Inimigos próximos: as relações Brasil–EUA no ano eleitoral
Em 2024, os autores deste artigo analisaram a relação Brasil-EUA durante o bicentenário das relações diplomáticas oficiais entre os dois países. Avançamos a tese da “aliança não escrita”, relembrando o termo cunhado pelo historiador E. Bradford Burns. Considerando o que aconteceu no último ano e meio sob a administração Trump, nossas expectativas de maximizar o potencial de tal aliança de fato agora são um sonho de um passado distante.
No início de outubro de 2024, o ambiente era propício para o relacionamento, baseado nas diversas dimensões de engajamento e cooperação entre os governos Biden e Lula. Tal engajamento foi viabilizado pelas medidas de boa-fé e fomento da confiança assumidas anteriormente pelo governo Biden, incluindo a mensagem muito clara transmitida ao governo anterior de Jair Bolsonaro, de que os EUA não tolerariam nenhuma tentativa de golpe ou ataque à integridade do sistema eleitoral brasileiro antes das eleições nacionais de outubro de 2022 (que resultaram na vitória presidencial de Lula).
Como observou o cientista político brasileiro Oliver Stuenkel, houve campanha concertada e bem-organizada para levar a mensagem ao governo Bolsonaro, envolvendo a “Casa Branca, Departamento de Estado, CIA, Senado e Pentágono”. Stuenkel explica que “essa última agência pode ter sido a jogada mais decisiva do governo Biden. O Secretário de Defesa dos EUA, Lloyd Austin, foi designado como principal emissário público de Biden junto aos generais brasileiros. Foi uma escolha natural, dada a relação tensa entre Biden e Bolsonaro. Este último que seguiu o exemplo de Trump ao repetir falsidades sobre supostas fraudes durante a eleição presidencial americana de 2020. Austin também era um interlocutor mais confiável, já que as Forças Armadas brasileiras eram o alvo pretendido da campanha americana”.
Embora essas manobras diplomáticas concertadas do governo Biden não tenham impedido a destruição e a aparente tentativa de golpe na Praça dos Três Poderes, em Brasília, no domingo, 8 de janeiro de 2023, orquestrada pelo ex-presidente Bolsonaro e membros de alta patente das Forças Armadas brasileiras exatamente uma semana após a posse de Lula, o presidente dos EUA condenou imediatamente o ataque à democracia brasileira com a seguinte declaração pública: “Condeno o ataque à democracia e à transição pacífica de poder no Brasil. As instituições democráticas do Brasil têm nosso total apoio, e a vontade do povo brasileiro não deve ser minada”.
Toda essa boa vontade e potencial de cooperação entre as duas maiores democracias do hemisfério começaram a se desintegrar após a posse do segundo mandato de Trump em 2025.
Taxação por “trabalho forçado no Brasil”
Em agosto de 2026, as relações entre os governos atingiram um ponto de crise sem precedentes. O governo Trump decidiu impor uma tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros selecionados, juntamente com novas declarações do secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, criticando Luiz Inácio Lula da Silva, o que provocou uma resposta firme do governo brasileiro. Rubio atacou pessoalmente Lula, afirmando, sem fundamento, que o presidente brasileiro não estava negociando de boa-fé em relação às iminentes questões comerciais e que estava colocando seu ego acima dos interesses nacionais de seu próprio país. E em 23 de julho, o representante comercial dos EUA, Jamieson Greer, anunciou imposição de taxa adicional de 12,5% sobre produtos brasileiros, com base em supostas práticas comerciais desleais, conforme definido pela Seção 301 da Lei de Comércio dos EUA de 1974, sob a alegação de que o Brasil estava “fazendo muito pouco” em relação ao trabalho forçado.
Em resposta à ofensiva lançada por Washington, o governo brasileiro “reafirmou que poderá recorrer aos instrumentos legais previstos na Lei de Reciprocidade Econômica do Brasil e rejeitou o que descreveu como medidas unilaterais injustificadas”. É importante ressaltar, contudo, que o governo brasileiro não afirmou que está implementando tarifas retaliatórias imediatamente.
A pergunta óbvia é como essa crise afetará as próximas eleições nacionais no Brasil, em outubro, e como o governo Trump poderá tentar influenciar o resultado. Em outras palavras, haverá interferência e pressão por parte do governo Trump para minar a integridade do sistema eleitoral brasileiro, considerando as estreitas relações e a cooperação com a família Bolsonaro desde o primeiro mandato de Trump? Se isso acontecer, será um contraste diametral com a política de Biden em 2022. E se o presidente Lula for reeleito em outubro, o governo Trump reconhecerá e respeitará o resultado? Os autores certamente não estão em condições de fazer previsões, mas destacaremos as variáveis relevantes e críticas nessa equação.
O período de 20 de janeiro de 2025 a agosto de 2026 foi uma verdadeira montanha-russa nas relações entre Brasil e Estados Unidos, graças a todas as oscilações da política de Trump em relação ao presidente Lula e ao Brasil em geral, que pareceu nada menos que esquizofrênica aos olhos de um observador externo. Em julho de 2025, o presidente Trump criticou duramente, em sua conta no Truth Social, o que chamou de “caça às bruxas” – ou seja, o processo e o julgamento do ex-presidente Bolsonaro e seus cúmplices militares por diversos crimes associados à tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023 (que resultou em uma sentença de mais de 27 anos para Bolsonaro, proferida pelo Supremo Tribunal Federal (STF).
Na mesma comunicação, Trump anunciou que os EUA estavam impondo uma supertarifa sobre as exportações brasileiras, equivalente a 40% acima da alíquota básica de 10%, resultando em um imposto de 50% sobre os produtos brasileiros, mesmo que os Estados Unidos tivessem um superávit comercial acumulado com o Brasil de US$ 424,5 bilhões ao longo de 15 anos. Trump deixou bem claro que a medida era uma retaliação pela “perseguição” política e jurídica do ex-presidente brasileiro, desprovida de qualquer justificativa econômica ou legal. Essa supertarifa entrou em vigor em 6 de agosto de 2025 e impactou 36% das exportações brasileiras. (Por fim, a Suprema Corte dos EUA invalidou as tarifas em fevereiro de 2026, entre muitas outras impostas a parceiros comerciais dos EUA, concluindo que a Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional (IEEPA) de 1977 não dava a Trump a autoridade para fazer o que fez).
Em 23 de setembro de 2025, houve mudança repentina na retórica e no comportamento de Trump. Imediatamente após o discurso do presidente Lula em defesa da integridade e soberania do Brasil e de seu judiciário perante as Nações Unidas, e em clara referência à decisão do STF contra o ex-presidente Bolsonaro, foi a vez de o presidente Trump falar em nome dos EUA, em conformidade com o protocolo de abertura da Assembleia Geral da ONU. Após discurso de quase uma hora que criticou duramente o sistema de normas globais da ONU, especialmente em relação às mudanças climáticas, Trump elogiou Lula diante do mundo inteiro em suas considerações finais. Ele proclamou que gostava do presidente brasileiro, que havia afinidade entre eles e que os dois se encontrariam na semana seguinte.
O risco da intromissão de Trump nas eleições brasileiras
Embora esse encontro presencial só tenha ocorrido quase um mês depois, por volta da cúpula da ASEAN, em Kuala Lumpur, os dois presidentes mantiveram uma conversa telefônica construtiva em 6 de outubro de 2025, que ambos classificaram como “amigável”. Lula instou Trump a remover as supertarifas e suspender as sanções contra os oficiais do governo e do judiciário brasileiros. A conversa lançou as bases para maior engajamento diplomático e negociações comerciais. Além disso, houve acordo entre os dois líderes para prosseguir com negociações comerciais e melhorar as relações Brasil-EUA, durante o encontro presencial em Kuala Lumpur.
Em 7 de maio de 2026, aproximadamente dois meses após o início da guerra dos EUA contra o Irã, Lula se reuniu por três horas com o presidente Trump, na Casa Branca, para discutir questões comerciais bilaterais pendentes, o potencial de cooperação em minerais críticos e a campanha de pressão dos EUA sobre Cuba. O principal resultado da reunião foi a criação de grupo de trabalho Brasil-EUA, encarregado de elaborar propostas, em 30 dias, em relação às disputas tarifárias e às investigações pendentes da Seção 301 dos EUA sobre as práticas comerciais brasileiras, incluindo tarifas sobre comércio eletrônico. O vice-presidente JD Vance, o secretário do Tesouro Scott Bessent e o representante comercial dos EUA, Jamieson Greer, estavam presentes representando os EUA. Rubio esteve ausente, pois estava reunido com o Papa no Vaticano. Trump descreveu a reunião como “muito dinâmica”, e Lula indicou estar “muito satisfeito”.
Menos de três semanas depois, em 26 de maio de 2026, o diálogo supostamente construtivo entre Lula e Trump começou a ruir. Nessa data, Trump recebeu no Salão Oval o senador Flávio Bolsonaro, do Partido Liberal, candidato da oposição à presidência do Brasil, seu irmão, o ex -deputado federal Eduardo Bolsonaro, que reside no Texas, e o aliado Paulo Figueiredo, para reunião fechada à imprensa.
Apenas dois dias depois, e obviamente a pedido de Flávio, Marco Rubio anunciou que as facções criminosas brasileiras Comando Vermelho e PCC seriam designadas como organizações terroristas internacionais, o que poderia servir de pretexto para futura intervenção militar dos EUA. Lula havia pedido especificamente ao presidente americano que evitasse tal designação, para que as medidas regulares conjuntas e multilaterais de combate ao crime pudessem ter sucesso. Mas, Trump acabou cedendo à exigência do candidato presidencial que representava a oposição brasileira de extrema-direita.
Na cúpula do G7 realizada em Évian-les-Bains, em junho, Trump afirmou publicamente que o Brasil havia se tornado “politicamente perigoso” e que o governo Lula queria prender “Bolsonaro Júnior”, que estava “indo bem nas pesquisas”. Obviamente, Flávio não estava sendo preso. Na verdade, foi Eduardo Bolsonaro quem foi condenado pela justiça brasileira por pressionar o governo dos EUA a interferir no julgamento de seu pai perante o STF.
Informado dos comentários de Trump, Lula retrucou: “Ele pode continuar gostando de Bolsonaro – o pai, o filho, o neto – isso não é problema meu, é problema dele… Mas, não se intrometa nas eleições do Brasil, porque as eleições do Brasil são assunto do Brasil”.
Em última análise, Donald Trump irá interferir ativamente nas eleições brasileiras de outubro? Especulações bem fundamentadas e a história recente indicam que muito depende de quem, em última instância, conseguir influenciá-lo e convencê-lo.
Se Trump estiver verdadeiramente motivado pelos interesses da “América Primeiro”, ele não interferirá. Os interesses pragmáticos dos Estados Unidos ditariam a não interferência para alcançar os seguintes objetivos: a assinatura de um acordo sobre minerais críticos com o Brasil; cooperação genuína no combate ao crime organizado; e a salvaguarda da segurança nacional dos EUA, preservando a estabilidade no maior país da América do Sul. Além disso, um segmento do empresariado americano, tradicionalmente uma influência dominante no Partido Republicano, favoreceria essa abordagem pragmática. Grande parte do empresariado americano se opõe à instrumentalização desenfreada das tarifas contra o Brasil por Trump, pois prejudica os interesses comerciais e de investimento dos EUA, bem como os empregadores e trabalhadores americanos.
De fato, 63 das 78 intervenções feitas por representantes do setor privado brasileiro e americano na audiência pública perante o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), realizada em 6 de julho, opuseram-se veementemente às supertarifas impostas por Trump ao Brasil. Flávio Bolsonaro discursou na audiência, instando o USTR a adiar a implementação das supertarifas até depois das eleições, insinuando de forma clara e descarada que o contrário prejudicaria suas chances de vitória, apesar da pressão anterior dos Bolsonaro para a implementação do tarifamento e das sanções contra o Brasil.
A disputa diplomática entre o Brasil e os EUA se agravou em agosto. Em aparente retaliação à recusa brasileira de vistos de entrada a dois funcionários do governo americano, que pretendiam investigar e questionar o sistema eleitoral brasileiro, bem como ao adiamento da aprovação da indicação de Daniel Perez – republicano e ex-presidente da Câmara dos Representantes da Flórida –, para o cargo de embaixador dos EUA em Brasília, as autoridades americanas desqualificaram o visto de Maria Luiza Ribeiro Viotti, em 4 de agosto. Ela ocupa o cargo de embaixadora do Brasil nos Estados Unidos desde 2023.
Washington pressionava Brasília para que concordasse com uma “pré-aprovação” de Pérez mesmo antes de sua nomeação ser ratificada pelo Senado dos EUA em 7 de agosto, por uma votação de 51 a 47. No entanto, o Planalto deixou claro que o Brasil não concordará em conceder credenciais diplomáticas a Pérez antes das eleições de outubro.
Em aparente esforço de alguns membros do governo Trump para amenizar as tensões, o Departamento de Estado americano, embora tenha endurecido críticas ao governo Lula, também indicou que não pretendia romper relações com o Brasil. Em comunicado divulgado à imprensa brasileira, o Departamento afirmou que respeita o povo brasileiro e sua livre escolha de governo, desde que tal decisão seja tomada por meio de “eleições livres e justas”. Naturalmente, resta saber o que o governo Trump considerará, de fato, como “eleições livres e justas” no Brasil.
No dia 21 de agosto, o presidente Lula telefonou para o presidente Trump. A conversa durou uma hora e 20 minutos. Durante a conversa, Lula argumentou que as razões dadas para justificar as novas tarifas – trabalho forçado, etanol, Pix, combate a corrupção, propriedade intelectual, acordos preferenciais e desmatamento – eram infundadas e insistiu que os dois países deveriam “seguir na mesa de negociação”, além de argumentar contra classificação do PCC e CV como organizações terroristas.
Se Trump der mais atenção aos ideólogos extremistas de sua administração, incluindo Rubio e Darren Beattie – conselheiro do Departamento de Estado dos EUA para Políticas sobre o Brasil –, que defendem noção radical da Doutrina Donroe para alcançar a hegemonia completa dos EUA e da direita autoritária no hemisfério, as chances de maior interferência nas eleições brasileiras aumentarão. Há ainda os comandantes das grandes empresas de tecnologia, como Elon Musk, que prontamente apoiariam e financiariam tal interferência.
A sociedade civil progressista brasileira e estadunidense está consciente desse perigo iminente e organizou delegações de representantes do Congresso brasileiro e ONGs a Washington, nos últimos meses, para alertar membros mais receptivos do Congresso ao tema. O desafio óbvio é que as eleições de meio de mandato nos EUA, que podem alterar a correlação de forças no Congresso, ocorrerão em 3 de novembro de 2026, depois das eleições brasileiras, cujo segundo turno será em 25 de outubro.
Contudo, uma mudança de poder no Congresso dos EUA em novembro poderia ser muito significativa, caso Lula vencesse as eleições em outubro e as forças ideológicas mais extremistas do governo Trump, em conluio com os bolsonaristas, insistissem para que os EUA não reconhecessem e aceitassem o resultado. Se os democratas conquistassem o controle da Câmara dos Representantes, a câmara baixa do Congresso dos EUA, e possivelmente do Senado, poderiam frustrar as manobras do governo Trump em favor dos bolsonaristas. A polarização no Brasil poderia se tornar linha divisória dentro do próprio governo dos EUA.
O futuro das relações construtivas entre as duas maiores democracias do hemisfério está inquestionavelmente em jogo, com sérias consequências para todo o planeta.
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Anthony W. Pereira: Anthony W. Pereira é o Diretor Executivo do Stone Center for Latin American Studies na Universidade Tulane, Professor Visitante na School of Global Affairs do King’s College London e um pesquisador sênior na Canning House.
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