23 abril 2026

A transição do sistema global e os riscos para o Brasil na entrevista do embaixador Rubens Barbosa 

A entrevista com o embaixador Rubens Barbosa no Roda Viva, transmitida em 13 de abril de 2026, traz uma análise contundente sobre a transição do sistema global e os riscos específicos para o Brasil. A mensagem central é que o mundo mudou de um modelo de “cooperação” para um de “competição agressiva”, e o Brasil […]

A entrevista com o embaixador Rubens Barbosa no Roda Viva, transmitida em 13 de abril de 2026, traz uma análise contundente sobre a transição do sistema global e os riscos específicos para o Brasil.

A mensagem central é que o mundo mudou de um modelo de “cooperação” para um de “competição agressiva”, e o Brasil precisa de uma estratégia de Estado — e não de governo — para navegar nessas águas turvas. Em suma, para Rubens Barbosa, a reputação atual do Brasil no exterior é de um país com grande potencial, mas que está “desorientado” e excessivamente focado em retórica ideológica em vez de estratégia de longo prazo.

No início da entrevista, Barbosa afirma que o mundo vive uma ruptura definitiva com os últimos 80 anos de estabilidade, como a ruptura com a ordem global [03:53]. Em um contexto “fim das regras”, ele descreve o cenário atual como a “lei da selva”, onde instituições como a ONU e a OMC perderam a eficácia e o multilateralismo está em colapso. Ainda, sobre o “Fator Trump”, o embaixador pontua que a política externa e comercial dos EUA (especialmente após a posse de Trump em 2025) acelerou essa fragmentação, priorizando interesses nacionais sobre acordos globais.

Na metáfora que identifica o Brasil como um “gigante de pés de barro”, um ponto central da crítica de Barbosa é a vulnerabilidade estratégica brasileira, especialmente no agronegócio [07:11].

Menciona a dependência de fertilizantes, pois embora o Brasil seja o “celeiro do mundo”, importa 90% dos fertilizantes, muitos vindos de áreas de conflito (Rússia, China, Irã). Também, sobre logística e custos, os conflitos como os no Estreito de Ormuz elevam o frete, o seguro e o preço do petróleo, impactando diretamente o custo de produção nacional e a inflação [09:12].

Ele reforça que, embora o Brasil tenha uma reputação positiva como potência ambiental e agrícola, essa imagem é fragilizada pela falta de segurança jurídica e estabilidade política. Para ele, o investidor estrangeiro olha para o Brasil e vê um “gigante de pés de barro” devido à dependência externa de insumos básicos e à instabilidade institucional.

O embaixador argumenta que o Brasil perdeu sua “visão de Estado” em favor de pautas ideológicas [36:06]. Também, comenta sobre uma neutralidade ativa, em que defende que o Brasil deve manter independência, não se alinhando automaticamente nem aos EUA nem à China, focando no interesse nacional como a Índia faz [28:17]. 

Ele aponta que declarações presidenciais sobre conflitos como os de Gaza e Ucrânia geraram desgaste diplomático e perda de credibilidade perante grandes potências e investidores [39:55]. Há um peso das declarações presidenciais que, no exterior, a palavra do presidente tem um peso enorme. Críticas ou posicionamentos sobre esses conflitos, em certos círculos na Europa e nos EUA, parece como se o Brasil estivesse “escolhendo o lado errado” ou agindo de forma provocativa.

Sobre as áreas estratégicas e defesa do Brasil, para Rubens Barbosa, os recursos naturais necessitam políticas claras para minerais estratégicos (terras raras) e corre riscos futuros relacionados à sua abundância de água doce [01:20:02].

Quanto a soberania e defesa, ele alerta que as Forças Armadas brasileiras carecem de meios e orçamento previsível para proteger fronteiras porosas e a vasta costa marítima (Pré-sal) [01:18:06].

Já quanto às oportunidades, reforça um acordo Mercosul-União Europeia. Barbosa vê o acordo com a União Europeia como uma oportunidade geopolítica crucial para o Brasil encontrar um “terceiro caminho” entre a polarização EUA-China [01:05:52]. No entanto, alerta que a indústria brasileira terá dificuldades imensas de competitividade frente aos produtores europeus e asiáticos [52:01].

Considerando a imagem do Brasil, o embaixador reforça que a projeção externa é reflexo da “casa em ordem”. Sem segurança jurídica e estabilidade política interna, o Brasil não consegue converter seus ativos (alimentos, energia limpa e meio ambiente) em influência real [31:01].

Portanto, com a relevância diplomática da “casa em ordem”, Barbosa resume que a projeção externa e a reputação do Brasil são o resultado direto do que acontece dentro do país. Sem governança e constância interna, a imagem internacional continua sofrendo.

Fabiana Gondim Mariutti atua como pesquisadora, professora universitária e consultora. Ph.D. na Inglaterra, pós-doutorado, doutorado e mestrado em Administração, bacharel em Comunicação Social no Brasil e senior high school year nos EUA. Estuda a imagem, reputação e marca Brasil desde 2010. Interesse nas áreas de Place Branding e Public Diplomacy. Nomeada Place Brand Expert pelo The Place Brand Observer, na Suíça. Colunista no Portal Interesse Nacional e do iii-Brasil. Autora de artigos científicos, dois livros e sete capítulos de livros. Em 2025, no Handbook on Public Diplomacy, publica o capítulo "The Brazilian way: Public diplomacy as a means for positive image and global prestige".

Artigos e comentários de autores convidados não refletem, necessariamente, a opinião da revista Interesse Nacional

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