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03 setembro 2026

A inteligência artificial, os EUA, a China e a nova fronteira na disputa pela hegemonia

A rivalidade entre Washington e Pequim impacta diretamente o mercado mundial de tecnologia. Em ‘briga de cachorro grande’, melhor será mantermos independência, auferindo as melhores vantagens para nós: é a politica do “pragmatismo responsável”, do nosso grande Chanceler, Azeredo da Silveira

Imagem: ChatGPT

Em 1981, por iniciativa de Deng Xiaoping, o Banco Mundial aprovou um empréstimo para a China no montante de US$ 200 milhões, equivalentes a cerca de US$ 750 milhões de hoje. Este montante era inteiramente destinado à qualificação de pessoal nas áreas de tecnologia, engenharia, matemática, computação, etc. Para tanto, foram enviados estudantes às melhores universidades dos EUA e da Europa, e criados canais de interação entre as universidades chinesas e estrangeiras nas áreas de ciências.

Em consequência, entre 1981 e 2020, cerca de seis milhões de chineses estudaram no exterior. Antes de 2000, menos da metade retornava à China. Para estimular a volta foram criados programas de incentivo aos retornados; como consequência, após 2010, mais de 80% passaram a se realocar no país em algum momento de suas carreiras. Esta política foi um sucesso: em 2025, segundo o índice global de inovação da World Intellectual Property Organization (Wipo) dos 100 principais clusters de inovação no mundo, a China tinha 24, e os EUA 22.

‘XV Plano Quinquenal (2026/30) foca na autossuficiência tecnológica, a inteligência artificial, as energias renováveis e a transição para um modelo de crescimento centrado em inovação e no fortalecimento do mercado interno’

Esta política de desenvolvimento tecnológico está inserida no XV Plano Quinquenal (2026/30) aprovado em março deste ano, pelo qual o governo chinês definiu as metas estratégicas para o próximo quinquênio. O documento foca entre elas a autossuficiência tecnológica, a inteligência artificial, as energias renováveis e a transição para um modelo de crescimento centrado em inovação e no fortalecimento do mercado interno. Ele funciona como consolidação dos planos que já estão em andamento.

Desta feita, o principal destaque foi o desenvolvimento de tecnologias de Inteligência Artificial (IA). Diferentemente da política americana de manter este setor restrito às grandes empresas que já o dominam, o governo chinês estabeleceu como foco um código aberto, de baixo custo e alta eficiência.

Durante anos, a corrida da inteligência artificial foi lida por uma métrica simples: quem tem o modelo mais avançado, vence. Essa lente já não explica sozinha o que está ocorrendo em 2026.

A China se aproximou o suficiente dos americanos na fronteira tecnológica e em desempenho para que a disputa se desloque para um segundo terreno: o preço. Os modelos chineses chegam a custar 80% menos que os americanos, e viabilizam o retorno dos bilhões de yuans investidos em pesquisa e desenvolvimento.

‘A inteligência artificial na China avança rapidamente e desafia o domínio dos Estados Unidos: com foco em código de IA aberto, de baixo custo e alta eficiência’

Segundo os especialistas, a inteligência artificial na China avança rapidamente e desafia o domínio dos Estados Unidos: com foco em código de IA aberto, de baixo custo e alta eficiência, o país se posiciona como um líder global competitivo.

Neste contexto, em meados de julho passado, realizou-se em Xangai uma conferência que reuniu 29 países, ao cabo da qual foi criada a World Artificial Intelligence Cooperation Organization (Waico), descrita por Xi Jinping na abertura do encontro como um importante marco na história do desenvolvimento da inteligência artificial no mundo. As companhias chinesas se comprometeram a tornar a IA amplamente disponível por meio de open source models, e o governo chinês propô-se a treinar os países a capacitar milhares de pessoas na sua aplicação.

E está “aliciando” especialistas. O cientista Omar M. Yaghi, vencedor do Prêmio Nobel de Química de 2025, deixou o seu cargo de professor na Universidade da Califórnia, em Berkeley, para se dedicar integralmente à Universidade de Tsinghua, em Pequim. Conforme comunicado divulgado pela instituição, o pesquisador liderará um novo centro focado na aceleração da descoberta de materiais por meio de inteligência artificial.

‘Instalou-se uma espécie de “divisão de competências”: enquanto os EUA lideram na inovação de ponta, a China se destaca na sua implementação em larga escala, na manufatura, e no controle das cadeias de suprimentos’

Instalou-se, desta forma, uma espécie de “divisão de competências”: enquanto os EUA lideram na inovação de ponta, especialmente em semicondutores, na (ainda) fronteira da Inteligência Artificial, a China se destaca na sua implementação em larga escala, na manufatura, e no controle das cadeias de suprimentos, inclusive de minerais críticos e outros insumos industriais, baseada no menor custo dos seus produtos.

E o avanço não depende de um único laboratório: ela conta hoje com centenas de grandes modelos de linguagem autorizados, como Alibaba, Tencent, Baidu, DeepSeek, Moonshot, e MiniMax, etc. que disputam entre si o desempenho e, simultaneamente, a adoção de seus produtos.

A rivalidade entre Washington e Pequim impacta diretamente o mercado mundial de tecnologia. Os Estados Unidos impõem restrições severas à empresa Huawei, de equipamentos para redes e telecomunicações sediada em Shenzhen, na China. Conforme recordamos, os americanos tentaram convencer seus aliados a banirem os equipamentos da marca; lembremo-nos da forte pressão diplomática que exerceram sobre nós durante os leilões de 5G no Brasil, em novembro de 2021. Conforme recordamos, confrontando essas pressões, nós mantivemos a abertura do nosso mercado para todas as redes de telecomunicações, sem proibir sumariamente a companhia asiática, desta forma preservando simultaneamente os laços comerciais com a China — nosso principal parceiro comercial — e o diálogo com os Estados Unidos.

Para onde vamos nós num segmento fundamental para o futuro do planeta? Em “briga de cachorro grande”, melhor será – acredito – mantermos independência, auferindo as melhores vantagens para nós: é a politica do “pragmatismo responsável”, do nosso grande Chanceler, Azeredo da Silveira; ou “trocando em miúdos”, a do “gato”, de Deng Xiaoping: não importa a sua cor, desde que cace ratos…

Fausto Godoy é colunista da Interesse Nacional. Bacharel em direito, doutor em direito internacional público pela Universidade de Paris (I) e diplomata, serviu nas embaixadas do Brasil em Bruxelas, Buenos Aires e Washington. Concentrou sua carreira na Ásia, onde serviu em onze países. Foi embaixador do Brasil no Paquistão e Afeganistão (2004/2007) e Cônsul-Geral em Mumbai (2009/10). É coordenador do “Centro de Estudos das Civilizações da Ásia” da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) e curador da Ala Asiática do MON.

Artigos e comentários de autores convidados não refletem, necessariamente, a opinião da revista Interesse Nacional

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