25 outubro 2023

Ação humana é mais preponderante que mudanças climáticas como causa de incêndios na Amazônia

Análises dos incêndios florestais de 2011 a 2020 revelam uma realidade preocupante: a frequência e a intensidade das queimadas em biomas onde os incêndios florestais não ocorrem de maneira natural já estão quase no mesmo nível daquelas que ocorrem em biomas onde o fogo é um elemento natural

Análises dos incêndios florestais de 2011 a 2020 revelam uma realidade preocupante: a frequência e a intensidade das queimadas em biomas onde os incêndios florestais não ocorrem de maneira natural já estão quase no mesmo nível daquelas que ocorrem em biomas onde o fogo é um elemento natural

Durante a época mais seca na Região Norte, grileiros e desmatadores provocam queimadas e incêndios florestais criminosos (Foto: Christian Braga/Greenpeace)

Por Luisa Maria Diele-Viegas*

Nos últimos meses, a Amazônia tem sido alvo de incêndios florestais cada vez mais frequentes e intensos, levando Manaus, a maior cidade amazônica do Brasil, a se tornar uma das piores cidades do planeta no que diz respeito à qualidade do ar, devido à densa fumaça que a encobre.

Essa situação chama a atenção para a urgência de compreender as complexas dinâmicas por trás dos incêndios na região e sua relação com as mudanças climáticas e a intervenção humana.

Análises dos incêndios florestais de 2011 a 2020 revelam uma realidade preocupante: a frequência e a intensidade das queimadas em biomas onde os incêndios florestais não ocorrem de maneira natural – como a Caatinga, a Mata Atlântica e a própria Amazônia – já estão quase no mesmo nível daquelas que ocorrem em biomas onde o fogo é um elemento natural – como o Cerrado, Pampa e Pantanal. Ou seja, enquanto fatores climáticos desempenham um papel importante na propagação desses incêndios, a influência antropogênica tem sido identificada como sua principal causa.

Desmatamento e práticas agrícolas

À medida que as florestas são derrubadas para dar lugar a atividades agropecuárias, a vegetação cortada e seca se torna um combustível ideal para os incêndios

O desmatamento é uma das principais ações humanas que tornam a Amazônia vulnerável a incêndios. À medida que as florestas são derrubadas para dar lugar a atividades agropecuárias, a vegetação cortada e seca se torna um combustível ideal para os incêndios. Além disso, a expansão da infraestrutura, como estradas e ferrovias, muitas vezes está associada ao desmatamento, uma vez que áreas previamente inacessíveis se tornam acessíveis para atividades humanas. Essa expansão cria pontos de ignição para incêndios, seja por meio de faíscas geradas por veículos ou degradação das áreas próximas à infraestrutura.

Somado ao desmatamento, o fogo é frequentemente usado como uma ferramenta para limpar terras para pastagem e plantio, criando um ciclo perigoso de degradação ambiental. Essa prática de queimadas controladas é comum na agricultura e na pecuária na região amazônica. No entanto, o uso inadequado do fogo pode facilmente sair de controle, resultando em incêndios florestais devastadores. As queimadas destinadas a preparar a terra para o plantio ou limpar pastagens muitas vezes se espalham para áreas florestais, levando a incêndios de grande escala.

Mudanças climáticas

Embora as ações humanas sejam um fator determinante nos incêndios da Amazônia, as mudanças climáticas desempenham um papel relevante na sua propagação. O aumento das secas, das temperaturas médias e a redução das chuvas criam condições mais favoráveis à propagação do fogo em maior intensidade. Além disso, a degradação causada pelos incêndios pode criar feedbacks negativos, tornando a floresta menos capaz de reter água e, assim, agravando a seca e as condições propícias para mais incêndios.

A necessidade de medidas imediatas

Os incêndios causados por ação humana na Amazônia têm como consequência a perda de biodiversidade e a emissão de grandes quantidades de gases do efeito estufa para a atmosfera, além de afetar as comunidades locais, ameaçando sua saúde e meios de subsistência

A influência antropogênica nos incêndios florestais da Amazônia, associada aos efeitos das mudanças climáticas, é uma questão crítica e complexa. Os incêndios causados por ação humana na Amazônia têm como consequência a perda de biodiversidade e a emissão de grandes quantidades de gases do efeito estufa para a atmosfera, além de afetar as comunidades locais, ameaçando sua saúde e meios de subsistência.

A fumaça proveniente dos incêndios tem impactos na qualidade do ar, o que pode ter efeitos adversos na saúde respiratória das pessoas, como tem sido observado nas últimas semanas em Manaus.

Para mitigar essa ameaça, é essencial que haja um esforço conjunto para combater o desmatamento ilegal, promover práticas agrícolas sustentáveis e adotar estratégias de mitigação das mudanças climáticas e prevenção e controle de incêndios. Além disso, a sensibilização popular e a educação ambiental são fundamentais para garantir que as comunidades locais compreendam os impactos negativos dessas práticas e possam adotar alternativas mais sustentáveis.

A Amazônia desempenha um papel vital na estabilização do clima global e na manutenção da biodiversidade. Proteger essa região requer esforços concertados para mitigar a influência humana nos incêndios florestais e garantir um futuro sustentável para a floresta e suas comunidades.


*Luisa Maria Diele-Viegas é vice-presidente executiva da Associação Brasileira de Ciência Ecológica e Conservação (ABECO) e professora visitante, Universidade Federal da Bahia (UFBA)


Este texto é uma republicação do site The Conversation sob uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.


Artigos e comentários de autores convidados não refletem, necessariamente, a opinião da revista Interesse Nacional


Este texto é uma republicação do site The Conversation sob uma licença Creative Commons. Leia o artigo original em https://theconversation.com/br

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