, variando de US$300 a US$700 por hectare ao ano.

Além da maior lucratividade, uma nova sociobioeconomia de floresta em pé pode gerar mais empregos do que a pecuária e a soja na Amazônia. Por exemplo, a cada 100 hectares, a pecuária tem 1 a 2 empregados e a sojicultura, de 0,5 a 1 empregado. Já a restauração florestal com sistemas agroflorestais gera de 20 a 40 empregados a cada 100 hectares, trazendo um amplo benefício às populações Amazônicas.

Prosperidade sem Desmatamento e com Restauração Florestal

É possível alcançar a prosperidade econômica na Amazônia sem recorrer ao desmatamento. A pecuária extensiva e a monocultura de soja esgotam os nutrientes do solo, criando uma falsa demanda por novas áreas desmatadas. A substituição de floresta por pecuária ou soja ainda eleva a temperatura e reduz a chuva na área desmatada. O desmatamento resultou em grande desigualdade na distribuição de terras, violência e uma situação de vulnerabilidade social e climática na região, infelizmente, em vez de ter proporcionado prosperidade econômica.

Cerca de 16 milhões de hectares foram desmatados e abandonados na Amazônia brasileira. Essa área tem o potencial para a agricultura regenerativa e à restauração florestal, o que significa que é possível aumentar a produtividade agrícola e florestal sem a necessidade de desmatar mais florestas.

O investimento médio necessário para a restauração florestal com sistemas agroflorestais varia de US$ 2,500 a US$ 7,000 por hectare, com custos anuais de manejo entre US$ 863 e US$ 1,229 por hectare. Devido à venda de produtos florestais madeireiros, como andiroba e paricá, e não-madeireiros, como frutos, sementes, raízes e resinas, o tempo de retorno do investimento pode variar de 2 a 13 anos.

Em termos de restauração florestal em grande escala, o projeto “Arcos da Restauração” foi lançado pelo Painel Científico para a Amazônia durante a COP27 no Egito em 2022. O projeto tem como objetivo restaurar pelo menos 50 milhões de hectares de terras desmatadas e degradadas que estão presentes no Brasil, Bolívia, Venezuela, Colômbia, Equador e Peru.

Entretanto, cientistas apontam que a restauração florestal em grande escala pode ser mais efetiva ao incluir estratégias de associativismo e cooperativismo, de modo que as tecnologias possam ser empregadas para agregar mais valor aos produtos regionais.

Agregação de Valor aos Produtos Florestais Regionais com a Bioindustrialização

É necessário disponibilizar tecnologia industrial para que os Povos Indígenas e comunidades locais possam transformar produtos primários (sementes, frutos, raízes, resinas, corantes) em itens com mais valor agregado.

Por exemplo, uma infraestrutura com equipamentos de despolpamento, prensagem, filtragem, desidratação, refrigeração e pasteurização viabiliza a produção de óleos, polpas e sementes desidratadas. De fato, esses produtos valem de 2 a 5 vezes mais em comparação aos produtos florestais primários.

Observações de campo feitas entre 2016 e 2018 mostraram que as sementes de andiroba foram vendidas de US$ 0.4 a US$ 2.3 por quilo, enquanto o óleo de suas sementes atingiu valores de US$ 7 a US$ 12.

Os frutos de açaí foram vendidos a preços que variaram de US$ 0.4 a US$ 0.5 por quilo, enquanto a polpa foi comercializada de US$ 2 a US$ 3. No caso da castanha do Brasil, as sementes frescas com casca foram vendidas de US$ 2 a US$ 4 por quilo, enquanto as sementes desidratadas para consumo foram vendidas a US$ 15 por quilo. Esses exemplos demonstram o potencial de agregação de valor aos produtos florestais regionais por meio de tecnologia industrial básica.

Além disso, o estudo de viabilidade financeira realizado pelo projeto Amazônia 4.0 revela que o potencial de valor agregado com uso de tecnologia pode ser ainda mais expressivo. Este é o caso do cacau para produção de chocolate. As sementes desidratadas de cacau geralmente são comercializadas por aproximadamente US$ 2 por quilo, enquanto que o chocolate fino pode atingir valores entre US$ 20 e US$ 40 por quilo. Isso indica que o valor agregado das sementes na produção de chocolate fino pode ser mais de 10 vezes superior em comparação com a venda das sementes desidratadas.

Por isso, cientistas, Povos Indígenas e comunidades locais demandam uma nova abordagem nos usos da terra na Amazônia. Sem desmatamento e degradação florestal, usando a restauração florestal como solução baseada na natureza para afastar a região de um ponto de não-retorno. Nesse processo, a biodiversidade, o legado Indígena, as tecnologias e o comprometimento dos governos Amazônicos e da iniciativa privada desempenham papéis essenciais.


Carlos Nobre é pesquisador colaborador do Instituto de Estudos Avançados, Universidade de São Paulo (USP)

Diego Oliveira Brandão é doutor em ciência do sistema terrestre, Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe)

Julia Arieira é doutora em agricultura tropical, Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT)


Este texto é uma republicação do site The Conversation sob uma licença Creative Commons. Leia o artigo original


Artigos e comentários de autores convidados não refletem, necessariamente, a opinião da revista Interesse Nacional

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