A eleição presidencial e o Brasil
Tudo indica que vamos ter nos próximos quatro anos um difícil cenário interno político e econômico, o que tornará ainda mais crítica a resposta do futuro governo aos desafios externos, em vista da urgência da execução de políticas com uma visão estratégica de médio e longo prazo

Estamos a dois dias de uma das mais importantes eleições presidenciais das últimas décadas. A campanha eleitoral se desenvolveu em meio a dificuldades na economia e na governança política, pela crise do STF e pelo relacionamento entre os Poderes. A corrupção que tomou conta do noticiário e a violência preocupam a sociedade e aumentam a descrença na classe política.
O mundo em grande transformação coloca desafios para o futuro governo e pouco ou nada os candidatos se referem a isso. A interferência externa nas eleições está acontecendo e, na hipótese de um segundo turno com diferença reduzida entre os dois principais candidatos, pode-se esperar a contestação do resultado pelo perdedor, com repercussão externa.
Nesse contexto, a lamentável disputa que ocorre entre alas do STF pode agravar a situação pela clara luta por sobrevivência política e pela continuação da presença delas na Suprema Corte, dependendo do resultado da eleição. O próprio resultado eleitoral poderá ser influenciado por decisões de seus membros. Alguns já projetam a possibilidade de uma crise institucional, depois das eleições, dadas as precárias condições políticas internas.
‘Haverá pouco tempo para preparar um plano de governo para responder às demandas por reformas internas, por políticas emergenciais em setores vulneráveis e por uma definição dos interesses do país no cenário internacional’
Se o resultado da eleição for aceito por todos, haverá pouco tempo para o candidato que se eleger preparar um plano de governo para responder às demandas por reformas internas, por políticas emergenciais em setores vulneráveis e por uma definição dos interesses do país no cenário internacional.
A segurança econômica que EUA, Europa e China estão empenhados a anos a desenvolver e assegurar passa longe das preocupações da classe política e do setor empresarial. Segurança econômica, entendida como a capacidade do Estado de proteger a estabilidade, a resiliência e a continuidade de sua base produtiva, tecnológica, energética, alimentar, logística e financeira diante de choques externos, coerção, dependências críticas e riscos sistêmicos.
A estabilidade econômica e política, além da segurança jurídica, são pressupostos para a atração de investimentos externos para complementar a baixa taxa (16%) de investimento interno em relação ao PIB e desenvolver e fazer crescer o setor industrial e a economia em geral, afetada pela avalanche de exportações da China em muitos setores. A rápida tomada de medidas, a exemplo do que estão fazendo os EUA e a Europa, para minimizar o impacto negativo dos produtos chineses de boa qualidade, baratos e financiados, será crucial na área de uma política de investimentos, industrial e de defesa comercial.
‘Será difícil conseguir um mínimo de racionalidade para a definição das reais prioridades para a segurança econômica e a defesa do interesse nacional dentro desse quadro’
Será difícil conseguir um mínimo de racionalidade para a definição das reais prioridades para a segurança econômica e a defesa do interesse nacional dentro desse quadro. Correções na política econômica para reduzir o déficit fiscal, a queda da taxa de juros, as reformas administrativas e tributárias, uma efetiva política industrial e de absorção de tecnologia passarão ao largo dos primeiros meses do novo governo, seja ele qual for.
Defesa e política externa, que tem de ver com os interesses nacionais, não estarão nas preocupações iniciais do futuro governo, apesar de um dos candidatos aparentemente estar propenso a implementar no Itamaraty reforma importada do governo Trump e fazer um grupo de trabalho com Washington na transição. A questão da governança e do relacionamento entre os três poderes estará no centro das preocupações no começo do governo, com poucas possibilidades de uma solução de curto prazo.
Tudo indica que vamos ter, nos próximos quatro anos, qualquer que seja o presidente eleito, um difícil cenário interno político e econômico, o que tornará ainda mais crítica a resposta do futuro governo aos desafios externos, em vista da urgência da execução de políticas com uma visão estratégica de médio e longo prazo. Qual o Brasil que queremos e para onde vamos não está na agenda dos candidatos a presidente.
Presidente e fundador do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior (IRICE). É presidente do Conselho Superior de Comércio Exterior da FIESP, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Trigo (Abitrigo), presidente do Centro de Defesa e Segurança Nacional (Cedesen) e fundador da Revista Interesse Nacional. Foi embaixador do Brasil em Londres (1994–99) e em Washington (1999–04). É autor de Dissenso de Washington (Agir), Panorama Visto de Londres (Aduaneiras), América Latina em Perspectiva (Aduaneiras) e O Brasil voltou? (Pioneira), entre outros.
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