11 maio 2026

A guerra que ninguém quis declarar – Irã, Israel e EUA em um conflito sem nome, e sem saída clara

Não estamos diante de um conflito que caminha para o fim, mas de uma guerra que se adapta às limitações impostas pelos próprios atores que a conduzem

(U.S. Marine Corps photo by Lance Cpl. David Getz)

Em teoria, guerras começam com declarações formais, linhas de frente definidas e objetivos políticos explicitados. Na prática, o conflito que hoje envolve Irã, Israel e Estados Unidos desafia esse roteiro clássico. Após semanas de ataques diretos, respostas calibradas e sucessivas violações de linhas vermelhas antes consideradas intransponíveis, já não faz sentido perguntar se estamos diante de uma guerra. A pergunta mais precisa, e mais incômoda, é outra: que tipo de guerra é essa, que avança sem nome, sem declaração formal e sem um horizonte claro de encerramento?

O que se observa no Oriente Médio não é mais o padrão conhecido de confronto indireto que marcou as últimas décadas, baseado em operações encobertas e no uso de atores intermediários. 

Durante anos, a interação entre Irã e Israel foi mediada por uma arquitetura de negação plausível, na qual ataques eram atribuídos a fontes indefinidas, sabotagens não eram oficialmente reivindicadas e ações eram conduzidas por grupos alinhados, como o Hezbollah no Líbano ou os Houthis no Iêmen. Esse arranjo permitia aos Estados projetar poder sem assumir formalmente os custos políticos da escalada, preservando uma distância simbólica entre ação e responsabilidade que, embora frágil, contribuía para a manutenção de um equilíbrio instável.

‘O que se desenha é algo mais difuso e, por isso mesmo, mais difícil de conter, uma zona cinzenta na qual instrumentos típicos de guerra coexistem com esforços deliberados de limitação’

Tampouco se trata, agora, de uma guerra convencional. Não há mobilização total, nem ocupações territoriais prolongadas entre os principais atores, nem uma declaração formal que organize o conflito em termos clássicos de início, meio e fim. O que se desenha é algo mais difuso e, por isso mesmo, mais difícil de conter, uma zona cinzenta na qual instrumentos típicos de guerra, como ataques com mísseis, drones e operações diretas, coexistem com esforços deliberados de limitação, tanto no plano militar quanto no discursivo.

Essa combinação produz uma dinâmica paradoxal. De um lado, os ataques diretos rompem com o padrão anterior de ambiguidade e tornam explícito um confronto que antes era cuidadosamente encoberto. De outro, os próprios atores buscam enquadrar essas ações como episódios isolados, respostas pontuais ou medidas defensivas, evitando consolidar a percepção de uma guerra em curso. 

Trata-se, em última instância, de uma tentativa de sustentar simultaneamente duas narrativas incompatíveis, a de que o conflito ultrapassou um limiar qualitativo e a de que ele ainda permanece sob controle.

‘Essa ambivalência não apenas reflete a realidade, mas também a molda’

O problema é que essa ambivalência não apenas reflete a realidade, mas também a molda. Ao operar nesse espaço intermediário, os atores ampliam gradualmente o repertório de ações consideradas aceitáveis, sem que haja um momento claro de ruptura que obrigue uma redefinição estratégica. 

A ausência de um marco formal de escalada não impede a intensificação do conflito. Ao contrário, facilita sua normalização incremental. É assim que a exceção se transforma em rotina e que a guerra deixa de ser percebida como um evento extraordinário para se tornar uma condição difusa, incorporada ao funcionamento regular das relações regionais.

Durante anos, a estabilidade regional foi sustentada por uma ambiguidade estratégica funcional, que não eliminava o conflito, mas o mantinha dentro de limites politicamente administráveis. 

O Irã projetava poder por meio de uma rede capilar de aliados e milícias, como o Hezbollah no Líbano e outros atores não estatais distribuídos pela região, expandindo sua influência sem se expor diretamente aos custos de uma confrontação aberta. Ao mesmo tempo, Israel desenvolveu uma doutrina de respostas cirúrgicas, frequentemente não reivindicadas, voltadas a degradar capacidades adversárias sem produzir uma escalada imediata. Já os Estados Unidos atuavam como garantidores externos de um equilíbrio precário, intervindo de forma seletiva para impedir que crises localizadas se transformassem em guerras regionais de maior escala.

‘A incerteza sobre autoria, intenção e limites funcionava como um freio implícito, permitindo que cada ator calibrasse suas ações sem forçar o adversário a uma resposta direta e inevitável’

Esse arranjo não era estável no sentido clássico, mas operava como um mecanismo de contenção baseado na opacidade. A incerteza sobre autoria, intenção e limites funcionava como um freio implícito, permitindo que cada ator calibrasse suas ações sem forçar o adversário a uma resposta direta e inevitável. A negação plausível não era apenas um recurso retórico, mas um elemento estruturante da ordem regional, na medida em que oferecia uma saída política para evitar a escalada, mesmo diante de episódios de violência recorrentes.

O que se observa agora é a erosão progressiva desse mecanismo. Ataques diretos entre os principais atores reduziram drasticamente o espaço para a ambiguidade, tornando mais difícil sustentar a separação entre ação e responsabilidade. 

À medida que a autoria se torna explícita, aumenta também a pressão por respostas igualmente diretas, o que encurta os ciclos de decisão e eleva o risco de encadeamentos escalatórios. 

A lógica anterior, baseada na distância, na dissimulação e na fragmentação dos confrontos, já não consegue absorver o impacto de ações que são, ao mesmo tempo, mais visíveis e mais politicamente incontornáveis.

‘Mais do que uma simples intensificação da violência, trata-se de uma transformação qualitativa na forma como o conflito é conduzido’

Mais do que uma simples intensificação da violência, trata-se de uma transformação qualitativa na forma como o conflito é conduzido. O que antes era gerido por meio de zonas de sombra passa a ocorrer sob maior exposição pública e com menor margem para recuos táticos. 

Nesse novo contexto, a ambiguidade deixa de funcionar como instrumento de estabilização e passa a ser percebida como insuficiente ou até contraproducente, contribuindo para um cenário em que os mecanismos informais de contenção perdem eficácia justamente quando se tornam mais necessários.

Se a guerra que se desenrola no Oriente Médio desafia as categorias tradicionais que organizam o uso da força no sistema internacional, o cessar-fogo recentemente anunciado não altera esse diagnóstico. Ao contrário, ele o reforça. Longe de representar um encerramento claro das hostilidades, o acordo surge como uma tentativa de conter, ainda que provisoriamente, uma dinâmica que já escapou aos mecanismos convencionais de controle. 

Não há redefinição substantiva dos objetivos estratégicos, nem reconstrução de canais políticos capazes de sustentar uma estabilização duradoura. O que se observa é uma suspensão tática, inscrita em um contexto no qual os fundamentos do conflito permanecem inalterados.

‘Em vez de encerrar uma guerra reconhecida, o cessar-fogo intervém em um conflito cuja própria natureza permanece ambígua, sem delimitações claras entre escalada e contenção’

Isso revela um problema mais profundo. Em guerras convencionais, o cessar-fogo tende a funcionar como um marco de transição, ainda que precário, entre a violência aberta e algum tipo de reorganização política. No cenário atual, ele opera de maneira distinta. Em vez de encerrar uma guerra reconhecida, ele intervém em um conflito cuja própria natureza permanece ambígua, sem delimitações claras entre escalada e contenção. Essa indeterminação reduz sua eficácia como instrumento de estabilização e amplia a probabilidade de recorrência da violência, uma vez que os limites do aceitável já foram deslocados.

O risco, portanto, não reside apenas na possibilidade de uma nova rodada de confrontos, mas na consolidação de um padrão em que episódios de guerra e momentos de contenção se alternam sem produzir resolução. 

Nesse tipo de dinâmica, a exceção deixa de ser percebida como ruptura e passa a integrar a normalidade estratégica. A guerra não termina, mas também não se apresenta como tal. Ela se dilui em ciclos sucessivos de intensificação e pausa, cada vez mais difíceis de distinguir de um estado permanente de instabilidade.

Talvez o elemento mais inquietante desse processo seja justamente sua aparência de controle. O cessar-fogo oferece a imagem de contenção, mas não reverte as condições que tornaram o conflito possível. Ao contrário, pode contribuir para sua continuidade ao permitir que os atores reconstituam capacidades, recalibrem estratégias e preparem os próximos movimentos sem enfrentar os custos políticos de uma escalada contínua. Nesse sentido, mais do que encerrar a guerra, o cessar-fogo a reorganiza.

Não estamos, portanto, diante de um conflito que caminha para o fim, mas de uma guerra que se adapta às limitações impostas pelos próprios atores que a conduzem. E é precisamente essa capacidade de adaptação, operando em uma zona cinzenta entre guerra e paz, que torna o cenário atual não apenas instável, mas estruturalmente difícil de resolver.

Karina Stange Calandrin é colunista da Interesse Nacional, professora de relações internacionais no Ibmec-SP e na Uniso, pesquisadora de pós-doutorado do Instituto de Relações Internacionais da USP e doutora em relações internacionais pelo PPGRI San Tiago Dantas (Unesp, Unicamp e PUC-SP).

Artigos e comentários de autores convidados não refletem, necessariamente, a opinião da revista Interesse Nacional

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Guerra 🞌

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