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30 julho 2026

As ‘midterms’ nos EUA e os desafios de Donald Trump

Por Roberto Rodolfo Georg Uebel, Kauê Alexandrino Gelascov e Anthony Inforçatti Oaks As eleições de meio de mandato de 2026, realizadas durante o segundo mandato de Donald Trump, representam um momento de inflexão na política norte-americana.  Diferentemente das eleições presidenciais, as midterms funcionam como um referendo sobre o desempenho do governo em exercício, e neste […]

Foto: Casa Branca

Por Roberto Rodolfo Georg Uebel, Kauê Alexandrino Gelascov e Anthony Inforçatti Oaks

As eleições de meio de mandato de 2026, realizadas durante o segundo mandato de Donald Trump, representam um momento de inflexão na política norte-americana. 

Diferentemente das eleições presidenciais, as midterms funcionam como um referendo sobre o desempenho do governo em exercício, e neste caso, o conjunto de políticas adotadas por Trump — tanto no plano interno quanto externo — cria um ambiente de elevada tensão que pode redefinir a composição do congresso e, por consequência, os rumos da governabilidade nos Estados Unidos.

No campo da política migratória, o ICE tem desempenhado um papel central, intensificando deportações e operações de fiscalização. Essa postura rígida, embora vista por parte da base republicana como necessária para garantir a segurança nacional, gera forte resistência em comunidades latinas e em setores progressistas. 

‘A política migratória não apenas afeta diretamente a vida de milhares de pessoas, mas também se converte em um fator estratégico para a configuração do congresso’

Estados como Flórida e Texas, que concentram grandes populações de imigrantes, tornam-se palcos de disputas eleitorais acirradas, já que a percepção de repressão e insegurança tende a mobilizar votos contrários ao governo. Assim, a política migratória não apenas afeta diretamente a vida de milhares de pessoas, mas também se converte em um fator estratégico para a configuração do congresso.

A guerra contra o Irã representa outro eixo de tensão. A escalada militar trouxe custos econômicos elevados, pressionando o orçamento federal e limitando investimentos em áreas sociais. Além disso, a guerra gerou protestos internos e críticas internacionais, fragilizando a imagem dos Estados Unidos como potência estabilizadora. 

Esse desgaste político pode se refletir nas urnas, especialmente entre jovens e setores progressistas, que veem a intervenção como um retrocesso em relação a uma política externa mais diplomática. 

‘A guerra influencia diretamente a dinâmica eleitoral doméstica’

A guerra, portanto, não apenas redefine a posição dos EUA no cenário internacional, mas também influencia diretamente a dinâmica eleitoral doméstica.

O paralelo com a guerra do Vietnã, principalmente após o presidente Trump declarar que não descarta a incursão terrestre, se faz necessário. Uma lição que parecia ter sido apreendida pelos norte-americanos, com uma guerra que durou aproximadamente 20 anos, retorna ao palco, o famoso “boots on the ground” leva a desgastes na conjuntura internacional mas especialmente na nacional, pois haveria soldados norte-americanos de famílias de eleitores indo para uma guerra no Oriente Médio, mesmo que isto não tenha ocorrido só de haver a possibilidade não agradaria cidadão estadunidenses. Portanto, em um momento de midterms isto se faz ainda mais evidente e pode ser decisivo em uma das eleições mais importantes dos últimos anos.

Na Venezuela, a intervenção norte-americana resultou na captura de Nicolás Maduro e em ganhos estratégicos, como maior acesso ao petróleo. Contudo, a contradição entre celebrar a queda do regime e reprimir imigrantes venezuelanos nos EUA gera críticas e pode reduzir o apoio de comunidades exiladas. 

A política para Cuba segue linha semelhante: o bloqueio de combustível e a pressão sobre o regime intensificaram a crise humanitária, dividindo a comunidade cubana nos EUA. Parte apoia medidas duras contra Havana, enquanto outra teme os efeitos colaterais sobre familiares e sobre a estabilidade regional. Essa divisão pode ser decisiva em estados como a Flórida, tradicionalmente disputados nas eleições.

‘No plano doméstico, a economia permanece como tema central’

No plano doméstico, a economia permanece como tema central. Apesar das promessas de estabilização e de controle da inflação, o custo de vida continua elevado, afetando principalmente as famílias de baixa e média renda. 

A persistência de preços altos em energia, saúde e alimentos fortalece o discurso democrata em favor de políticas de bem-estar social. Esse fator, mais do que qualquer outro, pode ser determinante para o resultado das midterms, já que a economia é tradicionalmente o tema mais sensível ao eleitorado. A insatisfação com a situação econômica tende a se traduzir em votos de protesto contra o partido no poder, aumentando as chances de os democratas recuperarem assentos no congresso.

Diante desse panorama, a configuração do congresso pode sofrer alterações significativas. A perda de assentos republicanos em estados competitivos é uma possibilidade concreta, o que dificultaria a aprovação de projetos legislativos e obrigaria Trump a recorrer com maior frequência a ordens executivas. 

‘A combinação de políticas externas agressivas, medidas internas repressivas e uma economia fragilizada cria um ambiente político adverso que pode enfraquecer os republicanos’

As midterms de 2026, portanto, não apenas avaliarão o desempenho do presidente, mas também definirão os limites de sua capacidade de governar nos dois anos finais de mandato. Em síntese, a combinação de políticas externas agressivas, medidas internas repressivas e uma economia fragilizada cria um ambiente político adverso que pode enfraquecer os republicanos e abrir espaço para uma recomposição do poder legislativo em favor dos democratas. 

Além disso, perante este cenário as declarações do presidente Trump em 16 de julho, não devem ser vistas isoladamente. Ao retomar acusações sobre a eleição de 2020 e insinuar interferência estrangeira, o presidente busca reforçar uma narrativa de desconfiança no sistema eleitoral, preparando terreno para contestar eventuais derrotas nas midterms

Essa postura tem dois efeitos centrais: por um lado, mobiliza sua base mais fiel, que vê na denúncia de fraude uma justificativa para manter apoio irrestrito; por outro, tensiona ainda mais as instituições democráticas, colocando em xeque a credibilidade do processo eleitoral. 

O discurso também funciona como instrumento de pressão sobre o Congresso e os tribunais, sinalizando que Trump pretende governar mesmo em um ambiente de oposição ampliada. Em última instância, a estratégia revela uma tentativa de transformar a eleição legislativa em uma nova disputa de narrativas, onde a legitimidade do resultado pode ser questionada antes mesmo de ser consolidada.

Artigos e comentários de autores convidados não refletem, necessariamente, a opinião da revista Interesse Nacional

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