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É presidente do instituto de pesquisas locomotiva e fundador do data favela. É especialista em opinião pública e comportamento de consumo das classes cde. Em 2012, fez parte da comissão que estudou a nova classe média brasileira, na secretaria de assuntos estratégicos da presidência da república

Eleições 2026: o eleitor por trás dos números


Os números das pesquisas eleitorais são acompanhados quase em tempo real. Gráficos ganham as redes sociais, candidatos comemoram dois pontos de alta e adversários transformam dois pontos de queda em crise. Nesse ambiente, existe um risco importante: dar mais atenção à posição dos candidatos nas pesquisas do que ao eleitor que produz esses números.

Precisamos entender os resultados de cada pesquisa eleitoral como retratos de um momento, não como uma previsão do futuro. Eles registram o que as pessoas pensam quando são entrevistadas e permitem identificar tendências, rejeições, prioridades e grupos mais ou menos propensos a mudar de opinião. Quando bem interpretados, ajudam a entender uma sociedade em movimento.

Essa diferença será especialmente importante nas eleições de 2026. A polarização continua organizando parte significativa da disputa presidencial. Lula e Flávio Bolsonaro aparecem como os principais nomes do cenário atual, mas as próprias pesquisas indicam uma disputa que ainda pode sofrer alterações ao longo da campanha. O eleitor brasileiro não é um bloco fixo: ele pode manter sua identidade política e, ainda assim, mudar de candidato.

Para entender esse comportamento, é preciso olhar para além da intenção de voto.

Há 25 anos, estudo as transformações da classe C, que representa mais da metade do eleitorado brasileiro. Nesse período, milhões de pessoas aumentaram sua renda, ampliaram o acesso ao crédito, conquistaram maior escolaridade, passaram a consumir novos produtos e serviços e se tornaram mais conectadas. Muitos passaram a empreender, trabalhar por conta própria ou atuar em plataformas digitais.

Essa transformação econômica produziu uma importante mudança nas expectativas. Quem conquistou algum avanço quer continuar avançando. Quem passou a consumir determinados produtos quer ter condições de mantê-los. Quem conseguiu colocar o filho em uma escola melhor quer preservar essa conquista. Quem abriu um pequeno negócio quer crescer.

É por isso que a classe C não pode ser tratada como um grupo político homogêneo.

Ela reúne diferentes religiões, regiões, idades, profissões e posições ideológicas. Não existe uma opinião política única capaz de representar essa maioria. O que existe é uma experiência social compartilhada: a busca por estabilidade, autonomia e melhoria de vida.

É um eleitor que avalia o cenário e os candidatos a partir dos impactos na vida cotidiana.

O brasileiro quer emprego e renda, mas também quer segurança. Quer inflação controlada para conseguir pagar o supermercado no fim do mês. Quer acesso à saúde e um sistema educacional que funcione. Quer empreender sem que a burocracia inviabilize seu negócio. E, mais do que nunca, quer melhorar de vida e oferecer aos filhos oportunidades que muitas vezes não teve.

Essas são demandas concretas que não cabem nos rótulos tradicionais de esquerda e direita.

Políticas sociais e eficiência do Estado

Um empreendedor pode defender políticas sociais, enquanto uma pessoa mais conservadora pode cobrar mais eficiência do Estado. Um trabalhador pode defender uma economia de mercado e, ao mesmo tempo, exigir serviços públicos melhores. Isso não é, necessariamente, uma contradição. É um eleitor tomando decisões a partir do impacto direto na sua vida, no seu trabalho e na sua família.

Compreender as eleições exige, portanto, novas perguntas. Por que esse candidato? O que gera identificação? O que produz rejeição? Quais problemas mais preocupam? A vida está melhorando ou piorando? O que se espera do próximo governo? O que poderia fazer esse eleitor mudar de opinião?

É nessas respostas que aparece o eleitor por trás do percentual.

A experiência das últimas eleições também recomenda cautela com as pesquisas. Quando o resultado das urnas não coincide com resultados das pesquisas de intenção de voto, surge rapidamente a conclusão de que “a pesquisa errou”. Esse diagnóstico, via de regra, desconsidera o fato de que o eleitor pode mudar de opinião entre a intenção declarada na entrevista e a votação efetiva, ou pode sequer aparecer para votar.

Em eleições competitivas, o eleitor pendular sempre tem um peso decisivo. Ele não necessariamente muda de candidato porque mudou de ideologia. Pode mudar porque mudou sua percepção sobre a economia, a segurança, o emprego ou o futuro. Pelo desempenho em uma entrevista, em um debate ou por conta de um conteúdo que recebeu no seu celular. Por uma proposta nova que disse exatamente o que ele queria ouvir. É nesse ponto que a política encontra a vida real.

Um trabalhador que passa duas horas por dia no transporte público não percebe a questão da mobilidade urbana da mesma forma que quem acompanha o tema por indicadores técnicos. Uma família que compromete boa parte da renda com alimentação percebe a inflação de maneira diferente de quem acompanha o IPCA pelos jornais. O pequeno empreendedor sente os efeitos de impostos, crédito e burocracia diretamente no caixa da empresa. Quem depende do serviço público avalia saúde e educação pela experiência de conseguir ou não atendimento.

A vida do eleitor não pode ser separada em capítulos

A economia interfere na família, a segurança interfere no trabalho, o transporte interfere no tempo disponível para descanso, lazer e convivência com os filhos. A qualidade dos serviços públicos interfere no orçamento e a renda interfere nos planos para o futuro.

Essa combinação ajuda a explicar por que campanhas baseadas exclusivamente em grandes discursos ideológicos podem encontrar dificuldade para dialogar com parcelas importantes do eleitorado. Especialmente na classe C, a identidade política continua relevante, mas precisa conversar com a experiência concreta.

Depois de décadas de ascensão social, essa parcela da população passou a ter uma característica decisiva para entender o comportamento eleitoral: a expectativa de continuar avançando. Só que nenhum dos últimos presidentes, após as revoltas de 2013, conseguiu corresponder a essa expectativa.

Depois de inflação, desemprego, pandemia, crises políticas e mudanças aceleradas no mercado de trabalho, a capacidade de planejar a própria vida ganhou ainda mais importância.

Renda e emprego continuam sendo fundamentais, mas precisam produzir alguma perspectiva de futuro. Ter acesso ao consumo também não significa necessariamente sentir que o futuro está garantido.

A pergunta que o eleitor que decidirá as eleições de 2026 quer responder é simples: minha vida vai melhorar?

Não basta interpretar o passado. É preciso apresentar uma proposta para o futuro que pareça possível para a maioria. O cidadão compara sua vida atual com a que tinha antes. Compara o salário com o custo de vida, o serviço público que recebe com o que esperava e suas oportunidades com as dos filhos. A avaliação de um governo nasce dessas experiências.

É por isso que dois brasileiros podem olhar para os mesmos indicadores econômicos e chegar a conclusões diferentes. O dado econômico é objetivo. A experiência sobre esse dado é pessoal.

E há uma mudança estrutural que não pode ser ignorada: o Brasil que vai votar em 2026 é diferente do Brasil que votou nas últimas décadas. Mudaram a renda, o consumo, o acesso à informação, o mercado de trabalho e a relação com o Estado. Mudaram também as expectativas da classe C e a maneira como milhões de brasileiros enxergam sua própria trajetória.

A internet transformou ainda mais essa relação. O cidadão não depende exclusivamente do horário eleitoral ou dos grandes veículos para formar sua percepção. Recebe informações de diferentes fontes, conversa em grupos, acompanha influenciadores, compartilha vídeos e constrói suas próprias interpretações.

Isso aumenta a velocidade das mudanças de opinião e torna ainda mais difícil compreender o eleitor a partir de uma única variável.

Por isso, mais importante do que perguntar quem está na frente hoje é entender quem é o eleitor que está colocando determinado candidato nessa posição. A pesquisa mostra o número. A análise precisa explicar o comportamento que existe por trás dele.

O eleitor brasileiro de 2026 carrega suas conquistas, seus medos, suas frustrações e suas expectativas. Pode ter uma identidade política definida e, ainda assim, mudar de escolha. Pode rejeitar um candidato sem saber ainda em quem votar. Pode concordar com uma política de governo e desaprovar o governante.

Não há necessariamente incoerência nisso. Há complexidade.

É justamente por isso que as pesquisas eleitorais são importantes. Não para dizer hoje quem vencerá em outubro, mas para revelar como o brasileiro está enxergando o país, sua própria vida e o futuro que espera construir.

Quem quiser entender a eleição de 2026 precisará olhar para além dos números. Precisará entender o brasileiro que existe por trás deles.

Artigos e comentários de autores convidados não refletem, necessariamente, a opinião da revista Interesse Nacional

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