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23 outubro 2026

As eleições de domingo e o futuro do Brasil

Pela primeira vez na história política brasileira, o resultado das urnas terá uma significativa repercussão na área externa. Em outras palavras, o fator externo (político e comercial) impactarão a economia nacional, qualquer que seja o resultado eleitoral

Pessoas acompanham pela TV, em um estabelecimento comercial, o debate na TV Bandeirantes entre os candidatos à Presidência da República, Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro. Foto: Joédson Alves/Agência Brasil

Daqui a dois dias, com o resultado da eleição presidencial, vamos decidir o futuro do Brasil nos próximos quatro anos e talvez mais.

Nunca na história deste país houve uma campanha eleitoral tão vazia na discussão dos problemas que realmente afetam os brasileiros em geral e tão agressiva nos ataques pessoais recíprocos. A polarização e o desrespeito às leis eleitorais vigentes foram marcas importantes desse momento. Nesta sexta-feira (23) ocorrerá o último debate entre os dois candidatos. Será a última oportunidade dos que ainda estão indecisos, avaliarem o seu apoio a um deles.

A disputa eleitoral deste ano apresenta uma particularidade que nunca esteve presente nas eleições anteriores e, por isso, não está no radar dos votantes, nem dos políticos, nem dos analistas e, infelizmente, nem dos candidatos. Pela primeira vez na história política brasileira, o resultado das urnas terá uma significativa repercussão na área externa. Em outras palavras, o fator externo (político e comercial) impactarão a economia nacional, qualquer que seja o resultado eleitoral.

‘Haverá consequência profundas para a economia nacional com reflexo negativo sobre o agronegócio e sobre as perspectivas futuras de independência e autonomia do país’

Dependendo do rumo da política externa, haverá consequência profundas para a economia nacional com reflexo negativo sobre o agronegócio e sobre as perspectivas futuras de independência e autonomia do país.

De um lado, o alinhamento do Brasil aos EUA poderá ter consequências no relacionamento com a China, o maior parceiro comercial do país e, do ponto de vista político, resultar em impacto negativo para a soberania e o interesse nacional.

Caso haja restrições à China no relacionamento comercial e econômico-financeiro por pressão dos EUA, Pequim poderá aplicar nova legislação interna aplicando reciprocidade com restrições as exportações do agro ao mercado chines.

A adesão ao Escudo das América significará a adesão à políticas intervencionistas dos EUA no combate aos narcoterroristas, com o emprego das Forças Armadas, inclusive no Brasil. O alinhamento com Israel levará a mudança da política externa em relação ao Oriente Médio, inclusive no tocante a criação do Estado Palestino.

‘O Itamaraty poderá ser ainda mais afetado por uma faxina anunciada em seu funcionamento e em relação aos diplomatas’

Todas essas mudanças unilaterais, sem qualquer contrapartida. O Itamaraty poderá ser ainda mais afetado por uma faxina anunciada em seu funcionamento e em relação aos diplomatas.

De outro lado, a continuação da política externa ideológica e partidária prejudicará a formulação e a execução de medidas que reflitam o efetivo interesse da sociedade e das empresas nacionais. O Brasil ficará isolado na América do Sul em termos ideológicos dificultando uma nova política de aproximação política e comercial com os vizinhos e a relação com os EUA, a começar com a possibilidade de contestação do resultado das eleições de domingo e de confrontação com Washington na questão do combate ao crime organizado, da exploração dos minérios estratégicos e da regulamentação das Big Techs, de acordo com a Estratégia de Segurança Nacional e a nova doutrina de influencia e dominação na América Latina.

‘Do outro lado, o Itamaraty continuará esvaziado e marginalizado na decisão das principais linhas de atuação externa do país e com problemas orçamentários ‘

O Itamaraty continuará esvaziado e marginalizado na decisão das principais linhas de atuação externa do país e com problemas orçamentários que prejudicam o funcionamento da Instituição e afetam os funcionários diplomáticos.

O mundo mudou e o Brasil poderá continuar a ignorar as transformações tecnológicas e as inovações. A perda de sua soberania agravará a situação da economia, do agronegócio e da indústria. A segurança, a defesa, a política externa e o meio ambiente ficarão afetados no momento em que o peso do Brasil como uma das dez maiores economias do mundo exigiria uma autonomia para definir medidas de segurança econômica para reduzir suas vulnerabilidades e aumentar sua resiliência para enfrentar os novos desafios globais.

Presidente e fundador do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior (IRICE). É presidente do Conselho Superior de Comércio Exterior da FIESP, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Trigo (Abitrigo), presidente do Centro de Defesa e Segurança Nacional (Cedesen) e fundador da Revista Interesse Nacional. Foi embaixador do Brasil em Londres (1994–99) e em Washington (1999–04). É autor de Dissenso de Washington (Agir), Panorama Visto de Londres (Aduaneiras), América Latina em Perspectiva (Aduaneiras) e O Brasil voltou? (Pioneira), entre outros.

Artigos e comentários de autores convidados não refletem, necessariamente, a opinião da revista Interesse Nacional

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