09 junho 2022

Avalanche do ‘velhinho do TikTok’ vira as eleições na Colômbia de cabeça para baixo

Com uso competente de redes sociais, Rodolfo Hernández viralizou, mobilizou os eleitores e surpreendeu ao passar ao segundo turno; disputa agora será vencida por quem tiver a maior capacidade de influenciar a agenda, a melhor orquestração da mensagem e a estratégia mais eficiente

Com uso competente de redes sociais, Rodolfo Hernández viralizou, mobilizou os eleitores e surpreendeu ao passar ao segundo turno; disputa agora será vencida por quem tiver a maior capacidade de influenciar a agenda, a melhor orquestração da mensagem e a estratégia mais eficiente

O empresário colombiano Rodolfo Hernández, ex-prefeito de Bucaramanga e candidato à Presidência da Colômbia (Reprodução/Facebook)

Por Carmen Beatriz Fernández*

Tudo parecia calmo e previsível na dinâmica eleitoral colombiana há pouco mais de três semanas. Gustavo Petro permanecia o favorito da corrida por mais de um ano e Fico Gutiérrez seria seu opositor em um segundo turno.

Fico jogou em desvantagem, pois parecia ser a hora do persistente Petro, com uma mensagem reivindicativa que se encaixava bem com a mudança que a Colômbia exigia. Mudança ou continuidade é o dilema eleitoral mais frequente presente em qualquer disputa, e Fico representava claramente a continuidade. Alguns adversários ruins e uma boa companheira de chapa fizeram o resto para que as previsões fossem lineares.

Mas a política não costuma ser linear e, apenas dez dias antes do primeiro turno eleitoral, dois renomados pesquisadores identificaram a possibilidade de Rodolfo Hernández passar naquela primeira votação em vez de Fico. O “engenheiro Rodolfo”, como gosta de ser chamado, ex-prefeito polêmico, falador e um tanto populista, cresceu nas últimas duas semanas em ritmo de avalanche para conquistar 28% do eleitorado, 12 pontos atrás de Petro, e deixando Fico para trás , com 24% representando claramente o voto pró-establishment.

https://interessenacional.com.br/edicoes-posts/o-enigma-da-colombia-as-incertezas-em-torno-da-ascensao-de-rodolfo-hernandez-nas-eleicoes-presidenciais-do-pais/

Assim que a passagem do engenheiro Hernández para o segundo turno foi anunciada, Fico declarou seu apoio à sua causa. Hoje qualquer um pode somar os 24 pontos de Fico aos 28 de Rodolfo e deduzir que Petro vai perder a rodada final. Mas não necessariamente.

A popularidade do engenheiro contra a perseverança de Petro

Uma virtude importante do Petro é a perseverança. No dia seguinte à derrota nas eleições presidenciais de 2018, ele já era candidato de novo. Assim como ele também havia feito quatro anos antes. Ele conseguiu oito milhões de votos no segundo turno de 2018 contra Duque, número muito semelhante ao que obteve neste último domingo eleitoral. Sua mensagem ao longo deste tempo tem sido consistente: de uma perspectiva esquerdista, ele oferece uma mudança antissistema, com uma Colômbia mais justa como objetivo.

‘Em 2022, depois de algumas brigas públicas oportunas com Maduro, o medo de Petro parece ter desaparecido da sociedade colombiana’

Em 2014 e 2018, a associação de Petro com o chavismo o afetou, sendo percebida como um perigo para a Colômbia; Mas em 2022, e depois de algumas brigas públicas oportunas com Maduro, a situação mudou, e o medo de Petro parece ter desaparecido da sociedade colombiana.

Um país desigual

A Colômbia é uma das sociedades com maior desigualdade, em um continente que se distingue, justamente, por grandes desigualdades sociais. Um relatório da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) estimou que uma criança colombiana pobre precisaria de 11 gerações para sair da pobreza.

A mobilidade social é escassa na sociedade colombiana. A Colômbia tem um sistema de estratificação social que divide as camadas da sociedade, de acordo com sua área de residência, em cinco grupos de porosidade difícil. Inicialmente concebido como um sistema de racionalização dos subsídios urbanos, os estratos representam hoje a rigidez do sistema social.

O candidato Rodolfo Hernández em um vídeo no TikTok

Pouco antes do início da pandemia, no final de 2019, protestos vigorosos encheram as ruas da Colômbia exigindo uma sociedade mais justa. E a pandemia só piorou tudo. No nível sub-regional, estima-se que a Covid-19 tenha retirado 25 milhões de empregos formais, proporção superior ao de outras regiões do globo.

A crise causada pela pandemia estaria arrastando mais de 28 milhões de pessoas para a pobreza, novos pobres na América Latina, para um total de 35% da população, segundo dados da CEPAL. Tudo isso torna a mensagem de reivindicação de Gustavo Petro mais oportuna, embora seu novo adversário irreverente dificulte sua diferenciação em termos de mudança/continuidade. Também não será fácil para ele polarizar em termos de esquerda/direita.

Poucas artes são tão multidisciplinares quanto a política, talvez por isso muitas vezes tomamos emprestado de outras ciências para explicar fenômenos político-eleitorais. Um que é frequentemente usado é o da avalanche eleitoral. O termo é tomado emprestado da geologia e ocorre quando um deslizamento de terra ou de neve varre quase tudo em seu caminho. Uma avalanche eleitoral é o grande sonho de todo candidato e consultor. Acontece quando um candidato ou partido recebe a maioria esmagadora dos votos na fase final de uma campanha, diminuindo a visibilidade e o voto dos adversários.

Nas disputas contemporâneas é impossível compreender as avalanches eleitorais isoladas do fenômeno da ciberpolítica. As avalanches eleitorais hoje dependem tanto da viralidade, da mobilização e das redes sociais, quanto as avalanches geológicas dependem das mudanças climáticas, temperatura, declividade e peso do solo.

‘As avalanches eleitorais hoje dependem tanto da viralidade, da mobilização e das redes sociais, quanto as avalanches geológicas dependem das mudanças climáticas, temperatura, declividade e peso do solo’

A avalanche do engenheiro não é exceção. O autodeclarado “velhinho do TikTok” fez muito bom uso de suas redes sociais, de onde distribuiu uma mensagem antissistema, num tom muito popular. “Contra a roubalheira” era a mensagem fundamental. Da mesma forma, ele convidou a tornar possível sua vitória no primeiro turno explicando a matemática eleitoral de forma simples.

Redes sociais, melhores em previsão do que pesquisas

As buscas no Google e as interações no Facebook geradas pelos candidatos tornaram-se melhores em previsões dessa corrida eleitoral do que as pesquisas, cujos tempos regulares de trabalho de campo tornam-se muito lentos devido ao dinamismo das avalanches. Uma avalanche que produz uma vitória esmagadora é muitas vezes vista em retrospecto como um ponto de virada nas opiniões das sociedades sobre as questões políticas que as impulsionam.

Hoje Rodolfo é o favorito, e isso é indicado pelos mercados de apostas eleitorais (outro dos previsores da nova era). No entanto, embora a sorte, boa ou má, acompanhe as avalanches, elas não são meramente um produto do acaso, mas episódios que ocorrem a partir de condições favoráveis.

Em 19 de junho, será realizado o segundo turno. Seja qual for o resultado, o novo presidente se encontrará em minoria em um parlamento recém-eleito. Vencerá quem tiver a melhor preparação prévia, a maior capacidade de influenciar a agenda e a melhor orquestração da mensagem. E estratégia, é claro. Porque como o filósofo romano Sêneca sugeriu há mais de 2 mil anos, quando refletiu sobre a importância da direção em nossas ações: “Nenhum vento é favorável a quem não sabe para onde está indo”.


*Carmen Beatriz Fernández é professora de comunicação política na Universidad de Navarra


Este texto é uma republicação do site The Conversation sob uma licença Creative Commons. Leia o artigo original, em espanhol.


Artigos e comentários de autores convidados não refletem, necessariamente, a opinião da revista Interesse Nacional


Daniel Buarque é editor-executivo do portal Interesse Nacional. Pesquisador no pós-doutorado do Instituto de Relações Internacionais da USP (IRI/USP), doutor em relações internacionais pelo programa de PhD conjunto do King’s College London (KCL) e do IRI/USP. Jornalista, tem mestrado em Brazil in Global Perspective pelo KCL e é autor de livros como "Brazil’s international status and recognition as an emerging power: inconsistencies and complexities" (Palgrave Macmillan), "Brazil, um país do presente" (Alameda Editorial), "O Brazil é um país sério?" (Pioneira) e "o Brasil voltou?" (Pioneira)

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