Nem fusão, nem exclusão: religião, política e democracia no Brasil
Em junho de 2025, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou os dados de religião do Censo 2022, e o Brasil que apareceu nos números contrariou os prognósticos mais alarmistas do campo conservador e os mais esperançosos do campo progressista. O país segue majoritariamente cristão, com 87% da população vinculados ao Cristianismo: metade que ainda se declara católica (57%) e o expressivo grupo que representa um em cada quatro brasileiros (26,9%), ligado à fé evangélica.
Chama a atenção que o número de ateus triplicou, alcançando um dígito, bem como o número de pessoas sem religião, que alcançou 9,3%. A segunda religião do Brasil é o Espiritismo, com 1,8% da população e as religiões de matriz africana (Candomblé e Umbanda) alcançaram, pela primeira vez, um dígito (1,1%). As chamadas “Outras religiosidades” (todos os grupos não citados aqui), somam 4,01%.
Essa é a paisagem religiosa que emoldura o Brasil neste 2026, marcado por eleições gerais (Congresso Nacional e executivos federal e estaduais) com intensa disputa. Compreender este cenário exige que abandonemos dois equívocos que se equilibram: o de quem imagina que os evangélicos são um bloco monolítico a serviço da direita; e o de quem supõe que religião e democracia são incompatíveis.
Iniciar este artigo com estas bases é dar o tom do que será tratado nele: a relação entre religião e política no Brasil contemporâneo é muito mais intrincada, plural e disputada do que qualquer uma dessas duas compreensões sugere.
Religião como valor e religião como política
Não é preciso caminhar muito por qualquer pedaço do Brasil para perceber que a religião não é pano de fundo: é uma estrutura de sentido. Como parte da cultura, do cotidiano, desenvolver a fé numa determinada expressão de sagrado no Brasil, não se limita à esfera privada da crença. Trata-se de uma expressão de comunicação relacionada a alegrias, dores e esperanças, da organização de comunidades e redes de pertencimento, do sustento de economias populares, e se converte, cada vez mais, em linguagem política.
Pesquisas nas quais tenho atuado há mais de 30 anos, na interface entre comunicação, política e religiões, indicam que a experiência religiosa segue sendo o principal repertório simbólico disponível para interpretar a vida, a injustiça e o futuro para expressiva parte da população. Reconhecer esse valor não é endossar a mobilização das religiões e da fé por projetos populistas e autoritários, mas justamente o oposto. Significa insistir que a religião, em sua pluralidade e em sua capacidade de tecer comunidade e resistência, merece ser valorizada como espaço de dignidade, e não abandonada ao monopólio de quem a converte em arma eleitoral.
Aqui há uma distinção fundamental que precisa ser registrada: a diferença entre religião na política e religião como política. A primeira descreve a participação legítima de atores religiosos na vida pública, como parte de um Estado laico e democrático. Essa participação passa da luta abolicionista às Comunidades Eclesiais de Bases, da resistência à ditadura militar aos movimentos de direitos humanos e à defesa de valores morais.
Já a segunda descreve algo qualitativamente distinto: é o processo pelo qual a própria atividade religiosa (cultos, missas, cerimônias e rituais diversos) torna-se instrumento de mobilização e campanha política. O antropólogo Ronaldo de Almeida formulou com precisão o que está em jogo na cena pública no Brasil da última década: “Em vez de falarmos em religião na política, precisamos falar em religião como política. Fazer religião hoje tem sido fazer política”.
Não se trata de instrumentalização da religião por agentes internos e externos. Trata-se de uma fusão em que a identidade religiosa e a identidade política tornam-se indistinguíveis no nível do discurso e das ações públicas.
Este fenômeno não pode ser visto como um desvio ou uma anomalia, portanto, tampouco como ameaça social. É a expressão de um fenômeno global denominado populismo religioso: a combinação dos elementos clássicos do populismo (o povo contra as elites/o sistema, o líder carismático, o inimigo a derrotar) com matriz religiosa – no caso do Brasil, predominantemente cristã. Essa matriz confere autoridade moral a determinadas figuras, partidos e grupos políticos e coesão comunitária a apoiadores/seguidores. No país, esse fenômeno ganhou densidade a partir de 2018, alavancado pela articulação que levou o capitão reformado do Exército Jair Bolsonaro (PSL e PL) à Presidência da República (2019-2022) e segue sendo uma chave interpretativa forte para entender o campo político-religioso que se desenha para 2026.
Um exemplo recente deu-se em 24 de junho de 2026, quando a evangélica ex-primeira-dama, Michelle Bolsonaro, publicou em seus perfis de mídias sociais um vídeo de quase 30 minutos sobre uma crise interna no partido. Havia um atrito com o enteado Flávio Bolsonaro em torno de uma aliança com a candidatura de Ciro Gomes no Ceará. Uma crise familiar foi, então, transformada em uma peça sofisticada de populismo religioso digital.
O cenário do vídeo foi deliberadamente composto: uma escultura de mão dourada reproduzindo o gesto de ‘Eu te amo’ em Libras, evocando a atuação inclusiva de Michelle como tradutora; a Estrela de Davi, símbolo de Israel, valor importante no conservadorismo evangélico; camisa com as palavras que expressam o “fruto do Espírito”, reivindicando autoridade moral antes de qualquer palavra política. O discurso verbal preencheu o cenário: “missão que só Deus tira”, “prestar contas ao meu Deus”. A linguagem é a da fé, não da política, ainda que o assunto fosse estritamente político, tratado como “questão de coerência” – palavra que aparece cinco vezes no discurso. Questionar Michelle passa a ser questionar sua missão diante de Deus. Há ainda o sofrimento como martírio: a fala de desrespeito e isolamento impostos pelos enteados. No imaginário evangélico, o sofrimento do justo confirma a autenticidade da missão, remetendo à construção simbólica em torno da facada que o marido havia sofrido na campanha eleitoral de 2018, associada em muitos conteúdos digitais à crucificação de Cristo.
O vídeo foi projetado para viralizar a partir das reações de todas as tendências políticas e funcionou: repercussão imediata, volume imenso de interações e até a especulação sobre os objetos do cenário alimentou o debate. É uma expressão marcante de religião como política, alimentada pelo populismo religioso em versão digital.
A hegemonia cristã na cena pública
Com o exemplo anterior, vêm à tona o destaque ao protagonismo dos evangélicos nos debates em religião e política. A atenção ao lugar deste grupo religioso vem da formação da Bancada Evangélica na Câmara Federal, no Congresso Constituinte eleito em 1986, 40 anos atrás. Passadas tantas décadas, com altos e baixos, é fato que o grupo não só consolidou a Bancada e a ampliou com a Frente Parlamentar Evangélica, como passou a protagonizar disputas e episódios no cenário político. O auge foi alcançado no mandato de Jair Bolsonaro, cuja eleição contou com o apoio de estreitas alianças com parcela significativa deste grupo religioso, por meio de cargos no governo e concessão de benefícios às respectivas igrejas e suas lideranças.
Um ponto importante aqui é recordar um dos maiores obstáculos para a análise das religiões na política brasileira, que é a tendência de tratar os evangélicos como bloco uniforme. É preciso insistir na pluralidade que marca este grupo religioso, que qualquer análise coerente precisa considerar. Os evangélicos brasileiros, segundo os microdados do Censo 2022, distribuem-se de formas muito distintas: 8,1% são pentecostais das mais diferentes igrejas, como as Assembleias de Deus e as novas comunidades como a Renascer e as churches; 3,2% são protestantes históricos (batistas, presbiterianos, metodistas, luteranos) e 15,6% são evangélicos não determinados (sem igreja ou que não declararam vinculação a uma igreja). Nestes grupos há pluralidade de teologias, expressões e vivências da fé, visões de mundo e posições diante da realidade cotidiana, entre elas a política, que não é possível usar a expressão “os evangélicos pensam X”. É incoerente tratar este grupo como bloco único, orientado por determinadas lideranças, geralmente destacadas nas mídias.
De qualquer forma, é fato que os evangélicos se tornaram o centro das análises sobre religião e política no Brasil, enquanto os católicos frequentemente aparecem como coadjuvantes ou nem são considerados. Aqui se dá uma leitura equivocada.
O Censo 2022 confirma 57% de católicos no Brasil, o que gera, em análises comparativas, a noção de declínio deste grupo cristão. É fato que há decréscimo significativo do número de católicos, porém, a hegemonia do Catolicismo estabelecida, historicamente, com a colonização, está arraigada na cultura, inclusive na política. O Acordo Brasil-Vaticano, promulgado em 2010, é exemplo disto, com a garantia de personalidade jurídica das entidades eclesiásticas, do ensino religioso nas escolas públicas, da assistência religiosa em hospitais e presídios, e da imunidade tributária de templos. O documento foi criticado por setores laicos e por outras denominações religiosas por conceder à Igreja Católica tratamento privilegiado em comparação a outras confissões.
As disputas internas no Catolicismo, que geram tensões entre os grupos progressistas e conservadores, refletem-se na cena pública. Lideranças católicas ultraconservadoras têm se fortalecido na última década e se alinhado com conservadores de base evangélica. As pautas antigênero e pelo homeschooling, com ações intensivas no Poder Legislativo, por exemplo, são forte expressão deste cenário.
O resultado é uma convergência de grupos religiosos que vale observar: em nome da chamada família tradicional, da defesa da liberdade religiosa que contesta avanços sociais, lideranças das tradições católica e evangélicas têm construído alianças táticas que transcendem as diferenças teológicas históricas. Com isso se consolida na última década uma direita cristã no país, fenômeno até então inexistente.
A direita cristã brasileira é projeto político consolidado, com infraestrutura própria de comunicação, financiamento e formação de quadros. Consolidou-se como aliança entre setores católicos e evangélicos ultraconservadores alinhados a lideranças políticas que encontraram, na linguagem religiosa, vocabulário eficaz para mobilizar afetos, produzir inimigos comuns e naturalizar pautas de costumes como se fossem consensos morais inegociáveis.
O que torna essa direita “consolidada” é justamente a capacidade de se reproduzir independentemente de lideranças específicas: ela tem plataformas digitais próprias, redes de influenciadores religiosos, formatos estéticos e discursivos replicáveis e uma linguagem política que atravessa eleições, sobrevivendo a derrotas eleitorais pontuais. O exemplo do vídeo de Michelle Bolsonaro é uma recente expressão disto.
Vale observar que essa consolidação opera por meio da plataformização da fé: aplicativos, lives, WhatsApp e redes sociais deixam de ser meros canais de evangelização e se tornam infraestrutura de mobilização político-eleitoral, articulando religião e algoritmo numa engenharia de afetos que hoje é tão relevante quanto espaços religiosos tradicionais – os templos.
O número de nomes de urna religiosos diminuiu
Um dado deste processo eleitoral em 2026 merece atenção: o número de candidatos com nomes de urna de apelo religioso evangélico explícito – “Pastor Fulano”, “Bispa Sicrana”, “Irmão Beltrano” – registrou queda em relação ao ciclo anterior
A identificação religiosa no nome de urna foi estratégia eficaz num período em que a pertença denominacional era ativo eleitoral fortemente acionado. Porém, a radicalização política à direita a partir de 2018 criou desgaste que a própria liderança evangélica passou a reconhecer internamente. A politização dos cultos, o uso de desinformação nos grupos de igrejas e a perseguição a membros divergentes geraram frustrações e afastamentos que se refletem nos dados eleitorais.
Ao mesmo tempo, a migração para a categoria “cristão”, mais abrangente, menos sectária, mais palatável para eleitorados mais amplos, indica sofisticação estratégica, que o Instituto de Estudos da Religião já identificava desde as eleições municipais de 2020. Candidatos que antes precisavam ostentar a denominação para sinalizar pertencimento passam a mobilizar uma identidade cristã não determinada que alcança tanto evangélicos quanto católicos, ambos sensíveis à retórica dos valores tradicionais sem as divisões confessionais históricas.
É o populismo religioso operando em modo mais refinado: não mais a convocação explícita ao voto evangélico ou católico, mas a construção de uma comunidade moral cristã mais ampla. A configuração de uma direita cristã unificada não pela teologia, mas por inimigos comuns: a “ideologia de gênero”, “o sistema descrente”, a esquerda “comunista”. A linguagem religiosa permanece enquanto a vinculação confessional recua.
Há uma questão mais profunda que perpassa o que está contido neste artigo e que é pouco enunciada em espaços mais amplos da cena pública: qual é o lugar legítimo da religião na democracia? A resposta liberal clássica de se relegar a religião ao espaço privado, nunca descreveu adequadamente a vida no Brasil. Em país onde ampla parcela da população professa alguma crença, onde comunidades de fé articulam sentido, pertencimento e solidariedade, onde a identidade religiosa estrutura valores e escolhas cotidianas, pretender que a religião fique fora da política é uma desconexão com a realidade.
No entanto, a resposta oposta, que indica a fusão total entre religião e política, em que a vontade de Deus é identificada com a agenda de um partido específico e de personagens dadas, representa elemento nocivo à democracia. Quando o voto é colocado como obrigação religiosa, quando questionar uma candidatura é indicado como trair a fé, quando a desinformação circula revestida de autoridade sacerdotal, o direito cidadão e autônomo de eleitores é comprometido na forma de abuso religioso.
Compreender isto exige abandonar as simplificações dos dois lados: nem o pânico com “o voto evangélico” como força monolítica, nem a desconsideração do lugar da dimensão religiosa na cena pública. A disputa pelo campo religioso não é entre fé e política. É entre projetos opostos de país nos quais a fé e as religiões estão inseridas. Reconhecer isso e disputar esse cenário com seriedade, honestidade e respeito à pluralidade é uma das tarefas mais urgentes de quem acredita que democracia e religião não são incompatíveis, mas podem, ao contrário, fortalecer-se mutuamente.
O que está em jogo, portanto, não é se a religião deve ou não ter voz na vida pública, pois ela inevitavelmente tem. Trata-se de experiências externas como a luta contra o apartheid na África do Sul, com o bispo Desmond Tutu, pelos direitos civis, com o pastor Martin Luther King, ou pela descolonização pacífica da Índia, com Mahatma Gandhi, que são mundialmente exaltadas. O que está em disputa é que tipo de presença religiosa é compatível com a democracia: a que reconhece o pluralismo e a autonomia de cada cidadão para votar por convicção própria ou a que lança mão da fé para capturar votos por medo, mentira e lealdade de rebanho.
Referências bibiográficas
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INSTITUTO DE ESTUDOS DA RELIGIÃO (ISER). Um Brasil mais plural? Reflexões sobre os dados de Religião do Censo 2022. Rio de Janeiro, RJ: ISER, 2025
QUEIROZ, Danilo. De ‘pastor’ a ‘homem de fé’: a nova linguagem religiosa das urnas em 2026. CartaCapital, 1 set 2026. Disponível em https://www.cartacapital.com.br/politica/de-pastor-a-homem-de-fe-a-nova-linguagem-religiosa-das-urnas-de-2026/. Acesso em 3 set 2026
REIS, Livia, OWSIANY, Laryssa, CUNHA, Magali, PESTANA, Matheus (orgs.). O que aprendemos ao pesquisar religião e eleições? Rio de Janeiro: ISER, 2024. Disponível em https://iser.org.br/wp-content/uploads/2025/02/O-que-aprendemos-ao-pesquisar-religiao-e-eleicoes_pdf.pdf Acesso em 03 set 2026
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