A cúpula Xi Jinping – Trump
Cercada de grande expectativa, a reunião de Pequim entre os presidentes das duas superpotências atuais tratou de importantes temas geopolíticos da atualidade, mas não resultou em decisões concretas

Cercada de grande expectativa, a reunião de Pequim entre os presidentes das duas superpotências atuais tratou de importantes temas geopolíticos da atualidade, mas não resultou em decisões concretas, pelo menos não foram anunciadas. Não houve a assinatura de nenhum acordo, nem foi divulgado comunicado ao final do encontro.
A questão de Taiwan, a venda de armas para a ilha, a guerra do Irã e o fechamento do estreito de Ormuz, a guerra da Ucrânia e negócios em alta tecnologia e agricultura foram os principais temas tratados. Segundo Trump, questões tarifárias não foram mencionadas.
‘A cúpula talvez tenha sido uma ocasião para definir os termos em que as duas superpotências devem se relacionar, mais do que obter concessões específicas’
Para os EUA e a China, a cúpula talvez tenha sido uma ocasião para definir os termos em que as duas superpotências devem se relacionar, mais do que obter concessões específicas. Nas palavras e nas informações vazadas, no atual momento, interessou mais buscar uma estabilidade no relacionamento bilateral do que acentuar elementos de confrontação ou provocação.
Nos pronunciamentos públicos, a questão de Taiwan surge, neste momento, como o tópico mais sensível para os dois países. “Se for tratada adequadamente, a relação desfrutará de estabilidade geral, caso contrário, os dois países terão desentendimentos e até conflitos”, segundo o porta-voz de Relações Exteriores da China.
Xi Jinping acentuou que os dois países poderiam entrar em um “lugar extremamente perigoso” se Washington tentasse impedir Pequim de se afirmar em relação a Taiwan. Não houve qualquer reação pública de Trump, talvez por pressão dos CEOs das Big Techs, interessados no mercado chinês.
‘Em relação a Taiwan, os EUA deverão continuar a manter a política de “ambiguidade estratégica”’
Nos próximos dias e semanas, certamente haverá indicações de como evoluíram as conversas. Em relação a Taiwan, os EUA deverão continuar a manter a política de “ambiguidade estratégica”, como afirmou Marco Rubio. A questão é saber se os EUA manterão a posição contra a autonomia da Ilha em relação a China ou vão apenas se opor à independência taiwanesa. O mesmo ocorre com a venda de armas para a Ilha.
Aparentemente, a política de não conversar com a China sobre a venda de armamento, que vem desde Reagan, foi revisada pelo tratamento do assunto nos encontros entre os dois líderes.
A concordância sobre a necessidade de abertura do estreito de Ormuz e o encaminhamento de uma solução para a guerra contra o Irã vai ser testada pela decisão de Washington sobre os próximos passos, dado o impasse nas negociações até aqui.
No tocante à questão nuclear iraniana, apesar das declarações de Washington de que teria havido acordo quanto à proibição do Irã de ter armas nucleares, dificilmente a China iria abandonar seu parceiro e principal fornecedor de petróleo.
Quanto a negócios e tarifas, a venda de 200 aviões da Boeing, de soja e carne não foi confirmada pela China, nem foram anunciados negócios de Big Techs norte-americanas que estiveram na comitiva de Trump.
‘Antes de embarcar no Air Force One de volta aos EUA, todos os membros da delegação norte-americana descartaram literalmente tudo o que haviam recebido das autoridades chinesas’
Para se ter uma ideia do grau de desconfiança existente entre os governos da China e dos EUA, antes de embarcar no Air Force One de volta aos EUA, todos os membros da delegação norte-americana descartaram literalmente tudo o que haviam recebido das autoridades chinesas. Crachás, presentes, pins comemorativos e até telefones celulares descartáveis recebidos que foram utilizados na viagem foram jogados em lixeira na porta do avião, a fim de evitar o risco de espionagem cibernética por parte dos chineses.
A Cúpula mostrou o interesse dos dois governos em uma “estabilidade estratégica construtiva”, caracterizada por dependência mútua e ambivalências em várias frentes. Enquanto Trump saiu do encontro sem nenhum ganho concreto, Xi deixou registrada publicamente a linha vermelha de Taiwan como o fator que irá permitir a competição, sem confrontação.
Presidente e fundador do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior (IRICE). É presidente do Conselho Superior de Comércio Exterior da FIESP, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Trigo (Abitrigo), presidente do Centro de Defesa e Segurança Nacional (Cedesen) e fundador da Revista Interesse Nacional. Foi embaixador do Brasil em Londres (1994–99) e em Washington (1999–04). É autor de Dissenso de Washington (Agir), Panorama Visto de Londres (Aduaneiras), América Latina em Perspectiva (Aduaneiras) e O Brasil voltou? (Pioneira), entre outros.
Artigos e comentários de autores convidados não refletem, necessariamente, a opinião da revista Interesse Nacional