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É doutora em ciência política, com estágio na universidade da califórnia, professora do departamento de estudos políticos da universidade federal do estado do rio de janeiro. Mestre em comunicação digital e cultura de dados da fgv – comunicação

Homens mais à direita, mulheres ao centro: o gender gap brasileiro

A eleição de 2026 está tornando visível uma transformação do eleitorado brasileiro que começou a se desenhar na década passada. Nas pesquisas mais recentes, Lula aparece com vantagem entre as mulheres, enquanto a disputa com Flávio Bolsonaro é mais equilibrada entre os homens e mulheres.

Esses números podem ser vistos como a manifestação recente de uma transformação mais profunda: o surgimento, no Brasil, de um Gender Gap, isto é, de uma diferença entre homens e mulheres na orientação política e no comportamento eleitoral.

Pesquisa que realizamos com dados do Estudo Eleitoral Brasileiro (ESEB), comparando as eleições presidenciais de 2010, 2014, 2018 e 2022, buscou verificar justamente como o gênero passou a se relacionar com participação, posicionamento ideológico e voto. O resultado mais importante é que a diferença entre homens e mulheres não aparece de forma consistente na participação eleitoral, mas se torna mais clara na orientação ideológica e na escolha de candidatos a partir de 2018.

Na participação eleitoral, não encontramos diferenças estatisticamente significativas entre homens e mulheres ao longo do período analisado. O comparecimento tendeu a cair de 2010 a 2018 e voltou a crescer em 2022, acompanhando um movimento geral do eleitorado. As mobilizações femininas de 2018, especialmente o #EleNão e, em reação, o #EleSim, portanto, revelaram novas formas de engajamento, mas não produziram uma diferença estatisticamente significativa no comparecimento às urnas.

A mudança aparece, sobretudo, na orientação ideológica e no voto. Durante este período, os homens passam a se deslocar do centro para a direita e de forma mais acentuada em 2018. Depois, a tendência é de retroceder um pouco para o sentido do centro. Já as mulheres mantiveram a sua tendência histórica de deslocamento da direita para mais próximas do centro. É importante destacar que ambos os grupos continuam, em média, posicionados no campo de centro-direita. A diferença está na trajetória: enquanto os homens avançam mais para a direita, as mulheres se mostram relativamente mais moderadas, rumo ao centro.

O Gender Gap no Brasil, assim, se forma pela combinação entre moderação relativa das mulheres rumo ao centro e deslocamento dos homens para a direita. Em 2018, essa distância tornou-se particularmente visível.

A análise das pesquisas eleitorais reunida por Jairo Nicolau, em O País Dividido (2026), também mostra a dimensão dessa mudança. Na eleição de 2018, Bolsonaro venceu entre as mulheres por uma margem bem menor do que entre os homens, entre os quais chegou a cerca de dois em cada três votos. Em 2022, Lula ampliou ainda mais a vantagem entre as mulheres.

A literatura internacional ajuda a compreender esse fenômeno. Nos Estados Unidos e na Europa, estudos passaram a identificar que partidos e candidatos da direita radical populista tendem a atrair proporcionalmente mais homens do que mulheres. Harteveld e Ivarsflaten (2018) argumentam que essa diferença não decorre necessariamente de posições substantivas menos conservadoras das mulheres. Ela pode estar relacionada à maior importância atribuída por elas às normas sociais e à rejeição de candidatos associados à hostilidade a minorias ou à transgressão de normas de convivência.

A emergência de uma candidatura de direita radical, portanto, parece ter contribuído para tornar o gênero uma dimensão mais importante da escolha eleitoral brasileira. Pela primeira vez no período analisado, ser homem ou mulher passou a ajudar a explicar de maneira significativa a escolha de candidatos presidenciais.

Quando gênero entra na avaliação

Se as mulheres estão, em média, mais próximas do centro e menos inclinadas a acompanhar o deslocamento dos homens para a direita, uma questão adicional se coloca: isso pode estar relacionado à maneira como avaliam governos e candidatos?

Uma pesquisa qualitativa realizada após as eleições de 2022, com 30 entrevistas em profundidade, financiada pela Faperj e conduzida pelo Grupo de Investigação Eleitoral da Unirio, ajuda a iluminar essa questão.

Uma das entrevistadas havia votado em Bolsonaro em 2018. Sua escolha estava relacionada à expectativa de mudança do país e à imagem de um candidato com experiência militar, capaz de romper com a política tradicional. O voto, porém, não se transformou em fidelidade.

Ao longo do governo, ela passou a confrontar a imagem que havia construído do candidato com aquilo que observava em sua atuação. Não gostava de sua maneira de falar, mas identificou na pandemia o principal ponto de inflexão. Em sua avaliação, a postura do presidente diante da Covid-19 demonstrou omissão e falta de cuidado com a população. A experiência levou-a a revisar a própria escolha: olhando para 2018, afirmou que, se pudesse voltar no tempo, teria votado de outra maneira.

O depoimento ilustra um mecanismo de decisão: a eleitora parte de uma expectativa, observa a atuação do governo, confronta essa experiência com aquilo que esperava e modifica sua avaliação. O candidato que havia sido escolhido pela promessa de mudança deixa de ser o candidato preferido diante da avaliação de seu desempenho.

O depoimento oferece uma imagem concreta de um tipo de decisão que é particularmente relevante para a democracia: a disposição para revisar uma escolha política a partir da experiência de governo. Essa disposição é importante porque o voto é também um instrumento de accountability.

O problema aparece quando a identificação política se torna tão forte que passa a dificultar essa avaliação. O raciocínio motivado não é exclusividade de uma ideologia ou de um grupo. À esquerda e à direita, ele pode levar indivíduos a interpretar informações de acordo com suas convicções anteriores, atribuindo sucessos ao mérito de seus candidatos e fracassos às circunstâncias, à oposição ou a algum inimigo externo. Quando isso ocorre, a identidade política pode funcionar como uma proteção contra evidências que deveriam levar à revisão da escolha.

A questão que se coloca aqui assim é a menor aproximação – na média – das mulheres com posições radicalizadas, que pode deixá-las, em determinados contextos, mais abertas à avaliação do desempenho dos governos.

O que 2026 pode mostrar

A eleição de 2026 oferece uma oportunidade para observar se o Gender Gap brasileiro se consolidou como uma clivagem eleitoral. Os dados disponíveis até agora mostram uma diferença expressiva entre homens e mulheres na disputa presidencial. Ao mesmo tempo, essa diferença se articula com outras dimensões da estrutura eleitoral brasileira. O gênero, portanto, não substitui outras dimensões do comportamento eleitoral. Ele passou a se combinar com elas.

Isso produz um problema estratégico para a direita. Não basta ampliar sua votação entre os homens. Uma candidatura que pretenda construir uma maioria nacional precisa reduzir a distância entre os sexos sem necessariamente perder os elementos identitários que mobilizam seu eleitorado mais fiel.

Para a esquerda, a vantagem entre as mulheres tampouco pode ser tratada como permanente. O eleitorado feminino é heterogêneo e continua tendendo a ser mais sensível e a responder mais a condições econômicas, segurança, saúde, educação, religião, família e avaliação dos governos.

A emergência do Gender Gap brasileiro permite, assim, uma interpretação que vai além da disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro.

A pesquisa qualitativa ajuda a dar concretude a uma possibilidade: mulheres relativamente menos capturadas pela polarização podem, em determinados casos, avaliar o governo a partir de suas entregas em políticas públicas e rever a escolha anterior. É uma hipótese sobre um mecanismo que merece investigação mais sistemática sobre o comportamento feminino.

Governos precisam de eleitores capazes de premiar boas políticas públicas e punir más entregas. Quando a identidade política impede a avaliação do desempenho, uma das funções essenciais da eleição se enfraquece. O problema democrático não é o eleitor ter convicções fortes, mas tornar-se incapaz de reconhecer informações que contradizem aquilo em que já acredita.

Nesse sentido, o novo Gender Gap brasileiro importa por razões que ultrapassam a matemática eleitoral de 2026. Ele mostra que homens e mulheres passaram a tender a responder de maneira diferente ao discurso populista da radicalização. E sugere uma questão ainda mais importante para a qualidade da democracia: em uma sociedade cada vez mais extremista, quem tende a permanecer mais disposto a avaliar o governo para além da afetividade política?


Referências Bibliográficas

HARTEVELD, Eelco; IVARSFLATEN, Elisabeth. Why Women Avoid the Radical Right: Internalized Norms and Party Reputations. British Journal of Political Science, v. 48, n. 2, p. 369–384, 2018. DOI: 10.1017/S0007123415000745.

NICOLAU, Jairo. O país dividido: duas décadas de eleições presidenciais no Brasil (2002–2022). Rio de Janeiro: Zahar, 2026.

VEIGA, Luciana Fernandes; ROCHA, Daniel Leonel da. #EleNão: Female Autonomy and Far-Right Populist Candidacy in Brazil’s 2010–2022 Presidential Elections. In: TAGINA, María Laura (ed.). Women’s Political Behavior in Latin America. Springer Nature, 2026, p. 73–98. DOI: 10.1007/978-3-032-08580-1_4.

Artigos e comentários de autores convidados não refletem, necessariamente, a opinião da revista Interesse Nacional

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