15 julho 2022

A comida está prestes a ficar muito mais cara, mas não precisa ser assim

Apesar de pressões inflacionárias e dos riscos ambientais, o desenvolvimento tecnológico associado a políticas de proteção podem levar à produção de alimentos saudáveis e radicalmente mais baratos nas próximas duas décadas

Apesar de pressões inflacionárias e dos riscos ambientais, o desenvolvimento tecnológico associado a políticas de proteção podem levar à produção de alimentos saudáveis e radicalmente mais baratos nas próximas duas décadas

Por Evan Fraser e Lenore Newman*

À medida que emergimos da pandemia, as pessoas em todos os lugares estão enfrentando custos de moradia punitivos e salários estagnados. No supermercado, os consumidores também estão enfrentando o aumento dos preços dos alimentos, um lembrete preocupante de que uma boa comida custa muito caro para gente demais.

Os consumidores não estão acostumados à comida cara. Nos últimos anos, a maioria dos norte-americanos gastou cerca de 10% da renda familiar em sustento. Em 1900, (quando a habitação era muito mais acessível), os custos dos alimentos representavam 42% da renda nos Estados Unidos.

https://interessenacional.com.br/edicoes-posts/precos-dos-alimentos-como-os-paises-estao-usando-a-crise-global-para-ganhar-poder-geopolitico/

Em 1950, novas tecnologias agrícolas aumentaram a produção, ajudando a reduzir os custos para 30%, mas os ganhos estavam apenas começando. O número caiu para 18% em 1960, e tem tendência de queda desde então.

Hoje, com a inflação em alta, precisamos considerar o que podemos fazer para garantir que o custo de uma dieta saudável permaneça ao nosso alcance. Existem duas abordagens amplas. A primeira é reduzir a pobreza. A segunda é reduzir o custo dos alimentos.

‘Precisamos considerar o que podemos fazer para garantir que o custo de uma dieta saudável permaneça ao nosso alcance’

Ambas as abordagens são necessárias, mas estamos focando na última: como manter os custos dos alimentos baixos. Em particular, acreditamos que com as estratégias certas, em um futuro relativamente próximo, até mesmo alimentos saudáveis ​​podem ser mais baratos do que nunca. A chave será a tecnologia e a política. Para os que duvidam, e sabemos que são muitos, considere o seguinte exemplo.

A aposta de 40 anos

Em 1980, um economista fez uma aposta comum ecologista.

Julian Simon, professor de administração da Universidade de Maryland, apostou com Paul Ehrlich, ecologista da Universidade de Stanford, que o custo das matérias-primas cairia ao longo da década. Ehrlich escolheu um conjunto de matérias-primas e os dois concordaram em se reunir novamente em 29 de setembro de 1990. Se os preços subissem (sinal de escassez), Ehrlich ganhava. Mas, se caíssem (um sinal de abundância), Simon ganharia.

O motivo da aposta estava relacionado à visão de mundo de cada homem. Simon foi um forte defensor de que a inovação e a tecnologia nos permitem superar os limites do crescimento. Ehrlich observou os problemas ambientais do mundo e argumentou que o resultado do crescimento populacional seria fome, escassez e ruína.

‘Graças à tecnologia, alimentos saudáveis ​​podem realmente se tornar mais baratos –radicalmente mais baratos– nos próximos 20 anos’

Quarenta anos depois, com o espectro da inflação associado às mudanças climáticas, um debate semelhante está surgindo. Gostaríamos de avançar nossa percepção, mais alinhada com o otimismo expresso por Simon. Acreditamos que, graças à tecnologia, alimentos saudáveis ​​podem realmente se tornar mais baratos –radicalmente mais baratos– nos próximos 20 anos, pois a inovação fornece muitas ferramentas para superar alguns dos problemas causados ​​pela escassez de recursos.

Como podemos fazer isso?

Hoje, uma onda de inovação tecnológica está varrendo os sistemas alimentares e agrícolas. Sementes de melhor qualidade estão ajudando agricultores de todo o mundo a permanecerem produtivos durante as secas.

Tratores inteligentes, novas plataformas de “química verde” e nanotecnologia prometem que em um futuro próximo os agricultores terão colheitas recordes aplicando apenas uma fração dos fertilizantes e pesticidas que antes faziam.

https://interessenacional.com.br/edicoes-posts/cinco-tecnologias-que-ajudarao-a-tornar-o-sistema-alimentar-neutro-em-carbono%ef%bf%bc/

A agricultura celular, que envolve a produção de proteínas animais em biorreatores ou tanques de fermentação, está pronta para produzir uma enorme quantidade de proteína.

E melhorias extraordinárias em iluminação artificial e automação sugerem que até frutas e vegetais poderão em breve ser produzidos a baixo custo em estufas e fazendas verticais próximas aos consumidores.

‘Barato bom’ contra ‘barato ruim’

Mas antes de nos deixarmos levar, há uma nuance importante. Se a comida é barata porque o meio ambiente é explorado, ou trabalhadores agrícolas e animais de fazenda são maltratados, então ter comida barata não resolverá nenhum problema.

Da mesma forma, se a comida barata é de baixa qualidade e não é saudável, isso também não ajuda. Quando se trata de comida barata, temos que distinguir entre “barato bom” e “barato ruim”.

Garantir que acabemos no lado certo dessa equação é onde entra a política. As regulamentações governamentais devem colocar um preço em coisas como emissões de gases de efeito estufa e poluição da água para que os agricultores que são bons administradores do meio ambiente sejam recompensados.

Da mesma forma, o bem-estar animal deve ser protegido e o trabalho compensado adequadamente (tanto na agricultura quanto em toda a economia). Se calibrarmos as políticas certas, então as tecnologias que estão nos dando novas maneiras de produzir alimentos realmente têm potencial para reduzir o custo de uma nutrição saudável, sustentável e acessível. A boa comida não precisa custar a terra.

https://interessenacional.com.br/edicoes-posts/a-geodinamica-do-alimento-a-agroindustria-a-gastronomia-e-a-carne-de-laboratorio-no-cenario-internacional-pos-pandemia/

Quem ganhou a aposta?

O economista ganhou a aposta contra o ecologista. Todos os recursos identificados por Ehrlich diminuíram de preço ao longo da década de 1980. Simon exultou sobre o papel da engenhosidade e inovação. Ehrlich resmungou que escolheu mal, e uma recessão em 1990 diminuiu artificialmente os preços.

Ambos os acadêmicos estavam parcialmente certos e parcialmente errados. Ehrlich subestimou a inovação que Simon celebrou. Mas Simon não apreciava a importância de uma política forte para proteger o trabalho e o meio ambiente.

Ao olharmos para o século XXI, um século que ameaça tanto rupturas massivas, mas também promete grandes inovações, precisamos de duas coisas.

Primeiro, devemos capitalizar a tecnologia que pode nos ajudar a mudar a forma como produzimos alimentos. E nunca podemos esquecer a importância das políticas públicas para garantir que haja um preço justo para coisas como biodiversidade, mudanças climáticas, trabalho humano e bem-estar animal.

Se adotarmos esses dois princípios, há uma chance muito real de conseguirmos reduzir o preço da produção de alimentos saudáveis ​​sem destruir os ecossistemas dos quais todos dependemos para a vida.


*Evan Fraser é diretor do Instituto Arrell Food e professor no Departamento de Geografia, Ambiente e Geomática da University of Guelph

Lenore Newman é diretora de pesquisa em segurança alimentar e ambiente na University of The Fraser Valley


Este texto é uma republicação do site The Conversation sob uma licença Creative Commons. Leia o artigo original, em inglês.


Artigos e comentários de autores convidados não refletem, necessariamente, a opinião da revista Interesse Nacional


Daniel Buarque é editor-executivo do portal Interesse Nacional. Pesquisador no pós-doutorado do Instituto de Relações Internacionais da USP (IRI/USP), doutor em relações internacionais pelo programa de PhD conjunto do King’s College London (KCL) e do IRI/USP. Jornalista, tem mestrado em Brazil in Global Perspective pelo KCL e é autor de livros como "Brazil’s international status and recognition as an emerging power: inconsistencies and complexities" (Palgrave Macmillan), "Brazil, um país do presente" (Alameda Editorial), "O Brazil é um país sério?" (Pioneira) e "o Brasil voltou?" (Pioneira)

Artigos e comentários de autores convidados não refletem, necessariamente, a opinião da revista Interesse Nacional

Cadastre-se para receber nossa Newsletter