As ações militares dos EUA na América Latina
A expansão das operações militares dos EUA contra o narcotráfico na América Latina preocupa as Forças Armadas brasileiras pelo risco de intervenções estrangeiras. A possível adesão do Brasil ao Escudo das Américas em um eventual governo Flávio Bolsonaro exigirá negociações para preservar a soberania nacional e impedir ações unilaterais norte-americanas em território brasileiro.

As Forças Armadas brasileiras estão preocupadas com a pressão dos EUA junto aos países latino-americanos pela crescente presença militar norte-americana na região, no combate às chamadas organizações terroristas.
Até aqui, o Escudo das Américas – iniciativa de Donald Trump, integrada por 14 países latino-americanos para combater o tráfico de drogas – a ação política mais importante de Washington na região – justificaram o aumento da cooperação militar dos EUA com diversos países, em especial com o Equador, Honduras e Colômbia. México e Brasil, os dois maiores países latino, não aderiram ao Escudo da Américas e são críticos dessa ação intervencionista.
‘A principal preocupação dos militares brasileiros reside no fato de que essa iniciativa iria além da cooperação tradicional existente, com a possibilidade de operações estrangeiras em território nacional’
A principal preocupação dos militares brasileiros reside no fato de que essa iniciativa iria além da cooperação tradicional existente, com a possibilidade de operações estrangeiras em território nacional, desdobramento sem precedentes na relação na área de Defesa entre os dois países. O fato de as organizações criminosas terem sido classificadas como terroristas deixa a situação ainda mais sensível, por possível eventual operação militar.
Essa preocupação militar deverá aumentar com as notícias do New York Times de que os EUA enviarão 600 militares para o combate os cartéis criminosos na América Latina. As tropas serão enviadas para uma nova instalação de treinamento na selva do Panamá. Os militares treinarão com forças da Colômbia e de Honduras e poderão apoiar incursões terrestres contra traficantes de drogas.
Essa movimentação coincide com a recente transferência de drones MQ-2 Reaper da África para a Colômbia e Equador, certamente com a intenção de respaldar essas operações militares e com declarações de Trump segundo as quais estaria estimulando os países membros do Escudo a utilizar forças militares no combate aos grupos chamados de terroristas.
‘A declarada intenção do candidato Flávio Bolsonaro, se eleito, de aderir ao Escudo das Américas terá múltiplas implicações. Questões de soberania, como explicitado pelos militares, estarão entre as principais preocupações’
A declarada intenção do candidato Flávio Bolsonaro, se eleito, de aderir ao Escudo das Américas terá múltiplas implicações. Questões de soberania, como explicitado pelos militares, estarão entre as principais preocupações. A aceitação da classificação das organizações do crime organizado em cartéis terroristas poderá ter consequências para empresas brasileiras que venham a ser acusadas de cooperar com esses grupos, segundo a percepção dos EUA.
O eventual ingresso do Brasil no Escudo das Américas não significa uma autorização automática para operações militares norte-americanas em território nacional. Poderá haver operações conjuntas contra o narcotráfico em áreas de fronteira, mas a decisão de executar essas operações deverá ser precedida de negociação e estabelecimento de regras claras que preservar a autonomia e a soberania do país.
Caso um eventual governo de Flávio Bolsonaro decida efetivamente aderir ao Escudo das Américas, será necessária uma negociação bilateral prévia para impedir qualquer ação unilateral dos EUA em território nacional.
‘Mais grave é a declaração do comandante militar norte-americano de maior patente na América Latina de que o Pentágono planeja expandir suas missões antidrogas, passando de ataques a embarcações no Caribe e no Pacífico para ataques em terra’
Do ponto de vista do Brasil, o mais grave, se houver a adesão ao Escudo das Américas, a partir de janeiro de 2027, é a declaração do comandante militar norte-americano de maior patente na América Latina, o general Francis Donavan, de que o Pentágono planeja expandir suas missões antidrogas, passando de ataques a embarcações no Caribe e no Pacífico para ataques em terra. Essa política deixa em aberto a possibilidade de ações militares no território de qualquer país da região.
Resta saber se o novo ministério da Defesa vai efetivamente resistir à adesão do Brasil ao Escudo das Américas.
Presidente e fundador do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior (IRICE). É presidente do Conselho Superior de Comércio Exterior da FIESP, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Trigo (Abitrigo), presidente do Centro de Defesa e Segurança Nacional (Cedesen) e fundador da Revista Interesse Nacional. Foi embaixador do Brasil em Londres (1994–99) e em Washington (1999–04). É autor de Dissenso de Washington (Agir), Panorama Visto de Londres (Aduaneiras), América Latina em Perspectiva (Aduaneiras) e O Brasil voltou? (Pioneira), entre outros.
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