04 fevereiro 2026

Bombardeios dos EUA em Sokoto ampliam instabilidade e levantam questionamentos sobre soberania na Nigéria 

A ofensiva em Sokoto não foi apenas uma ação militar: ela expôs fissuras internas da Nigéria, reacendeu memórias históricas profundas da Hauçalândia e reconfigurou percepções geopolíticas em uma região já marcada por resistência às potências ocidentais

Sokoto (Foto: Wikimedia Commons)

Mais um bombardeio norte-americano reacende o debate sobre a lógica bélica que sustenta a geopolítica dos Estados Unidos. Depois de intervenções em  países do hemisfério americano, como Panamá, Granada, Haiti e, recentemente, Venezuela, Washington volta a projetar seu poder militar além do continente americano — desta vez em pleno território nigeriano.

A ofensiva começou em 25 de dezembro, justamente na data que simboliza o nascimento de Jesus e a maior celebração do cristianismo, o que adicionou uma camada simbólica dramática a uma operação já politicamente tensa, reforçando uma vez mais a rixa entre cristãos e muçulmanos.

Os ataques concentram-se no estado de Sokoto, no Noroeste da Nigéria. Segundo Trump, os terroristas estariam “viciosamente matando, principalmente, cristãos inocentes”, afirmação que foi veementemente negada pelas autoridades nigerianas. 

Segundo o governo dos EUA, os bombardeios tinham como alvo células do ISWAP–Islamic West Africa Province – e facções associadas ao Boko Haram, que operam de forma fragmentada na região.

‘O ISWAP é um grupo extremista ativo na Nigéria, no Níger e no Chade, formado por facções que se separaram do Boko Haram’

O ISWAP é um grupo extremista ativo na Nigéria, no Níger e no Chade, formado por facções que se separaram do Boko Haram. Suas células funcionam de maneira descentralizada, espalhadas por áreas rurais e florestais, onde realizam ataques armados, sequestros e extorsões para financiar suas operações e manter influência sobre comunidades vulneráveis.

Embora células do ISWAP se encontrem espalhadas por toda a região, a ofensiva aérea americana provocou dispersão imediata não apenas de civis, que fugiram de áreas atingidas, mas também de grupos armados que se deslocaram por todo o país.

Analistas de segurança afirmam que a operação desorganizou a estrutura social das comunidades e vilarejos, além de ter contribuído para a migração de terroristas para áreas ainda mais difíceis de monitorar, o que ampliou o risco de instabilidade em toda a África Ocidental.

‘A escolha de Sokoto como epicentro da operação não foi aleatória. A região é o coração político, religioso e cultural da Hauçalândia’

A escolha de Sokoto como epicentro da operação não foi aleatória. A região é o coração político, religioso e cultural da Hauçalândia — o vasto território histórico dos povos que falam a língua hauçá, que se estende do norte da Nigéria até o Níger, o Chade e o Burkina Faso.

Estima-se que a comunidade de falantes da língua hauçá chegue a 120 milhões de pessoas na região, sendo cerca de 60 milhões somente na Nigéria. No século XIX, Sokoto foi o centro do Califado da Nigéria, uma das entidades islâmicas mais influentes da África Ocidental.

Até hoje, o Sultanato de Sokoto exerce enorme autoridade entre as comunidades muçulmanas da Nigéria, do Chade, do Níger e do Burkina Faso. Atacar esse território significa atingir o centro nervoso de uma civilização que moldou a política e a identidade do Sahel por séculos.

A operação também reacendeu tensões internas na Nigéria. Embora o governo federal tenha confirmado cooperação em inteligência com Washington, o fato de o anúncio ter partido primeiro da Casa Branca gerou críticas sobre soberania e autonomia decisória da Nigéria. Parlamentares e líderes comunitários questionam se Abuja realmente participou da operação ou se apenas reagiu a uma iniciativa unilateral dos EUA. A falta de transparência sobre vítimas civis e danos colaterais alimenta ainda mais a desconfiança em relação ao governo de Bola Tinubu, ele mesmo um muçulmano.

‘No plano regional, o ataque repercute em um momento de profunda instabilidade no Sahel’

No plano regional, o ataque repercute em um momento de profunda instabilidade no Sahel. Burkina Faso, cuja língua oficial é o hauçá, sob o comando de Ibrahim Traoré, tornou-se um dos governos mais críticos à presença ocidental e aproximou-se de novas alianças estratégicas. Diante disso, alguns analistas internacionais interpretam o bombardeio em Sokoto como parte de uma disputa geopolítica mais ampla. Dentro dessa leitura, há quem veja a operação como um gesto de pressão indireta sobre regimes militares do Sahel — inclusive o de Traoré — embora não haja confirmação oficial de tal intenção.

Em vez de reduzir tensões, os bombardeios ampliaram debates sobre soberania, segurança e legitimidade das intervenções externas na África Ocidental.

A ofensiva em Sokoto não foi apenas uma ação militar: ela expôs fissuras internas da Nigéria, reacendeu memórias históricas profundas da Hauçalândia e reconfigurou percepções geopolíticas em uma região já marcada por resistência às potências ocidentais. O episódio ocorre em um ano eleitoral na Nigéria, o que amplia seus efeitos políticos. A segurança nacional tende a ocupar lugar central no debate público, e a percepção de interferência externa pode influenciar o posicionamento de eleitores, partidos e lideranças regionais.

Vanessa Africani é especialista em comunicação e marketing com experiência profissional em promoção de negócios. Atua na promoção com ênfase no continente africano e na promoção de relações bilaterais e comerciais com diversos países do Mercosul, Américas e África. Ronaldo Vieira é diplomata de carreira, mestre em Relações Internacionais.

Artigos e comentários de autores convidados não refletem, necessariamente, a opinião da revista Interesse Nacional

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