06 maio 2026

As plantas de dessalinização como alvo de guerra 

A guerra no Oriente Médio abriu um precedente inédito e alarmante ao transformar plantas de dessalinização em alvos militares estratégicos. Em uma região onde milhões de pessoas dependem quase integralmente da água dessalinizada para sobreviver, ataques contra essa infraestrutura expõem a fragilidade hídrica do Golfo Pérsico, ampliam o risco de colapso humanitário e colocam em xeque a capacidade do direito internacional de proteger serviços essenciais em cenários de conflito

Planta de dessalinização (Foto: Wikimedia Commons)

Por Arthur Henrique Taparelli e Natalia Fingermann*

A guerra que eclodiu no Oriente Médio, em 28 de fevereiro de 2026, deflagrada pelos Estados Unidos e Israel contra o Irã, rapidamente transcendeu os alvos militares convencionais. Em poucos dias de conflito, instalações de infraestrutura civil, tais como escolas, hospitais, pontes etc, passaram a ser atingidas e, entre elas, um elemento vital, mas freqüentemente negligenciado nas análises geopolíticas tornou-se um alvo: as plantas de dessalinização de água.

Para os países do Golfo Pérsico, essas instalações não são meros aparatos industriais, pois são essenciais para a sobrevivência humana em um ambiente que recebe, em média, entre 100 e 200 milímetros de chuva por ano. Sabemos que, sem a água dessalinizada, cidades inteiras enfrentariam um colapso de abastecimento em questão de poucos dias. Essa vulnerabilidade estrutural converte as plantas de dessalinização em alvos de alto valor estratégico e, ao mesmo tempo, em potenciais armas de coerção contra as populações civis. 

Nesse contexto, esse texto busca examinar como os bombardeios a plantas de dessalinização emergiram como ferramenta de guerra no contexto da crise hídrica regional, bem como analisar quais são as implicações humanitárias e jurídicas dessa prática ao sistema internacional.

A crise hídrica estrutural do Oriente Médio

O Oriente Médio já carregava, antes do conflito, uma das maiores vulnerabilidades hídricas do mundo. De acordo com o Banco Mundial, a disponibilidade de água na região é cerca de dez vezes inferior à média global (World Bank, 2022). Segundo o World Resources Institute, aproximadamente 83% da população do Oriente Médio já convive com escassez hídrica severa, número que, pelas projeções atuais, poderá se aproximar de 100% até 2050, em função das mudanças climáticas (WRI, 2023).

Nesse cenário, a dessalinização de água do mar deixou de ser uma alternativa e se tornou a espinha dorsal do abastecimento hídrico de praticamente todos os países do Golfo Pérsico. Segundo o Arab Center Washington DC, os Estados membros do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG) respondem por cerca de 60% da capacidade global de dessalinização, produzindo aproximadamente 40% de toda a água dessalinizada do mundo (Arab Center, 2023).

A dependência das plantas de dessalinização varia de severa a absoluta na região. No Bahrein e no Kuwait, a água dessalinizada corresponde a cerca de 90% do abastecimento; em Omã, por 86%; na Arábia Saudita, por aproximadamente 70%; e nos Emirados Árabes Unidos, por 42% (IFRI, 2022). No Qatar, esse percentual pode superar 99%. Israel, embora com tecnologia hídrica avançada, também depende da dessalinização para atender cerca de 80% de suas necessidades de água potável (Atlantic Council, 2026). Essa dependência reflete uma equação insustentável entre crescimento populacional acelerado, desenvolvimento econômico intensivo e recursos hídricos naturais ínfimos.

A CIA alertou já em 2010 que a interrupção de instalações de dessalinização na maioria dos países árabes “poderia ter consequências mais graves do que a perda de qualquer outra indústria ou commodity” (apud Atlantic Council, 2026). Um telegrama diplomático americano de 2008, divulgado pelo WikiLeaks, estimou que Riad poderia precisar ser evacuada no prazo de uma semana caso a planta de dessalinização de Jubail fosse gravemente danificada (Gulf News, 2026).

O Irã também enfrenta uma crise hídrica regional devido à seca severa que atinge o país pelo quinto ano consecutivo. No entanto, a sua dependência em relação às suas plantas de dessalinização é muito menor do que aquela apresentada pelos países do Golfo Pérsico, uma vez que o país possui diversos rios e barragens com capacidade de abastecer a sua população (Atlantic Council, 2026). 

Plantas de dessalinização como alvos no conflito de 2026

Nos dias 7 e 8 de março de 2026, pela primeira vez desde a Guerra do Golfo de 1991, plantas de dessalinização foram diretamente atingidas em um conflito entre Estados. O Ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, acusou os Estados Unidos de atacar uma planta de dessalinização de água doce na Ilha de Qeshm, no sul do país, afetando o abastecimento de aproximadamente 30 aldeias (Al Jazeera, 2026). O governo iraniano classificou o ataque como “um precedente perigoso com graves consequências”.

No dia seguinte, o Ministério do Interior do Bahrein anunciou que um drone iraniano havia danificado uma planta de dessalinização no país, acusando Teerã de “atacar aleatoriamente infraestrutura civil”. A autoridade de água e eletricidade do Bahrein informou que o incidente não comprometeu o fornecimento de água naquele momento, mas o episódio abriu um precedente alarmante aos países do Golfo Pérsico, altamente dependentes dessa fonte de água potável (Fortune, 2026; Arab News, 2026).

O Kuwait e os Emirados Árabes Unidos também reportaram que mísseis haviam atingido as suas instalações de dessalinização (Atlantic Council, 2026). Enquanto o ministro iraniano de energia, Abbas Aliabadi, declarou que esses ataques eram uma retaliação aqueles que já tinham atingido “dezenas de instalações de transmissão e tratamento de água e destruíram partes críticas das redes de abastecimento” do Irã (Arab News, 2026).

Essa lógica de retaliações recíprocas se instaurou rapidamente no conflito, ainda mais após o presidente Donald Trump ameaçar a destruição das usinas elétricas do Irã, se o Estreito de Ormuz não fosse reaberto em 48 horas. Logo em seguida, o porta-voz do Quartel-General Khatam al-Anbiya, Ebrahim Zolfaghari, emitiu aviso formal: qualquer ataque à infraestrutura energética iraniana implicaria ataques contra “toda a infraestrutura energética, de tecnologia da informação e de dessalinização pertencente aos EUA e ao regime [israelense] na região” (Iran International, 2026).

O presidente do parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, reforçou a ameaça em publicação no X (antigo Twitter), alertando que “a infraestrutura crítica, a energia e o petróleo de toda a região serão destruídos de forma irreversível” (Fortune, 2026). O cientista iraniano e funcionário da ONU Kaveh Madani foi ainda mais direto ao advertir que “a região mais seca do mundo pode ver uma guerra real pela água” e que as repercussões econômicas para os EUA “seriam imediatas e duradouras” (Fox News, 2026).

Os eventos de 2026 abrem um novo precedente histórico, pois apesar de ataques a plantas de dessalinização já terem sido realizadas pelos houthis na Arábia Saudita e outros grupos não-estatais (Anadolu Agency, 2026), essa é a primeira vez que três Estados-nações com alta capacidade bélica usam de mísseis para atingir esse tipo de infraestrutura, desrespeitando veementes as normativas do direito internacional.  (Arab News, 2026).

Impactos humanitários e econômicos potenciais

Se a escalada dos ataques se concretizar na destruição sistemática de plantas de dessalinização, as consequências para as populações civis seriam catastróficas. Mohammed Mahmoud, especialista em segurança hídrica da Universidade das Nações Unidas, sintetizou o risco: “Quando você impacta a infraestrutura que gera o abastecimento de água e ela vai para o modo offline, isso cria uma situação realmente perigosa” (AnadoluAgency, 2026). 

A economista de água Esther Crauser-Delbourg alertou que populações poderiam ser forçadas ao êxodo em massa, com racionamento severo. O impacto afetaria não apenas o abastecimento doméstico, mas também o turismo, a indústria e os datas centers, que consomem grandes volumes de água para resfriamento dos sistemas (Arab News, 2026). Dado que cidades como Dubai dependem quase integralmente da água dessalinizada, mesmo interrupções temporárias poderiam precipitar crises de abastecimento com consequências em cadeia.

As plantas de dessalinização são sistemas profundamente integrados às redes elétricas nacionais. Um ataque bem-sucedido não apenas interromperia o fornecimento de água, mas poderia desencadear apagões em larga escala ou demandar evacuações completas de áreas urbanas (Atlantic Council, 2026). A interdependência entre água e energia, “sem água dessalinizada não há energia, sem energia não há água”, amplifica exponencialmente os efeitos de qualquer ataque a essas instalações (ICRC, 2025).

O Estreito de Ormuz, pelo qual passa cerca de 20% do comércio global de petróleo, já estava efetivamente fechado para os países inimigos do Irã ao longo do conflito. A adição de uma crise hídrica sistêmica na região agravaria ainda mais as pressões inflacionárias e os preços globais de energia, efeitos que, segundo Madani, seriam sentidos imediatamente também nos Estados Unidos (Fox News, 2026). A Arábia Saudita, que havia anunciado investimentos de cerca de 80 bilhões de dólares em novas plantas de dessalinização nos próximos anos, veria esses planos ameaçados por um ambiente de insegurança permanente (Atlantic Council, 2026).

Enquadramento jurídico internacional

O Direito Internacional Humanitário (DIH) estabelece proteções expressas para a infraestrutura hídrica civil. O artigo 54 do Protocolo Adicional I às Convenções de Genebra de 1977 proíbe que as partes em conflito destruam ou inutilizem objetos indispensáveis à sobrevivência da população civil, incluindo explicitamente instalações e reservatórios de água potável e obras de irrigação (ICRC, 2025; IIHL, 2025).

O Direito Internacional Humanitário Consuetudinário, sistematizado pelo Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV), reforça a obrigação de distinguir entre alvos militares e infraestrutura civil. A destruição deliberada de plantas de dessalinização pode configurar violações dessas normas e potencialmente comprometer direitos humanos fundamentais, tornando tais ações não apenas moralmente reprováveis, mas juridicamente ilícitas (earth.org, 2026).

Não obstante, o robusto arcabouço normativo, pesquisadores do Springer Nature identificaram que o DIH “falhou em proteger adequadamente a infraestrutura civil crítica, especialmente os recursos hídricos e sistemas gerenciados de água, porque as próprias leis são insuficientes ou inadequadamente aplicadas” (Gleick; Moench, 2019). Como observou o representante da França no Conselho de Segurança da ONU, o mundo “não carece de arsenal jurídico, mas de vontade política” (ONU, 2023).

As opiniões de especialistas convergem na avaliação de que os ataques recentes no Golfo Pérsico demonstram uma erosão perigosa das normas protetivas. A professora Paola Gaeta, do Geneva Graduate Institute, argumenta que a weaponização da água deve ser reconhecida como um método de guerra fundamentalmente incompatível com os princípios básicos da humanidade, legalidade e sustentabilidade ambiental”, demandando desenvolvimento normativo adicional para fortalecer a proteção jurídica (Opinio Juris, 2025).

As Resoluções 2573 (2021), 2417 (2018) e 2730 (2024) do Conselho de Segurança da ONU reforçaram o marco legal de proteção à infraestrutura hídrica e à segurança alimentar em conflitos armados. O presidente do CICV, em pronunciamento de maio de 2025, instou todos os Estados e grupos armados a cumprir suas obrigações legais e morais de garantir o acesso à água durante a guerra, ressaltando que proteger a água é uma questão de sobrevivência (ICRC, 2025).

Conclusão

O conflito de 2026 no Oriente Médio expõe a dimensão estratégica da água em regiões áridas. As plantas de dessalinização, infraestrutura antes considerada um ativo civil inquestionável, tornaram-se alvos táticos e instrumentos de coerção em uma guerra que se aprofunda e se alarga. A lógica de retaliação recíproca, envolvendo EUA, Israel e Irã, ameaça transformar a crise hídrica estrutural da região em uma catástrofe humanitária aguda.

Como demonstrado ao longo deste artigo, a vulnerabilidade hídrica dos países do Golfo encontra no conflito armado seu pior cenário possível. A dependência de 90% do abastecimento de água de plantas de dessalinização no Kuwait, ou de 86% no Omã, não é apenas um dado estatístico: é a medida exata da fragilidade humana diante de bombas e drones.

O Direito Internacional Humanitário oferece proteções formais, mas a ausência de mecanismos efetivos de cumprimento e de vontade política para aplicá-los permite que essas normas sejam sistematicamente desrespeitadas. O crescimento exponencial de conflitos relacionados à água, de 24 incidentes globais em 2000 para 420 em 2024, sinaliza uma tendência que, se não revertida, tornará a “guerra pela água” não uma metáfora, mas uma realidade cotidiana nas próximas décadas. A comunidade internacional deve agir antes que a próxima planta de dessalinização seja destruída e que, com ela, os últimos vestígios de proteção à vida civil em zonas de conflito sejam igualmente demolidos.


Arthur Henrique Taparelli é estudante do 8º semestre de relações internacionais da ESPM

Natalia Fingermann é professora de relações internacionais da ESPM


Referências

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Natalia Fingermann é professora do Bacharelado em Relações Internacionais da ESPM. Doutora em Administração Pública e Governo na FGV SP e Mestre em Social Development na University of Sussex

Artigos e comentários de autores convidados não refletem, necessariamente, a opinião da revista Interesse Nacional

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